O Uber se aproxima do destino, três minutos no mapa que vejo afixado no painel de controle, e fica claro que estamos perto: começo a avistar foliões indo, contentes, em direção ao bloco. Eles se destacam por suas (poucas) roupas coloridas, brilhos, adereços, e o caminhar apressado de quem anseia pela chegada, em meio a uma massa de transeuntes comuns, cinzentos, cabisbaixos.
Desço do carro na esquina, afinal o trânsito está praticamente parado, e já ouço o som característico de um bloco de rua: batuques, instrumentos de sopro, cantoria… o ritmo carnavalesco. Sinto meu coração acelerado. De longe, observo a concentração: foliões, músicos, ambulantes vendendo bebidas e curiosos formam o imenso grupo.
Encontro meus amigos na praça Vladimir Herzog, no centro de São Paulo, que me recebem animados. Vamos atrás do cordão, andando sem parar, em um passo que é, ao mesmo tempo, uma espécie de dança: os quadris se movem pra lá e pra cá, as mãos balançam acima da cabeça enquanto avançamos sobre as avenidas, ruas e ruelas de placas brancas. O carnaval é, em sua essência, caótico e fascinante.
Em determinado momento, prensada em meio à multidão, percebo que já não vislumbro meus amigos em nenhuma direção. Não dou muita importância, estou me divertindo e, paradoxalmente, me sentindo segura – mesmo sozinha, de maiô, com o corpo suado e colado em pessoas desconhecidas. Há algo libertador em ser ninguém em meio a todos, apenas mais uma entre milhares, a voz ecoando no mesmo ritmo, respirando o mesmo ar denso de suor e cerveja. Fecho os olhos por um instante, e me invade uma alegria.
Poucos minutos depois, ouço alguém gritando meu nome: um simpático casal, que reconheço imediatamente como amigos dos meus amigos, a quem fui apresentada mais cedo. Eles perguntam se eu estou perdida, respondo que sim, e, gentilmente, me convidam a ficar perto deles. Ela passa glitter em meu rosto com os dedos – confio nela a escolha de cores, enquanto ele pega um Xeque Mate (bebida à base de rum, chá mate e guaraná). Ouço uma menina perguntar ao ambulante se o gelo que está colocando no copo é filtrado. “Nossa, amiga, é melhor nem saber”, comenta um dos clientes. “Olha, não sei se é filtrado, mas vem de um caminhão de gelo”, responde superficialmente o vendedor. “Ah, não importa, com esse calor não dá pra ficar sem, né”, replica a menina. Rimos, porque sabemos: durante o carnaval, as regras normais da higiene e da prudência são ignoradas. “Bom bloco para vocês!”, ela se despede. E então, seguimos a caminhada dançante. Por todo o percurso, vamos cuidando uns dos outros – aqui, não me refiro apenas aos meus mais recentes conhecidos, mas sim aos foliões no geral. Leques ventilam amigos e estranhos, dando uma breve trégua ao calor. “Cuidado com o buraco!”, “Olha o espinho da planta!”, “Não vai pisar no cocô!” são frases proferidas por quem está na frente e repetidas para quem vai atrás, independente de quem seja.
Viramos à esquina em uma ruela estreita e íngreme e me pergunto como toda aquela multidão vai conseguir se espremer naqueles poucos metros de largura, prevendo uma tragédia. A adrenalina invade meu corpo, sinto uma pitada de medo, mas percebo certa ordem no absoluto caos que me rodeia. Minha nova companheira ajuda uma grávida com seu carrinho de bebidas, se apoiando na frente dele para que não desça desenfreado. Seguimos cantando, o sol brilha e todas aquelas pessoas reluzem, saindo ilesas ao que a minha mente catastrófica havia interpretado como uma potencial desventura.
Passados o que imagino ser quarenta minutos, encontro novamente meus amigos. Catarse, êxtase, nos abraçamos como se tivéssemos voltado da guerra. Sinto que eles ficam felizes por eu ter sobrevivido ao primeiro bloco de pré-carnaval do ano, já que eu não estou mais acostumada a esse caos voluntário, de confiança em estranhos e suspensão temporária de tudo que nos protege na cidade. Retomamos o percurso entre pulos e sorrisos, e, assim, se vão cerca de seis quilômetros, de volta à mesma praça. O carnaval é isso também: uma rendição coletiva ao perigo, uma fé irracional de que, se todos confiarmos uns nos outros, ninguém cai.
Ao meu grande amigo Rodrigo Teruel.
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Foto da Capa: Acervo da Autora.

