No dia 10 de julho de 2025, a Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 3.716/2023, que inscreve o nome de Dom Helder Câmara no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria. O projeto seguiu para sanção do presidente Lula, e o nome do arcebispo de Olinda e Recife agora passará a constar entre figuras como Zumbi dos Palmares, Chico Mendes, Dandara e Antonieta de Barros no chamado “Livro de Aço”, depositado no Panteão da Pátria, em Brasília. Trata-se de um gesto mais do que simbólico: é o reconhecimento oficial de uma das figuras mais corajosas, humanas e revolucionárias da história recente do Brasil.
Meus sentimentos não cabem em palavras, porque Dom Helder ocupa um atravessamento imensurável em minha vida. Trago comigo sua lição: “Ninguém pode se conformar com as injustiças. O mundo pode ser transformado. Essa transformação nunca virá dos governos e estruturas de poder. Só ocorrerá se vier dos pequenos e pobres do mundo”, repercutida no refrão da canção das comunidades, proferido com entusiasmo: “Eu acredito que o mundo será melhor, quando o menor que padece acreditar no menor.” Quantas vezes, em seus sermões dominicais, o escutei falar da “pressão moral libertadora”, da “não violência ativa”, alinhando-se a grandes heróis como Mahatma Gandhi e Martin Luther King.
Dom Helder nasceu em Fortaleza, em 1909, e tornou-se uma das vozes mais contundentes contra a miséria, a violência institucional e a repressão política durante a ditadura militar. Sua opção pelos pobres não era retórica: vivia com simplicidade, andava entre os oprimidos e falava com convicção sobre a possibilidade de um mundo justo. Ele dizia: “Ninguém pode se conformar com as injustiças. O mundo pode ser transformado. Essa transformação nunca virá dos governos e estruturas de poder. Só ocorrerá se vier dos pequenos e pobres do mundo.” Dom Helder rejeitava a “sina Severina”, o fatalismo que remetia a Deus a responsabilidade pela miséria nordestina, e denunciava a “indústria da seca”. Ele não se calou diante das torturas, dos assassinatos e da repressão política — e por isso foi vigiado, censurado e perseguido. Muitas vezes assumiu a causa de presos políticos, protegendo-os, negociando sua liberação, erguendo a voz para defendê-los.
Escutei do próprio Dom que, pouco após sua chegada ao Recife, foi convidado para presidir a celebração eucarística inaugural de uma capela erguida em um engenho rural. Ele aceitou o convite. O filho do proprietário veio conduzi-lo em seu confortável carro. Chegando diante da fazenda, o jovem parou o veículo, chamou o bispo e, acenando com a mão para a extensão do latifúndio, disse: “Veja, Dom Helder, tudo isso é de meu pai.” O sacerdote, sem hesitar, pousou a mão no ombro do moço, fez um gesto circular com o outro braço e respondeu: “Veja, meu filho, tudo isso é do nosso Pai.” Esse era Dom Helder! Sim, sua mensagem sempre foi muito clara: “Eu tenho fome e sede de paz. Dessa paz do Cristo que se apoia na justiça. Eu tenho fome e sede de diálogo, e é por isso que eu corro por todos os lados de onde me acenam, à procura do que pode aproximar os homens em nome do essencial… E falar em nome daqueles que são impedidos de fazê-lo.”
Dom Helder negava insistentemente a profissionalização da miséria, a sina Severina, o fatalismo como “vontade de Deus”, que alimentou a indústria da seca. Dele, escutei inúmeras vezes o eco de Medellín a bradar: “Ricos cada vez mais ricos às custas de pobres cada vez mais pobres.” Testemunhamos com emoção a saudação que lhe dirigiu o Santo Papa João Paulo II, em 1980, quando de sua passagem pelo Brasil: “Irmão dos pobres e meu irmão”, enquanto o povo emocionado gritava: “Rei, rei, rei, Dom Helder é nosso rei.” No ano seguinte, o mesmo Papa, em mensagem pelos cinquenta anos de sacerdócio do arcebispo, escreveu: “Deus e os irmãos foram para você os dois polos de um mesmo arco que lança a faísca luminosa do amor.”
Dr. Manoel Moraes, coordenador geral da Comissão Executiva do Centro Dom Helder Câmara de Estudos e Ação Social (Cendhec), relatou que Dom Helder “é o brasileiro que mais vezes foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz, com quatro indicações. Desde a primeira, em 1970, a ditadura militar brasileira empreendeu uma dura campanha difamatória sobre o religioso no exterior, associando-o ora ao integralismo, ora ao comunismo. Dom Helder perderia o prêmio para o criador do ‘milho híbrido’. Ele ainda seria indicado nos três anos seguintes, sem sucesso.”
Num período marcado por atitudes equivocadamente consideradas conservadoras — atitudes de exclusão e preconceito —, não poderia deixar de concluir com o testemunho de Alceu Amoroso Lima: “[Propus] que ao texto [a ser enviado ao Sínodo pelo plenário da Pontifícia Comissão Justiça e Paz] em que figuravam os nomes de Gandhi e de Luther King se acrescentasse o de Helder Câmara. Temia alguma reação, tal a campanha de difamação com que, no Brasil, conseguiram evitar que o Prêmio Nobel da Paz fosse, pela primeira vez, atribuído a um brasileiro. Mas, pelo contrário, foi essa a única proposta recebida com aplausos. Os profetas só são reconhecidos fora de sua pátria, como os Evangelhos nos dizem e como a experiência da história o confirma.”
Temos agora um justo reconhecimento do Dom que está alçado à condição de herói. Certamente, tal honraria não lhe traria vaidade, nem acrescentaria qualquer coisa à sua envergadura de profeta e apóstolo. Mas é um sinal de esperança de que a luta vale a pena. E, como diria Darcy Ribeiro: Viva o povo brasileiro! Viva o povo que tem o privilégio de ter Dom Helder Câmara!
Finalmente, fica a dica: se o amigo leitor desejar conhecer mais e melhor a força moral e a luta em defesa dos mais pobres e excluídos de nosso herói, poderá ler suas Circulares Ação Justiça e Paz, publicadas em três tomos pela Editora CEPE, de Pernambuco.
Junot Cornélio Matos, cearense de Juazeiro do Norte, casado, pai de duas filhas e vô da pequena Ara. Tem Licenciatura em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco (1985), Mestrado em Filosofia pela UFPE (1994) e doutorado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP (1999). Tem alguns livros publicados, participou da organização de vários outros. Publicou diversos capítulos de livros e artigos sobre Filosofia da Educação e Ensino de Filosofia.
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Foto da Capa: Reprodução de Redes Sociais.

