“Quando se vê, já são seis horas! Quando se vê, já é sexta-feira! Quando se vê, já é Natal…”, dizem os versos de O tempo, de Mário Quintana. Mas por que ainda não nos acostumamos ao passar incessante da vida? Por que, todas as vezes em que nos deparamos com a última folhinha do calendário, temos a impressão de que o ano correu depressa demais e deixou pendências, planos inacabados, promessas esquecidas pelo caminho? E, como se isso não bastasse, a canção da Simone, de alguma forma, sempre chega aos nossos ouvidos com a inevitável pergunta, capaz de nos deixar ainda mais frustrados com aquilo que deixamos de fazer.
Eu gosto do Natal. Não mais pelo sentido religioso, que de uns tempos para cá venho questionando, mas pela simbologia que o envolve. Gosto de ver a cidade ornamentada, as luzes e enfeites espalhados pela casa, a circulação de Papais Noéis pelas ruas do bairro, o sorriso aberto das crianças em troca de um punhado de balas. Sou presa fácil desse espírito natalino que invade os dias de dezembro e captura até os mais desavisados. Gosto do Natal, mas dispenso a urgência que o acompanha. Há algum tempo deixei de participar de amigos secretos, de comprar presentes para todo mundo, de me preocupar com ceias surpreendentes. Preferi estar presente, não necessariamente no dia de Natal, mas em outros dias do ano. Afastei-me das lojas lotadas, recusando o consumismo desenfreado que insiste em se impor como regra. Desde então, o Natal tem sido muito mais significativo.
O espírito do Natal, quando despido dos excessos, passa a existir menos como celebração e mais como convite à reflexão. Para isso, não é preciso seguir o exemplo de Ebenezer Scrooge, personagem de Um conto de Natal, e aguardar a visita de três espíritos para enxergar o que realmente importa. No conto de Dickens, essas aparições só se fazem necessárias por causa da avareza e da mesquinharia de Scrooge. Ele precisa ser arrancado de sua indiferença, confrontado com o passado que renegou, com o presente que ignora e com o futuro solitário que o espera. Em nenhum momento os espíritos lhe oferecem consolo, mas mostram o quanto ele precisa mudar para ter um final feliz.
Diferente de Scrooge, não precisamos ser sacudidos pelo sobrenatural para perceber que algo pede revisão. Sozinhos, podemos avaliar o que deve ser melhorado e o que faremos com o nosso presente e futuro. Basta reconhecer falhas, aceitar limites, guardar o que foi possível salvar do ano que termina. Encarar o próximo ano de forma positiva, mesmo que o Congresso nos traia na calada da noite, anistiando criminosos, e continuemos à mercê de políticos corruptos. Há sempre uma esperança de um país, de um mundo melhor, e para que ela nos encontre é preciso, antes, que não passemos pelos dias distraídos demais para percebê-la.
Lembremos sempre do alerta de Quintana, para não nos darmos conta, quando já é tarde, quando a página virou e dezembro chegou outra vez. Que possamos viver menos no automático, sem adiar encontros, escolhendo com mais cuidado onde depositamos o tempo e o afeto, e dando importância apenas ao que, de fato, sustenta os dias. Que o Natal deixe de ser apenas uma data no calendário, mas nos conduza o ano inteiro para que o próximo dezembro não nos encontre arrependidos do que não foi vivido.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

