Esse é um daqueles manifestos recorrentes, que vão e vêm reiteradamente, movidos pela fé em seu bom fundamento, mesmo que essa fé seja mitigada pela sensação de palavras soltas ao vento. Adicionalmente, clamar por ética pode sugerir certo proselitismo religioso, algo de que procuro fugir como o diabo foge da cruz… Ainda assim, lá vamos nós mais uma vez.
O Brasil, nessa contemporaneidade, corre o risco de retroceder na história e voltar a um tempo em que ética e direitos humanos não eram atributos da cidadania (até porque ainda não havia cidadania suficientemente estabelecida e compartilhada), e sim de privilégios oriundos da filiação a uma casta, a um sangue familiar. A uma ordem estabelecida e mantida a ferro e fogo. Por um tempo, acreditei que esse paradigma histórico se houvesse beneficiado de certo arejamento republicano e que nos tivéssemos movido rumo a outro paradigma. Ainda acredito nisso, mas com ressalvas crescentes.
A dimensão ética é necessariamente um projeto societário, porque não existe a ética de um indivíduo sozinho. A ética só faz sentido em referência a outra pessoa, a várias pessoas, a um coletivo, a uma sociedade, a um sistema de valores. A ética diz respeito necessariamente à consideração de alteridades, e é por essa razão que não há respeito aos direitos humanos lá onde não há ética. Direitos humanos, ética e cidadania, por sua vez, compõem o substrato de um outro tríptico conceitual famoso – Liberdade, Igualdade, Fraternidade.
O projeto de uma sociedade ética e respeitadora dos direitos humanos emerge historicamente no século XVIII, com os sempre citados episódios da Revolução Francesa, em 1789, e do Movimento Independentista Norte-Americano (entre 1766 e 1783). Tal movimento se consolida com a Declaração Universal dos Direitos do Homem de 1948, mas sempre se constituiu em algo fugidio, jamais garantido, sempre a retomar, sempre a proteger, sempre a chorar a cada Carandiru, a cada execução em massa como Srebrenica (Bósnia, 1995, 8 mil sérvios executados), nos destroços atuais do genocídio em Gaza, como também a cada civil anônimo que morre queimado em pira de pneus nas periferias das cidades brasileiras. A cada liderança da luta política que é assassinada, como Marielle Franco. A cada transgênero que é trucidado, após anos e anos da violência surda e cotidiana dos gracejos e humilhações variadas.
As pulsões sociais malditas que originam esses insultos ao projeto social da ética e dos direitos humanos habitam os esgotos da História, de onde emergem de tempos em tempos, convocados pela escória humana inescapável em todos os quadrantes e todas as épocas. É o caso hoje, agora, de novo, no Brasil: a carniça dos esgotos sai à luz do sol, se traveste em alternativa no palco republicano da Democracia, acena com um projeto de sociedade em que a exceção se torna regra, a ética se torna uma lembrança distante, os direitos humanos uma narrativa ficcional. Nesse Brasil de hoje, a carniça social e política ousa sair à luz do sol, convocada por seus asseclas, seus servidores, seus iguais. Cidadãos comuns se deixam ludibriar, mortos-vivos se associam ao chamado – inclusive aqueles que brandem Bíblias e arrebanham incautos. O dado contextual positivo é o julgamento e o encarceramento dos líderes desse movimento. Isso tem, obviamente, um lado auspicioso, conspurcado, contudo, pela grita de políticos com assento no Congresso Nacional que vociferam palavras de ordem de “anistia ampla, geral e irrestrita” para os crimes que incentivaram, cabeleireiras cometeram, e eles, da tribuna do congresso, ousam respaldar.
Que se perceba que o que se avizinha no Brasil, hoje, não é uma esquina usual da história em que perspectivas políticas se alternam. Há quem chame esses demônios de “mal menor”, pessoas do bem que cometeram deslizes. Que se reflita acerca do Mal Maior que estão invocando.
Que o Brasil proteja o patrimônio civilizatório, político e republicano que penosamente construiu, e não permita que a Treva, a Violência, o Ódio, o Escárnio pelo diferente, a Lógica do Predador saiam dos Círculos Infernais onde habitam e passem a pautar nossas vidas. Que os que enxergam não nos faltem. Que a Democracia não se deixe picar pela Víbora que se insinua. Que todos e cada um de nós cumpra seu dever em relação ao Bem Comum, para que, nos dias que virão, ao gemido pelo caos não se junte o choro pelo arrependimento decorrente da omissão.
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Libertas que o serás também (tradução livre do dístico da bandeira de Minas Gerais).
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Foto da Capa: Reprodução de Redes Sociais

