Mal dezembro despontava no calendário, e a ansiedade já se espalhava pelos cômodos do chalé de madeira onde eu morava. Meu pai não nos deixava esquecer da viagem que faríamos em poucos dias: traçava roteiros de passeios, revivia a própria infância, comentava as festas que, naquele ano, não perderíamos. Enquanto muitos se ocupavam com a ceia de Natal, nós arrumávamos as malas. As férias coletivas dos meus pais, sempre nesse período, eram a oportunidade perfeita para visitarmos os parentes do interior, das “colonhas”, como ele gostava de dizer.
Quanto mais se aproximava a data da partida, mais eufórica eu ficava. Via minha mãe conferindo documentos, preparando lanches para a estrada, e imaginava como seriam aqueles dias longe de casa. Não me preocupava com presentes; naquele tempo eu ainda não havia sido contaminada pelo consumismo apocalíptico do final do ano. A justificativa de que o Papai Noel não entrava em casas onde os moradores não estavam era suficiente para me convencer a esperar por ele. A viagem, por si só, já me bastava. E, sem dúvidas, eu receberia muitos agrados dos parentes distantes. Afinal, crianças pequenas sempre foram muito mimadas na minha família.
No fim da tarde do dia 24, começávamos a jornada pegando o primeiro ônibus até o centro de Novo Hamburgo, depois outro rumo à Rodoviária de São Leopoldo. De lá, seguiríamos para Frederico Westphalen, ponto de partida para os muitos caminhos que nos aguardavam. Seria mais uma viagem longa: cerca de sete horas de estrada. Minha mãe me dava um Dramin para evitar os meus costumeiros enjoos, mas antes de dormir e perder grande parte da viagem, eu me detinha à observar o mundo pela janela. Neste caso, o meu pequeno mundo, que se tornava imenso ao ser carregado de criatividade infantil.
Do colo dos meus pais, eu alimentava a curiosidade pelo que ainda não conhecia. Encantavam-me os prédios enormes, os viadutos que pareciam não ter fim, as cidades acesas. E, quando o ônibus avançava por trechos dominados pelo breu, eu ansiava voltar logo às áreas urbanas para reencontrar as decorações natalinas: pinheiros, Papais Noéis infláveis, enfeites e luzes coloridas. Em cada casa iluminada, eu imaginava a ceia posta, as famílias reunidas, a troca de presentes e tudo o que se escondia por trás daquelas portas e janelas: histórias e pessoas que eu jamais conheceria. Perguntava-me se havia crianças ali dentro e se o Papai Noel não estaria circulando pelos cômodos, atento para não ser descoberto. Fantasiava que, quem sabe, eu pudesse surpreendê-lo escalando um telhado ou atravessando uma janela com a ajuda de alguma magia.
Muitos anos depois, já adulta, lembrei-me dessas viagens ao ler um conto de Hans Christian Andersen para meus alunos. A Pequena Vendedora de Fósforos narra a história de uma menina pobre que, numa noite gelada de Ano Novo, tenta vender fósforos pelas ruas. Antes de ser alcançada pela morte, ela busca se aquecer riscando um fósforo após o outro. Enquanto as chamas duram, vê imagens de aconchego: uma lareira, um banquete e a avó que a acolhe no céu, um lugar sem fome, sem frio, sem medo. Na manhã seguinte, é encontrada morta, com um leve sorriso no rosto, rodeada pelos fósforos queimados.
De certa forma, as visões daquela menina devolveram-me a lembrança do que eu sentia ao olhar pela janela do ônibus: a crença de que havia ternura escondida por trás das portas iluminadas. Mas, ao contrário dela, eu não estava sozinha. No final da viagem, muita gente esperava por mim. E, quando o passeio acabava, eu tinha uma casa para onde voltar.
Hoje entendo que aquela segurança infantil era um luxo que eu nem sabia possuir. Bastava encostar a testa no vidro frio e acompanhar o piscar das luzes lá fora para acreditar que o mundo inteiro era acolhedor. Eu desconhecia outras realidades. Não tinha maturidade para perceber que, não muito longe de mim, havia crianças que não viajavam na noite de Natal, mas permaneciam nas ruas. Algumas, acompanhadas de irmãos ou dos pais, não teriam ceia nem presentes, mas ao menos teriam afeto. Outras tantas aguardariam o próximo ano com a esperança de, enfim, terem um Feliz Natal.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

