A Semana Farroupilha 2025 acabou, e com ela uma série de atividades culturais de celebração às tradições sul-rio-grandenses. Consigo listar várias ações que vivenciei, presenciei ou pelas quais fui positivamente impactado.
No dia 12 de setembro, o Instituto Sociocultural AfroSul Odomode promoveu, mais uma vez, o Acantonamento dos Lanceirinhos Negros, uma das ações do Projeto Cultural Nossa Identidade. Aproximadamente 30 meninos e meninas, dos 5 aos 12 anos, chegaram à sede da entidade, na Avenida Ipiranga, região leste da Capital, na noite de sexta-feira, e participaram de uma série de experiências construídas a muitas mãos e corações, para garantir-lhes diversão, educação, acolhimento e, sobretudo, pertencimento e apropriação sobre o protagonismo histórico negro, a partir da valorização de seus ancestrais, os Lanceiros Negros, guerreiros e Heróis da Pátria.
A função toda se desdobrou em oficina de Hip Hop, na qual o refrão “Sou AfroSul desde pequenininho, Lanceirinho, Lanceirinha!; Sou Odomode, sou sementinha, Lanceirinho, Lanceirinha!” ecoou por toda noite na adjacências do bairro Jardim Botânico; passou pelo jantar, um saboroso carreteiro de charque, preparado e conceituado historicamente pelas mães e avós que integram o projeto; seguiu, no amanhecer de sábado, 13, com todos vestindo o honroso traje dos Lanceiros Negros e partindo para o Centro Histórico. Lá, estiveram na Praça do Tambor, que conheceram, ouviram e tocaram; visitaram a exposição Lanceiros Negros, no Tribunal de Contas do Estado; e concluíram a jornada educativa e cultural no Mercado Público, onde assistiram à exposição de fotos “A Força da Memória” comemorando os 20 anos do livro “Negro em Preto e Branco”, da fotógrafa e artista gráfica Irene Santos, e lançaram suas moedas ao Bará.
Nessa mesma noite, tive o prazer de conversar, assar carnes e legumes no churrasco de confraternização da nossa Odabá – Associação de Afroempreendedorismo, no território do Piquete Pêlo Escuro, instalado no Acampamento Farroupilha. Encontro, sorrisos, histórias e, inevitavelmente, pertencimento. O piquete é uma demarcação de espaço, uma conquista e lugar de aquilombar, pertencer e enaltecer a diversidade de manifestações da cultura negra. O Pêlo Escuro, ativo desde 2022, é uma das iniciativas do Instituto Oliveira Silveira.
No dia 17, no Colégio João XXIII, por articulação da Comissão Antirracista, formada por famílias e profissionais, houve um encontro que se fortalece como uma nova tradição: a foto dos Lanceiros Negros. Profissionais e famílias negras e inter-raciais se encontram, há três anos, durante a Semana Farroupilha, para registrar o orgulho dos guerreiros ancestrais. Lembram, em leituras e intervenções artísticas, que dezenas de soldados do batalhão negro foram mortos covardemente, em 14 de novembro de 1844, ao serem desarmados previamente num ato de traição de lideranças farroupilhas. Aqueles homens, escravizados em estâncias e que empunhavam lanças com a promessa de liberdade, foram entregues às tropas imperiais no sangrento Massacre de Porongos, localidade onde hoje é o município de Pinheiro Machado. No ano de 2007, o Sítio Histórico de Porongos foi declarado patrimônio histórico e cultural do Rio Grande do Sul, com a Lei Estadual 12.856.
O Tribunal de Contas do Estado, que desde junho abriga em seu memorial a exposição comemorativa Lanceiros Negros, marcando os 90 anos da entidade, também promoveu um seminário sobre a temática, na tarde de 18 de setembro. Na bancada de palestrantes, estudiosos, docentes universitários e artistas. Na plateia, predominantemente negra, a escuta, a assimilação, as trocas e a sensação de pertencimento em cada narrativa. Tanto a exposição, que citei antes, na visita dos Lanceirinhos, quanto o seminário, foram destaque na imprensa, em jornal, em site e na TV, denotando o interesse público da pauta.
No dia 19, foi exibida uma reportagem para a feita em Pinheiro Machado, com elementos históricos remontando a narrativa do episódio de Porongos. Na mesma data, após ser entrevistada sobre a história e suas obras “A Lanceirinha” e “Lanceirinho”, a escritora Ângela Xavier promoveu leitura e sessão de autógrafos do seu trabalho recém-lançado, no Piquete Pêlo Escuro.
