Raiva, nojo, medo, impotência, vergonha, humilhação e culpa. Tudo junto e misturado são sentimentos que invadem mulheres que diariamente são vítimas de assédio nos ambientes de trabalho.
E quando se trata de assédio, entre outras atitudes, estamos falando sobre contatos não desejados em nossos corpos, contar histórias ou piadas com conteúdo sexual, solicitar favores de conteúdo sexual (Ah, me dá um beijinho! Um abraço! Entre outros mais cabulosos), enviar email ou mensagens por whats, com textos ou imagens de natureza sexual, etc.
E não é só o assédio sexual no ambiente de trabalho, nós infelizmente escutamos reiteradamente piadas de mau gosto sobre o fato de ser mulher, como “Deve estar na menopausa…São os hormônios da gravidez… É certo que tá na TPM pra que esteja tão emotiva / irritada / agitada”. Levante o dedo a mulher que já não foi alvo de um desses comentários no ambiente de trabalho. Enquanto isso, se um homem demonstra emoção, dependendo do contexto talvez até seja elogiado porque se mostrou sensível, “descontruído”, mas se está irritado ou agitado, logo se justifica por conta do excesso do trabalho tamanho estresse. Imagina culpar seus hormônios!
Ser mulher não é fácil. Não porque a gente não sinta os efeitos por conta desses ciclos da vida pelas quais passamos, e que são absolutamente normais e fruto da nossa natureza e da força que dela brota, mas porque somos pasteurizadas como se todas nós nos comportássemos da mesma maneira ou como se eles fossem sinais de fraqueza e por eles somos estereotipadas de forma negativa.
O número de novas ações de abuso na Justiça do Trabalho relacionadas a assédio sexual cresceu 35% entre 2023 e 2024, passando de 6.367 para 8.612 processos em nível nacional. As mulheres são autoras em cerca de 70% desses casos. No Rio Grande do Sul, O assédio sexual também cresceu, com um aumento de 8,97% em 2024, totalizando 413 novos processos.
Este aumento no número de denúncias e processos pode ser explicado pela maior conscientização de mulheres, as campanhas de combate ao assédio e a publicização de casos com mais visibilidade ao problema, incentivando as vítimas a romperem o silêncio.
Quem são as assediadas
Conforme pesquisa realizada pela Think Eva com a parceria do Linkedin indicou, o assédio sexual atinge as mulheres de maneira desigual, negras (pretas e pardas) e mulheres com rendimentos menores são as principais vítimas. A maioria afirmou ocupar cargos de assistente (32,5%), posição pleno ou sênior (18,6%), estagiária (18,1%) e posições júnior (13,4%). Mulheres em cargos de direção representam o menor número, com 2,4%.
E mesmo que o número de mulheres que ocupam posições hierárquicas mais altas sejam quantitativamente menores, o assédio não deixou de ser uma realidade. Entre as entrevistadas que declararam desempenhar a função de gerente, 60% afirmaram terem sido vítimas de assédio. No caso de diretoras, o número chegou a 55%.
E, felizmente, as mulheres estão falando mais sobre violência sexual no ambiente de trabalho. Essa mesma pesquisa da Think Eva com o Linkedin mostrou que o tema é recorrente. As mulheres conhecem o tema e sabem do que se trata. Do total de entrevistadas, 51.4% afirmaram conversar frequentemente a respeito, e 95,3% que sabem o que é assédio sexual no trabalho. E quanto maior o rendimento familiar maior a frequência com que essa discussão aparece no cotidiano.
As mulheres que falam sobre assedio:
- 54% são pardas e pretas e 46% são brancas
- 57% são profissionais que desempenham funções em nível pleno ou sênior
- 67% são mulheres acima de 55 anos
- 68% são mulheres que declararam ocupar posições de gerência
A maioria desconfia
Há um clima de desconfiança com relação a atuação das áreas de Recursos Humanos das empresas, por isso para 78,4% das mulheres respondentes, a impunidade é a maior barreira para a denúncia, seguida de políticas ineficientes (63,8%) e medo (63,8%). A sensação de impotência faz com que o silêncio e a solidão sejam os resultados mais recorrentes. Metade delas prefere dividir o ocorrido apenas com pessoas próximas; 33% não fazem nada e 14,7% optam pela demissão. Ao agressor, no geral, fica a manutenção do emprego e a isenção de culpa.
