Dois anos depois que “Me Tarzan, You Jane” passou a integrar o imaginário popular, nasceria, em Londres, no dia 3 de abril de 1934, uma outra Jane. Na Inglaterra dos anos 1950, a jovem Valerie Jane Morris-Goodall, carregava no peito um sonho selvagem: a África.
Em 1932, o cinema, que há pouco tempo “falava”, pôde ouvir a voz de Johnny Weissmuller, o ex-campeão olímpico de natação que surgia nas telas em Tarzan, o Filho das Selvas. A voz e o grito icônico que o criador do personagem, Edgar Rice Burroughs, descreveu como “o grito de vitória do macaco macho”, nas páginas do romance Tarzan dos Macacos, de 1912.
O imaginário popular estava pronto para absorver cada som e palavra da primeira aventura sonora daquele herói-homem-macaco, um órfão inglês que cresceu acolhido por chimpanzés no coração das matas africanas. Em meio ao entusiasmo pelo filme, uma frase também se tornou lenda. A cena original, de uma pureza romântica, mostrava Tarzan junto à sua bela amada Jane, interpretada pela atriz Maureen O’Sullivan. Ele batia no peito e dizia: “Tarzan” e apontava para ela e dizia: “Jane”. Uma aula de linguística primitiva, direta e eficaz. O público, que adora uma piada pronta, passou a citar uma fala jamais dita: “Me Tarzan, you Jane” (Eu, Tarzan, você, Jane).
Talvez tenha sido o próprio ator que motivou esse engano. Naquele mesmo ano, numa entrevista, Weissmuller revelou a fórmula de seu sucesso com uma ironia: “Eu não precisava interpretar Tarzan, o homem-macaco; bastava dizer ‘eu, Tarzan, você, Jane’.” A frase, em tom de sátira sobre a simplicidade do papel que parecia exigir mais físico do que intelecto, tornou-se uma das citações mais famosas e, de longe, mais incorreta do cinema.
Desde a infância, Jane Goodall demonstrou um grande amor por animais e o desejo de trabalhar com eles no continente africano. Sua família não tinha recursos para pagar a universidade, ela, então, estudou secretariado. Trabalhou em Oxford e depois em uma produtora de documentários em Londres. Em meados de 1956, ela chegou a trabalhar como garçonete, para economizar para uma passagem de navio para o Quênia. Em Nairóbi, conseguiu uma entrevista com o paleoantropólogo Louis S.B. Leakey, que a contratou como secretária e logo viu nela uma cientista em potencial. Leakey providenciou sua ida para a Tanzânia para fazer pesquisa de campo, conseguindo financiamento para que ela trabalhasse na Reserva de Gombe Stream.
Em 1960, Jane montou acampamento perto do Lago Tanganica, acompanhada por sua mãe, Vanne Morris-Goodall, pois o governo não permitia que uma mulher vivesse sozinha na reserva. Jane seguia seus instintos nos procedimentos de pesquisa, contrariando a prática científica da época de identificar os animais por números. Ela nomeou os chimpanzés: Fifi, Flo, Sr. Mc Gregor, David Greybeard… E os tratou como indivíduos, com traços e personalidades distintas.
Quando uma fêmea que ela chamava de Sra. Maggs estava preparando um ninho na copa de uma árvore para passar a noite, Jane escreveu que a chimpanzé “testou os galhos exatamente como uma pessoa quando testa as molas de uma cama de hotel”. Jane passava a maior parte do tempo localizando animais com o binóculo; aproximava-se aos poucos para que eles se acostumassem à sua presença enquanto se sentava e fazia anotações. Mas, a um mês do fim dos recursos, ela não tinha feito o tipo de descoberta que julgava digna da fé depositada por Leakey. Foi então que ela fez três descobertas que revolucionariam toda a ciência estabelecida.
No primeiro achado, ela observou um chimpanzé comendo a carcaça de um bicho pequeno, o que desmentia a crença prevalecente de que os grandes primatas não ingeriam carne. Aquele chimpanzé destacava-se pelo seu “cavanhaque” grisalho, e ela o chamou de David Greybeard (“Barba Grisalha”). Conquistou a confiança do “experiente” sujeito e ele lhe abriria as portas para o universo dos chimpanzés.
Em menos de duas semanas, Jane tornou a observar David Greybeard, mas, dessa vez, o que ela viu foi um divisor de águas. Acocorado diante de um cupinzeiro, o chimpanzé introduziu um talo de capim através de um orifício. Retirou o capim cheio de cupins grudados e os devorou. Em outro momento, Jane viu quando ele pegou um graveto, removeu as folhas e o usou para “pescar” cupins. David Greybeard tinha usado e fabricado ferramentas – dois comportamentos até então considerados exclusivos dos seres humanos.
Quando Jane passou uma mensagem a Leakey com essa notícia, ele respondeu: “Temos que redefinir ferramenta / redefinir homem / ou aceitar chimpanzés como seres humanos”.
Depois de 15 meses na selva estudando os hábitos dos primatas, ao apresentar ao mundo acadêmico suas descobertas, munida apenas de seu diploma de secretária, o ceticismo foi brutal. Houve zombaria, e seu trabalho foi depreciado como “relatos isolados e […] especulações que não traziam uma verdadeira contribuição à ciência”.
Jane Goodall não se curvou às críticas e ao preconceito, seguiu determinada, trabalhando e estudando por mais de seis décadas. Provou que a intuição, aliada à persistência e a um olhar livre de ideias estereotipadas, pode desmantelar décadas de dogmas. Ela fundou o Instituto Jane Goodall e o programa Roots & Shoots, dedicando-se à conservação e bem-estar dos animais. Coerente com o que pregava, tornou-se vegetariana nos anos 1960. Participou do comitê do Projeto de Direitos dos Não Humanos desde sua fundação em 1996. Em abril de 2002, ela foi escolhida como mensageira da paz das Nações Unidas e era membra honorária do Conselho para o Futuro do Mundo.
Aos 91 anos, Jane Goodall mantinha sua agenda de atividades. Embora viajasse 300 dias por ano, sua casa ficava em Bournemouth, Reino Unido, na casa onde sua avó e sua mãe moraram antes dela. Ela faleceu no dia 1º de outubro de 2025. Em Los Angeles, onde participaria de uma série de palestras.
O jornalista que, à época da divulgação de suas primeiras pesquisas à “civilização”, chamou-a de “loura esguia com mais tempo para macacos que para homens”, demonstrou uma misoginia que ainda persiste e faz balançar o antropocentrismo entre cipós. Ele poderia ter se eternizado com mais dignidade se tivesse se apresentado a ela com um “Me Nobody, You Jane” (Eu, Ninguém, você, Jane). A garota que começou como garçonete para alcançar seu sonho na África não apenas revelou a complexidade dos chimpanzés; ela nos forçou a redefinir o que significa ser humano.
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Foto da Capa: Reprodução do YouTube