Por fim, no dia 20, feriado, foi aberta a 4ª edição do Festival Porongos, na quadra da Imperadores do Samba, com programação que se estende até o mês de outubro. Criado em 2018, nasceu para fortalecer a rede de artistas negros na cena cultural gaúcha e nacional e para homenagear os Lanceiros Negros em sua luta por liberdade.
E essa foi a Semana Farroupilha no Rio Grande do Sul.
Se você chegou até aqui, te convido a refletir:
O que está nessa primeira parte do texto dá conta, no teu ponto de vista, de tudo que representa as celebrações relacionadas ao 20 de setembro?
Outra questão:
Se você tem mais 20 anos de idade, já havia acessado tantas iniciativas sobre a participação dos Lanceiros Negros dentro da programação da Semana Farroupilha?
Em seu livro “O perigo de uma história única” (The Danger of a Single Story, 2009), a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie nos conduz por suas memórias e a de pessoas com as quais conviveu, exemplificando que uma narrativa pode ser limitada e limitante ao multiplicar algo como verdade absoluta.
“É assim que se cria uma história única: mostre um povo como uma coisa, uma coisa só, sem parar, e é isso que esse povo se torna.”
Será que ainda conseguimos conviver com o mito do gaúcho heróico que lutou por suas terras bravamente e, a cada ano, senta perto do fogo para matear, comer churrasco e enaltecer a história dos antepassados, omitindo que estes escravizaram e usaram homens negros como “bucha de canhão” ou moeda de troca, em nome da “paz”?
Nem pela minha, e creio que nem pela tua visão, essa é a única versão a ser perpetuada. Em idade escolar não tive a oportunidade de conhecer, ouvir relatos ou me trajar como os Lanceiros Negros. Essa, depois de inúmeras edições da Semana Farroupilha, se torna uma possibilidade para crianças, jovens e adultos.
Tratar algumas narrativas como única verdade ou negar, ignorar e apagar episódios significativos para segmentos da população são formas de impor um olhar limitado e limitante que não representa a diversidade dos acontecimentos. Por décadas, quase dois séculos (1835-2025), a predominância de um discurso ocultou, apagou o que não convinha para muitas pessoas ser dito. Como confrontar as estátuas e outros monumentos erigidos em nome, exclusivamente, daqueles que eram vistos como os únicos heróis farroupilhas?
Houve historiadores, educadores e uma forte tradição oral que sustentou a versão da história que alijava as pessoas negras de uma ideia de pertencimento a essa história, ou as relegou à margem.
As crianças que hoje se vestem em memória aos Lanceiros o fazem em um ato simbólico de evocação da memória de sua ancestralidade. Buscam, como seus pais, mães, educadores e outras tantas pessoas adultas que compunham a maior parte da plateia do TCE-RS, a sua representatividade, o seu pertencimento (observe a recorrência dessa palavra apenas neste texto).
Edjana Deodoro, mãe, artista múltipla, fisioterapeuta, bailarina e herdeira da tradição Afro-Gaúcha construída por sua família no AfroSul Odomode, disse, durante sua fala no Seminário Lanceiros Negros, dia 18 de setembro, que “a educação antirracista é para quem deseja acabar com o racismo. Para isso, é necessário entender a ideia de branquitude”.
Sua frase é completa e ilustra que educar para o antirracismo transcende as paredes da sala de aula e os muros de uma escola. Se educa para o antirracismo no cotidiano, na vida real, agindo como mãe, como avó, amigo, madrinha, vizinho, tia. Promover vivências com pertencimento e indicar novas referências para o resgate histórico são formas de educar adultos e crianças em um novo contexto social, onde a informação está mais acessível e permite olhar crítico e construtivo.
Essa conversa pode ir mais longe, mas pressupõe abertura, diálogo e letramento. Ao mesmo tempo, precisamos lembrar a diversidade das populações que integram o Rio Grande do Sul, mesmo entre pessoas negras, indígenas e brancas que não se identificam com as manifestações citadas aqui, e nem por isso deixam de ser gaúchas.
A cada ano temos a oportunidade de ressignificar o 20 de setembro.
Eduardo Borba é jornalista graduado pela PUCRS, pai, integrante de ações para promover a Diversidade, Equidade e Inclusão, como a Odabá - Associação de Afroempreendedorismo e a Comissão Antirracista do Colégio João XXIII. Mestre em Comunicação Social, é especialista em Direitos Humanos, Responsabilidade Social e Cidadania
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Foto: Vitor Pires Deodoro
Foto perfil: Cíntia Rodrigues