Conforme pesquisa conduzida pela KPMG Consultoria, mais de 90% das vítimas de assédio moral e sexual não denunciaram a agressão sofrida, fato que pode ser explicado pelo medo da exposição e de sofrer alguma retaliação – por exemplo, perder o emprego ou ficar desacreditado perante os colegas.
O estudo mostra que, entre aqueles que realizaram denuncias, 80% se sentiram à vontade para denunciar o assédio apenas por meio de mecanismos como o hotline, ressaltando a importância desses canais para promover a confiança dos colaboradores.
Outro dado relevante é que somente 48% das pessoas que denunciaram o assédio receberam algum tipo de retorno, um índice que precisa ser melhorado para aumentar a confiança no processo de investigação.
Denunciar não é solução
Por causa de todos os dados acima, pode-se afirmar que apenas o incentivo para a denúncia não é sozinho a solução, mas parte dela. A primeira parte é a vítima saber identificar o problema, conscientizar-se, criar coragem e denunciar, se puder ou quiser. A parte seguinte depende da sociedade, da existência de estruturas confiáveis que ofereçam segurança, acolhimento para que o encaminhamento dessa denúncia seja feito e a punição realizada.
E os outros custos invisíveis?
Além da violência crescente contra a mulher, também somos pressionadas a fazer uma série de despesas que não precisaríamos, se não fôssemos tão severamente cobradas por beleza e um padrão de feminilidade. Com este dinheiro gasto em corte e pintura de cabelo, manicure, pedicure, sobrancelha, depilação, tratamentos dermatológicos, entre outros, poderíamos investir em nossas carreiras, cursos, pós-graduações, mestrados. Esses são gastos de tempo e dinheiro que para os homens são inexistentes, mas que ao final de cada mês somam para as mulheres, diminuindo ou retirando-as de investimento para suas carreiras.
Outro custo invisível é o do cuidado. Nós mulheres, porque somos as maiores cuidadoras da casa, de filhos, pais e cônjuges, na grande maioria das vezes somos as que precisamos nos ausentar do serviço para resolver os problemas que surgem. O filho adoeceu? O sogro precisa fazer algum exame? A mãe necessita de companhia na consulta? O marido está com labirintite e não consegue ficar sozinho em casa? Quem fica com quem? Quanto isso custa para a mulher? Muitas vezes custa desconto na folha de pagamento, quando não a má reputação ou o próprio emprego.
O mal que produz na saúde mental das mulheres e no ambiente de trabalho
No caso de abuso sexual e moral, estudos comprovam que os prejuízos para as vítimas podem ser inúmeros. De acordo com a história de vida, o nível e tipo de abuso, conforme o contexto do ambiente de trabalho, a profissional pode desenvolver depressão, angústia, estresse, crises de competência, crises de choro, mal-estar físico e mental; cansaço exagerado, falta de interesse pelo trabalho, irritação constante; Insônia, alterações no sono, pesadelos; diminuição da capacidade de concentração e memorização; Isolamento, tristeza, redução da capacidade de se relacionar com outras pessoas e fazer amizades, aumento de peso ou emagrecimento exagerado, aumento da pressão arterial, problemas digestivos, tremores e palpitações; redução da libido; Sentimento de culpa e pensamentos suicidas; uso de álcool e drogas; tentativa de suicídio.
Para a empresa resta a degradação das condições do trabalho, com redução da produtividade e do nível de criatividade dos colaboradores; o turn-over constante na área ou da vaga e a mancha na sua reputação e da sua marca como as que permitiram e foram lenientes com a violência contra mulheres.
Índices de emprego crescem, mas adianta?
Conforme dados de estudo divulgado em outubro de 2024 pela Fundação Getúlio Vargas, houve um aumento significativo na contratação de mulheres, de 45,1% em comparação ao de homens, de 10%, de 2024 para 2023. Mas ficam as seguintes considerações:
- Observando as áreas para as quais elas são contratadas, ainda estão fortemente ligadas a gênero, como na área de serviço e comércio, por exemplo.
