Com apenas um ano, Tetê tem um fascínio inusitado. Ao chegar em nossa casa, ela se dirige direto à pilha sob a mesinha de centro e, sem titubear, puxa um velho volume embolorado: “Marília de Dirceu”, de Tomás Antônio Gonzaga, da Livraria Martins Editora. Uma encadernação em tom neutro, quase da cor da sujeira. Ela o folheia com a delicadeza que sua coordenação motora permite – já rasgou a primeira página, sem querer, eu sei. E é essa a escolha que me intriga.
Praticamente não há ilustrações, exceto por algumas reproduções de gravuras de Guignard. Com todo respeito a Guignard, não é às ilustrações que ela se prende. Prefere as páginas com texto, linhas poéticas que parece querer adivinhar.
Esse volume, percebo, guarda mais do que poemas. Há nele uma dedicatória, em caligrafia clássica, datada de 10 de dezembro de 1944. Era um prêmio à aluna Yeda, minha sogra, pelo primeiro lugar no desempenho de sua turma no Evangelisches Stift, a Fundação – um tradicional internato para meninas, ligado à igreja evangélica luterana, em Hamburgo Velho, bem conhecido pelos descendentes de imigrantes alemães da região.
Tento buscar uma ligação por aí. Ou, em algum momento, ao ouvir o título, nossa neta identificou o nome da tia-avó Marília, também ela contaminada pelo vício da leitura? Alguma herança genética?
Como bom avô, me preocupo com as nódoas de fungo – parecem sardas – disseminadas em cada página. Será que há risco? Tento demovê-la do manuseio, mas ela insiste.
O futuro me olha de soslaio, tempos confusos. Se somos testemunhas de admiráveis avanços na saúde, por exemplo, convivemos com o absurdo crescimento exponencial do descrédito em relação a práticas comprovadas, como a imunização, permitindo o retorno de enfermidades virtualmente extintas. Mas não é somente o ressurgimento de doenças antes sob controle de vacinas, assoma uma epidemia de insensatez.
Tão execrado por quem defende ignorâncias, Paulo Freire ensinava: “Sem a curiosidade que me move, que me inquieta, que me insere na busca, não aprendo nem ensino”. Contrária à repressão, Maria Montessori reforça: “A curiosidade é um impulso para aprender”. Albert Einstein encerra a questão: “A curiosidade é mais importante que o conhecimento”. Diante disso, desisto: o livro não volta para a estante.
Sento-me ao lado de Tetê, lemos juntos Lira XIX, na página 48: “Enquanto pasta alegre o manso gado, minha bela Marília, nos sentemos à sombra deste cedro levantado. Um pouco meditemos na regular beleza, que em tudo quanto vive nos descobre a sábia natureza.”
Todos os textos de Fernando Neubarth estão AQUI.
Foto da Capa: Gravura de Guignard

