Minha esposa me chama para ver o que apareceu nos fundos de minha casa de praia. Ali, entre a casa grande e a edícula, onde no alto há fios de luz de uma casa à outra, e à esquerda, uma árvore de pitanga, eu vejo à contraluz um outro tipo de arquitetura, uma teia de aranha. E, bem ao centro, uma aranha faz sua vítima. No mesmo instante, enquanto minha esposa se arma com inseticida – afinal, como a aranha não nos diz se é venenosa ou não, ela se condena à morte – eu me armo da única arma que tenho disponível: a lembrança da obra Animais Arquitetos, de Juhani Pallasmaa (Olhares, 2025).
Já falei da arquitetura de Cidreira, do quanto ela mudou ao longo de décadas. Mas não são apenas os moradores da praia que fazem grandes construções. Na minha casa mesmo, alguns animais as fazem. Primeiro as aranhas, com suas teias complexas junto às árvores; segundo as formigas, que ficam sob a terra de minha casa. Elas dividem, eventualmente, com as trilhas de tuco-tuco da praia, que também fazem as lajotas do chão dos fundos de minha casa ceder ou o joão-de-barro de meu poste de luz na rua. Eu, adulto, sou como Pallasmaa era quando criança, fico fascinado pelo trabalho arquitetônico desses animais na casa de praia.
Animais Arquitetos Cidrerenses
Animais Arquitetos é um desses livros que você lê porque oferece um outro ponto de vista sobre as coisas. Eu fiquei tão fascinado que fui atrás do catálogo da exposição que lhe deu origem, “Eläinten Arkkitehtuuri/Animal Architecture”, realizada no Museu de Arquitetura Finlandesa, em Helsinque, de maio a outubro de 1995. Tenho em minha biblioteca a edição trilíngue, com o conteúdo em castelhano, inglês e alemão, publicado em 2001 pela Fundação César Manrique, em Lanzarote, nas Ilhas Canárias. É rico em ilustrações. Eu o adquiri pois ainda tinha a ideia de uma última exposição na Câmara Municipal, mas que não pude fazer, a partir de sua obra. Imaginava o quanto as crianças das escolas municipais iriam se encantar. Aposentado, pensei em fazer algo com a iniciativa privada, mas fui arrastado para Cidreira. Talvez para presenciar sua força ao vivo. Alô, patrocinadores, se tiverem interesse, sabem onde me encontrar. O tema é colocado de forma exemplar por Pallasmaa:
“Hoje em dia, as ciências naturais também estão olhando de outra maneira para a multiplicidade de formas de vida na Terra e descobrindo padrões de vida, inteligências, habilidades, capacidades de comunicação, emoções, julgamentos estéticos e até sentimento e empatia entre os animais, comparáveis às capacidades humanas. Até nossas habilidades de construir abrigos para nós mesmos e nossas atividades são desafiadas pelas habilidades supremas de inúmeras espécies animais, desde mamíferos até aves, peixes e insetos. As construções favorecem a sobrevivência dos animais, sobretudo no caso das espécies de pequeno porte físico; é fácil imaginar como um ninho protege um pássaro ou um inseto, mas não conseguimos imaginar os ninhos de grandes mamíferos” (p. 10-11).
Primeiro visitante: as aranhas
Observo os visitantes indesejados de meu pátio. O primeiro está numa teia de aranha que olho, não apenas por curiosidade, mas para observar essa complexa casa em miniatura que está nos fundos da minha casa. Esse habitante não convidado teve tempo e técnica para fazer uma obra arquitetônica e de arte, o que mal consigo fazer em minha própria casa, que volta e meia tem alguma reforma para fazer e talvez, depois da última que foi feita no telhado, onde foram aparadas as bordas, tenha ficado até mais feia. A teia de aranha não. Eu não consigo fotografá-la com meu celular mesmo ampliando a imagem, de tão finos que são os fios – tirem as crianças da sala, seguem-se cenas pesadas – mas quando minha esposa joga nela inseticida, o vapor fatal da morte para um inseto, toda a arte se revela e surge então me transformo numa espécie de Sebastião Salgado praiano: todos os fios ficam em evidência, e a imagem que consigo então deles contra o sol é tão bela que só realça as qualidades da teia e obscurece a de minha casa. Se, como diz Pallasmaa, as construções humanas antigas chegam a 1,8 milhão de anos, mas se foram encontradas aranhas com órgãos fiadores preservados em âmbar por 300 milhões de anos, isso significa que elas dão de goleada na humanidade em termos de construções. “Essa é uma enorme vantagem evolutiva para a aranha, e de fato, a teia de aranha tem uma resistência à tração significativamente maior que a do aço, nosso material de construção mais resistente” (p. 12).
