Ultimamente, tenho observado o mundo feminino por uma fresta nova. Ainda não posso revelar exatamente qual, mas posso dizer que venho acompanhando a intimidade de algumas mulheres em um ambiente em que normalmente não usam máscaras: dentro de casa. E elas revelam muito nas entrelinhas.
Não importa a classe social, escolaridade ou nacionalidade: todas estão cansadas. Umas mais, outras menos, mas todas, sem exceção, sentem o peso de sustentar o dia a dia — filhos, casa, trabalho. Quase todas trabalham remotamente, e isso faz com que tenham que passar o dia intercalando funções.
Digo, sem medo de exagerar, que a saúde mental dessas mulheres está afetada. Sinais de depressão, ansiedade, exaustão são visíveis. Um olhar, uma palavra, um movimento. O peso dessa sobrecarga se reflete no corpo, no humor e nos sonhos. “Só queria poder não fazer nada por algumas horas”, ouvi mais de uma vez.
E se as mulheres parassem?
Fico imaginando como seria se, por uns dias, resolvêssemos parar. Não digo tirar uma folga do trabalho formal, digo parar com o trabalho não remunerado, aquele que assumimos como responsabilidade nossa.
Uma publicação da ONU Mulheres, com dados da OIT, revela que mulheres e meninas dedicam cerca de 2,5 vezes mais horas por dia ao trabalho de cuidados não remunerado do que os homens. Se fosse contabilizado no PIB, esse trabalho poderia chegar a mais de 40% da economia nacional em alguns países.
(“Cuidado: Um Investimento Fundamental para a Igualdade de Gênero” / ONU Mulheres)
Essa sobrecarga feminina tem nome: Economia do Cuidado. Um trabalho essencial e invisível. Para não ficar tão abstrato, vamos fazer uma listinha básica: lavar a roupa, estender, dobrar, passar e guardar. Varrer a casa, tirar o pó, limpar o chão e o banheiro, tirar o lixo, organizar os armários, molhar as plantas, fazer compras, guardar as compras, fazer comida, lavar a louça. Dar banho nas crianças, vesti-las e penteá-las, dar comida, levar para a escola, buscar na escola, levar a criança ou o idoso ao médico, comprar remédios. Se preocupar com o horário dos remédios. Alimentar os animais de estimação, levá-los ao veterinário ou para passear, pagar as contas de casa, conferir a despensa — e por aí vai…
Vou perguntar de novo:
E se as mulheres parassem?
Vou falar de novo:
O peso dessa sobrecarga se reflete no corpo, no humor e nos sonhos.
Participei recentemente de um encontro chamado Mulheres que Inspiram.
Éramos doze mulheres neste dia. Tão diferentes e, ao mesmo tempo, tão próximas. Falamos. E, nas falas, fomos nos reconhecendo: mulheres que equilibram mundos, sofrem em silêncio, se perguntam se vão dar conta — e que, muitas vezes, não dão.
O resultado? Frustração. Desejos empurrados para o segundo plano.
Mas era disso que se tratava: mostrar que existe saída. Que somos capazes de nos (re)educar a não aceitar carregar todo o peso sozinhas. Que podemos quebrar o ciclo, cobrar equilíbrio e, com isso, ter tempo de nos dedicarmos aos nossos sonhos.
Uma delas chegou com a camiseta molhada de leite. Pediu desculpas, mas nem precisava — nós sabemos como é. Falou com empolgação sobre o projeto que está desenvolvendo sobre educação financeira. Outra, aos 79 anos, com paixão e lucidez, discorreu sobre terapia quântica, sobre como reprogramar nossas mentes. Uma terceira apresentou seu projeto enquanto o filho pequeno fazia barulho na sala.
Foram tantas histórias. Reais, cruas, comuns, recorrentes. Mulheres tentando vencer o cansaço e inspirar outras a fazerem o mesmo.
E se as mulheres parassem?
Talvez o mundo parasse junto. Mas não queremos parar. Queremos que entendam que o cuidado não é só responsabilidade de um gênero, mas de todos que se beneficiam dele.
Essa conta precisa ser dividida — e os sonhos, multiplicados.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

