Lanço mão aqui de conceito originalmente proposto pelo filósofo e poeta martinicano francês Édouard Glissant (1928-2011), conceito que vou, aqui, arriscar estender para essa nossa cena contemporânea, com seus apelos, bônus e ônus. O conceito a que me refiro é o do “direito à opacidade”, que seria associado ao que ele, Glissant, denominou “crioulização” da inquirição filosófica e da poética. Tal crioulização deveria ser vista em termos de uma “(…) mestiçagem acrescida de uma mais-valia que é a imprevisibilidade” (carta de Glissant a Diva Barbaro Damato, datada de 1996, exposta na 34ª Bienal de São Paulo, neste ano). Essa imprevisibilidade seria justamente o aspecto crucial que une esse conceito àquele de opacidade, pois tal opacidade refere-se à irredutibilidade de uma cultura a outra, outra que tenta, a partir de uma suposta hegemonia epistemológica, “desvendar” a cultura-alvo – processo que o leitor já deve ter reconhecido como caro ao pensamento colonial na antropologia, filosofia e outros domínios do pensamento. Glissant chama a atenção para o fato de que a irredutibilidade aludida acima deveria ser encarada com humildade e sobretudo respeito pelas diversas visões de mundo brancas-ocidentais-dominantes, quando tais aparatos analíticos tentam fazer sentido do mundo crioulo e mestiço, abaixo do Equador. Tal mundo, escreve Glissant, deveria usufruir da licença, do “direito” de não ser completamente compreendido, ou reduzido a uma única narrativa ou identidade. O direito, finalmente, a certo grau de “opacidade”, vista aqui não como sinal do fracasso do pensamento inquiridor que tenta enquadrar a alteridade de grupos étnico-raciais, mas como admissão honesta de que tais grupos não podem vir a ser “completamente compreendidos”, no sentido de “reduzidos a uma única narrativa ou identidade”.
Perceba o leitor e a leitora que a opacidade, e o “direito à opacidade”, são elementos cruciais no processo de reeducação do pensamento face à postura colonial e neo-colonial de pretensão de determinado pensamento dominante explicar, dar conta de fenômenos oriundos dos mais diversos nichos histórico-culturais em termos de um pretenso universalismo de ideias e princípios oriundos de outros nichos histórico-culturais. O nome desse movimento é dominação, na medida em que uma visão estabelece princípios explicativos centrais (pressupostos) que terão a prerrogativa, o direito, o poder de “explicar” todo um mundo, relegando outras visões à vala comum do “pseudoconhecimento”. O que usualmente se faz com o auxílio da força bruta, aqui se faz de forma mais refinada, através do auxílio de determinada hegemonia explicativa.
Aqui, nesse curto texto, e ainda e sempre com o auxílio do próprio Édouard Glissant, gostaria de tirar proveito da ideia de (direito à) opacidade como postura vivencial e intelectual, rumo à reflexão sobre este tsunami pós-colonial de submissão das mentes (e corações) propiciada pela IA Generativa. Ora, este filósofo teve a clarividência profética de vaticinar, antes de falecer em 2011, que a postura da contemporaneidade ocidental, cada vez mais superficial, imediatista e subjugada pela digitalização de mídias e produtos textuais, conduziria inexoravelmente a um tempo em que “(…) livros seriam abandonados em bibliotecas, que se tornariam catedrais desconsagradas onde todos aqueles que insistissem em continuar a consultar esses trabalhos estranhos seriam considerados pessoas esquisitas, ou de alguma forma adoecidas.” (Treatise of the Whole-World – Édouard Glissant).
Qual seria, nesse contexto ameaçador que nos cerca, a função que deveríamos preservar para os textos, para os livros? Contrapor à enxurrada de informações, à aceleração das experiências e superficialidade imediatista do pensamento, à abdicação da inquirição, contrapor a essa onda atroz a capacidade de pausar. PAUSAR! Renunciar à postura ensandecida segundo a qual tudo é explicável nos termos e ritmos de um pensamento cuja força bruta aboliu toda e qualquer veleidade a qualquer opacidade. A IA Generativa TUDO sabe, e a TUDO responde, mesmo que ocasionalmente recorra ao falseamento de informações e dados da forma mais celerada que se possa imaginar.
Glissant vaticinava, décadas atrás, acerca da necessidade, depois de um “primeiro período de excitação, de apetite sem limites em relação à aquisição de conhecimento, propiciada pela tecnologia”, que nós nos ocupássemos da tarefa de “estabilização, regulação de nossos desejos e aspirações e sonhos”, da tarefa de se permitir um “pas en arrière”, um passo que, mais do que um simples recuo (“passo atrás”), configuraria um momento de efetivamente pensar. Um momento de buscar não propriamente a superação definitiva de uma opacidade que impediria a explicação e apareceria, em primeira instância, como obstáculo a vencer, mas como espaço de estranhamento saudável perante a diferença.
A construção desse espaço de estranhamento está, definitivamente, fora do escopo da Inteligência Artificial Generativa, pela simples e boa razão de que essa ferramenta reduz TUDO a dados e informações, considerando situações de ausência/carência desses dados como etapa a superar. Como falta a suprir, na certeza de que aquilo que não se explica hoje deverá, mais cedo ou mais tarde, vir a ser explicado. Em outras palavras, a opacidade como estado provisório de uma carência que será inexoravelmente suprida. Porque o sistema de significados, narrativas e formas de pensar, cristalizados em sistemas de IA, não é “uma” possibilidade, mas o único caminho plausível e disponível para explicar, colonizar, domesticar e aplainar as falhas e imperfeições de um mundo crioulo, inviável, primitivo, opaco de si para si, mas não opaco face ao Grande Olho Azul, que nem tudo explica, mas tudo, necessariamente, explicará. Não explicará.

Inteligência Artificial como visão de mundo:
Confiável como alguém que tem certeza de que se elevará do chão puxando seu próprio cabelo.
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Foto da Capa: Édouard-Glissant / Reprodução do Youtube

