Já quis muito ter sido abençoada com um pouco mais (não muito) de traços obsessivos que facilitassem mais meu dia a dia e minha adequação às burocracias que a vida adulta demanda sem tanto esforço e angústia. Mas não tenho sido muito bem sucedida em ter meu desejo atendido. Sei que há quem se orgulhe de uma mesa sempre limpa, gavetas organizadas. Post its, canetas coloridas dispostas em materiais de escritório coloridos. Há quem viva a vida como uma planilha: cada coisa em sua célula, cada movimento calculado, cada passo previsto. Essas pessoas costumam ser admiradas, elogiadas e tomadas como exemplo — a sociedade, afinal, ergue monumentos à disciplina, ao controle, à exatidão. Mesmo que por trás disso possa haver uma absurda necessidade de controle. Eu mesma, como há pouco disse, já quis muito ser esse tipo de pessoa.
Mas, se me permitem, quero aqui deixar um manifesto em prol da desordem com a retratação comigo mesma de quem agora reconhece nela não um defeito, mas um estilo. Vim escrever um texto em defesa de uma vida desordeira, que suporte certa dose de caos.
Convenhamos, a desordem é honesta. Quem vive na bagunça não se esforça em encenar o teatro da perfeição. Não varre poeira para debaixo do tapete, não mascara o caos inerente a todos nós. A vida é feita de interrupções, acidentes, tropeços e atrasos. Ficar tentando camuflar isso sob a capa do arranjo impecável é uma mentira socialmente aceita, mas ainda assim uma mentira. O desordeiro, nesse sentido, é sincero: ele assume o tropeço, acumula canecas de café na escrivaninha como quem coleciona rastros de suas insônias.
Além disso, há na desordem uma liberdade. O mundo já nos impõe tantas normas, tantos calendários e lembretes, tantos avisos luminosos piscando em tela. Por que também em casa, em nossas horas mais íntimas, haveríamos de obedecer ao mesmo regime? A pilha de roupas sobre a cadeira pode ser lida não como negligência, mas como insubmissão. É um pequeno protesto contra a ideia de que precisamos ser produtivos, eficientes e organizados o tempo inteiro. A vida desordeira é uma brecha na engrenagem, um atalho para respirar fora do compasso.
Mas, sem ingenuidade, é evidente que ela traz seu custo. As pessoas tem dificuldade em lidar com alguém que desafia a demanda da ordem. Porque a desordem muitas vezes pode ser o resultado de intensidade e trazer como consequência, a criatividade. E isso pode incomodar a quem se submete a ele por medo do que pode surgir caso quebre regras e fuja do estabelecido, perca o controle. Quem escreve até tarde, quem lê vorazmente, quem se perde em conversas longas ou caminha sem destino, acaba deixando para depois a pilha de pratos ou a lista de tarefas domésticas. Não porque não saiba lavar pratos, mas porque havia algo mais urgente, mais vital a ser vivido.
Como já disse, sei que corro o risco de parecer ingênua. É claro que a desordem tem seus incômodos: ninguém gosta de perder o documento importante na véspera da viagem, tropeçar na pilha de sapatos acumulados no corredor ou não encontrar a blusa preferida pouco antes da hora de se arrumar para uma festa importante. Mas ainda assim, talvez valha a pena pagar esse preço em troca do que se ganha.
No fundo, defender a vida desordeira é defender uma ética do imprevisto. O amor, por exemplo, é desordeiro por excelência: chega quando não devia, arrebata quando não convém, complica a agenda, embaralha prioridades. E, no entanto, quem abriria mão dele em nome de uma vida organizada?
Talvez fosse mais justo dizer que a desordem é a forma como a vida se manifesta quando não estamos tentando controlá-la. E, se me permitem, viver é mais interessante quando não se controla tudo. Há beleza na mesa onde livros, canetas e xícaras disputam espaço; há humor na agenda rabiscada em todas as direções, no meu caso com frases soltas esquecidas no caminho e que depois podem virar um texto como esse.
Assim, diante dos apelos por ordem e controle, escolho outra via. Prefiro os dias que não cabem em agendas, os encontros marcados por acaso, os livros abertos em diferentes páginas, as casas que respiram com suas imperfeições. Prefiro, enfim, a vida que se mostra tal como é: inacabada, torta, desordeira — e, justamente por isso, intensamente viva.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

