Quando a gente olha os dados da educação no Brasil, dá vontade de entrar debaixo do edredom, cobrir a cabeça e esquecer o mundo lá fora. Mas e se, no meio desse cenário aparentemente cinza, existissem pequenos faróis de esperança? E se eu disser que, na mesma semana, fui abençoado por três experiências que me fizeram acreditar que gente motivada é capaz de mudar o mundo?
Começo pela cena que me derreteu o coração: fui convidado para uma roda de conversa com crianças de 5 anos da educação infantil do Colégio Rosário. Cheguei lá sem saber exatamente o que dizer. Para minha surpresa, aqueles pequenos, que alguns ainda trocam o “r” por “l”, me contaram que estão preocupados com o derretimento do Polo Norte e com os ursos polares. Mostraram duas maquetes que construíram: “o mundo que temos” e o “mundo que queremos”. E, com uma bombona plástica e muita imaginação, inventaram a “máquina para limpar o ar”. Sim, uma invenção digna de um Nobel da Sustentabilidade, que vão levar para as Olimpíadas Maristas. Encantador!!!
Tentei trazer o tema mais para perto e perguntei o que provoca a poluição do ar? Resposta em coro: “Carros! Indústrias! Queimadas!” A conversa abriu espaço para o consumo e para ações práticas. “E se trocarem brinquedos com um amiguinho? Ou usarem a roupa do irmão mais velho?” As fábricas não precisarão produzir tantos brinquedos e roupas e vão fazer menos fumaça! Vi aquelas cabecinhas dizendo sim. Eles entenderam e aparentemente aceitaram. Saí emocionado com estes pequenos faróis de esperança.
A segunda experiência foi pura leveza e aprendizado. Durante a semana da criança, foi a vez do “cabelo maluco” nas escolas. De brincadeira, sugeri aos meus alunos da pós-graduação (mestrandos e doutorandos) que viessem na próxima aula de cabelo maluco. E não é que eles toparam? Até quem não tinha cabelo participou. Foi um desfile de criatividade e o riso tomou conta da sala. Resultado? Num ambiente acolhedor, os vínculos crescem e aumentam as conexões. Quando se une conteúdo com experiências significativas, o aprendizado fica mais bem armazenado no cérebro.

A terceira experiência foi uma corrida contra o relógio. Soubemos de um edital lindo, que ligava projetos socioambientais e produção de conteúdo. Problema: faltavam três dias. Perguntei ao nosso grupo de pesquisa: “Alguém topa essa missão impossível?”. Para meu espanto (e um certo desespero interno), todos aceitaram! Numa parceria com uma ONG, desenvolvemos o projeto que chamamos de “Rede de Agentes de Transformação – Plataforma Territórios Vivos”.
Foi uma correria que parecia um hackathon ou as antigas gincanas de colégio: busca por cartas de apoio, respaldo institucional, noites maldormidas. Na reta final, faltando seis horas para o encerramento do prazo, eu tive a sensação de que, apesar de todo o empenho da equipe, não conseguiríamos concluir em tempo. Depois de tanto esforço, morrer na praia seria muito frustrante. Pedi mais ajuda e ela veio de todos os lados, fomos invadidos por uma energia que motivou a todos. Era um tal de “vamos lá, vai dar sim, deixa comigo que eu faço” e, quando faltava cerca de meia hora para o prazo final, conseguimos submeter o projeto. A sensação foi de vitória, alívio e uma certa incredulidade: “Ufa… conseguimos!”.
O que esses episódios têm em comum? Eles não precisaram de verba bilionária, nem de um plano mirabolante. Precisaram de gente motivada, com uma causa clara e vontade de agir. Acredito, de verdade, que existem mais pessoas boas no mundo do que más. Então, por que às vezes parece o contrário? Porque as notícias ruins gritam mais alto, viralizam mais rápido e ocupam nossas timelines. Mas as pequenas ações, as maquetes de escola, o cabelo maluco e as noites em claro de um grupo que se ajuda são o antídoto silencioso.
Sim, o mundo enfrenta uma crise climática, guerras, ódio e isso assusta. O futuro não é uma profecia a ser cumprida, mas uma semente a ser regada. Ele está nas mãos de uma criança que desenha um mundo melhor, na coragem de um adulto que não tem vergonha de brincar e na teimosia de quem acredita até o último segundo.
A esperança, descobri, não é um sentimento passivo que se espera chegar. É uma máquina que se inventa, um penteado que se ousa, um projeto que se submete contra tudo e todos. É uma escolha. E eu, daqui para frente, escolho nadar. De cabelo maluco, se for preciso.”
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Foto da Capa: Acervo do Autor.