- A desigualdade salarial permanece consistente, mesmo comparando o salário nas mesmas áreas.
- Não se trata apenas de ampliar vagas, é preciso focar em ambiente de trabalho, pois no que se refere a questão da violência contra a mulher no mundo corporativo sabemos que ela vem aumentando, mesmo que as vagas estejam se ampliando.
É uma coisa só
A gente carrega para dentro do ambiente de trabalho o que está no núcleo da estrutura da sociedade, ou seja, quando enxergamos essa violência contra a mulher no ambiente de trabalho é porque ela, de diferentes maneiras, existe em outros lugares das nossas vidas. Não é à toa que a violência doméstica também aumentou consideravelmente nos últimos tempos. Tudo está conectado, tudo é uma coisa só.
Explica o filósofo Renato Nogueira, que por anos participou com outros homens de um grupo para dialogar sobre masculinidades, de que “homens temem as mulheres em sociedade com alta taxa de violência de gênero eles tem muito medo das mulheres, eles não conseguem lidar com a capacidade, com a inteligência, e com as camadas de habilidades que as mulheres tem. Tem pessoas que reagem a raiva reprimindo, tem pessoas que reagem a ela expurgando. Como isso afeta a sua vida? Na violência você é vítima ou autor. A autoria masculina é muito presente. Tem o Patriarcado, que é o sistema, o machismo que é uma tecnologia, e a misoginia que é a pratica discursiva. Esses elementos fazem com que para os homens se sentirem amados eles querem ser fortes e poderosos.”
No ambiente de trabalho, no entanto, o que se vê é a crença de que a mulher é inferior ao homem, de que ela precisa se manter “no seu lugar”, o que faz com que a gente seja alvo dessas micro e/ou grandes violências e sempre lembradas de que não somos bem-vindas ao “clube do bolinha”, pois não somos suficientemente boas. E, se por acaso somos elogiadas, talvez seja por nossa beleza, nosso sorriso, o cafezinho, em vez da competência, inteligência e capacidade. Mas, se fazemos algo melhor do que “eles”, melhor sermos discretas para não levantar muita suspeita, inveja ou ciúme para não.
O que fazer, afinal?
Existem múltiplas respostas para essa pergunta. Em nível macro, precisamos mudar todo um sistema, conforme acima nos descreve Renato Nogueira, e a base para isso seria a educação desde a infância.
No nível corporativo, na pesquisa realizada pela Think Eva em parceria com o Linkedin, as próprias mulheres sugeriram que A construção de um ambiente profissional livre de assédio é urgente e as próprias mulheres sugeriram que as empresas:
- Adotem um posicionamento oficial e público
- Desenvolvam ações preventivas
- Criem uma ouvidoria especializada para acolhimento das vítimas
- Façam um monitoramento constante para avaliação das políticas e práticas
- Adotem um processo de denúncia seguro e transparente
- Elaborem um protocolo de encaminhamento dos casos com a punição do agressor
- A construção de um ambiente profissional livre de assédio é urgente e as próprias mulheres sugerem que as empresas:
- Adotem um posicionamento oficial e público
- Desenvolvam ações preventivas
- Criem uma ouvidoria especializada para acolhimento das vítimas
- Façam um monitoramento constante para avaliação das políticas e práticas
- Adotem um processo de denúncia seguro e transparente
- Elaborem um protocolo de encaminhamento dos casos com a punição do agressor
O Governo Federal elaborou uma Cartilha de Combate ao Assédio Moral e Sexual onde também faz um passo a passo a esse respeito (link aqui). E para Organizações Não-Governamentais foi elaborado o Guia para Construção e Implementação de Políticas de Salvaguarda para ambientes seguros para Meninas e Mulheres pela Serena e grupo Hivos– People UnLimited.
Todas essas respostas necessitam de uma decisão que passa por uma mudança de cultura profunda da instituição. Aquela que desejar passar por essa transformação sairá vencedora. As demais, apenas terão letras em papel, ou nas mídias digitais, para mostrar.
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