Sempre fui fascinado pelo ambiente natural de Cidreira, mas até agora somente prestava atenção às notícias dos grandes animais que chegam à praia. Do elefante-marinho que vem à praia para a troca de pele (disponível aqui) ao tubarão que foi agarrado pela mão pelos visitantes de verão (disponível aqui), são tantas as visitas inesperadas às praias que a equipe do Ceclimar produziu um videolivro sobre os animais do litoral gaúcho (disponível aqui). Já os seres minúsculos, os de habitat pouco visível e que exigem a atenção de nosso olhar para investigação, raramente são citados e eu mesmo pouco reparava neles, exceto agora, graças à aposentadoria. Nesse sentido, o documentário é interessante por apontar animais dos quais raramente temos informações, como a coruja-buraqueira, que faz suas tocas no chão, e o tuco-tuco da areia. Eu agora consigo prestar atenção neles.
Segundo visitante: o tuto-tuco.
Eu não sei como, no passado, havia um tuco-tuco no meu pátio. Ele é meu segundo visitante indesejado. Ele escavou por debaixo do meu pátio fundo e fez um estrago bem grande. Hoje, quando abro, por algum motivo, as lajes que estão no piso dos fundos, ainda posso encontrar seus túneis escavados, provavelmente um caminho que leva à fossa onde cai o esgoto doméstico. A Wikipédia diz que os tuco-tucos (Ctenomys sp.) são também chamados curus-curus e ratos-de-pentes e, nos orifícios de saída das suas galerias, há um depósito de areia removida. Nunca vi esse depósito de areia, mas o reconheci por seu pescoço musculoso, cauda curta e fortes unhas. Seu nome, “Tuco-tuco”, é de origem tupi, referente ao som que o macho produz quando ameaçado.
E na minha rua, do alto dos postes, como em muitos de Cidreira, é possível ver ninhos de joão-de-barro, que possui um dorso avermelhado e é conhecido por construir seu ninho com… barro! Ele não me incomoda tanto e até acho graça. “Seu ninho, tipicamente em forma de forno, o tornou popular”, diz a Wikipédia. Vejo-os não apenas em postes, mas junto a transformadores, o que causa problemas para a CEEE. Com um vestíbulo estreito, o ninho possui uma câmara incubadora mais ampla, arredondada. A cada ano, o casal constrói um ninho novo, construído de 2 a 18 dias, mas às vezes pode reformar um antigo. Também podem construir mais de um ao mesmo tempo. Pallasmaa cita o pioneiro Ambroise Paré (1510-159), que escreveu o seguinte:
“A dedicação e a habilidade com que os animais constroem seus ninhos são tão grandes que é impossível fazer melhor, superando completamente todos os pedreiros, carpinteiros e construtores, pois não há homem capaz de construir uma casa mais adequada às suas necessidades e de seus filhos do que aquelas que esses pequenos animais constroem para si. De fato, tanto é verdade que há um ditado segundo o qual os homens de tudo podem fazer, exceto “construir ninhos.”
Voltar a valorizar os animais
Essa passagem também é citada por Gaston Bachelard, e Pallasmaa se dá conta de que no passado as pessoas tinham muito mais interesse na arquitetura animal do que no presente. Entre os raros usos hoje, sua presença está no adjetivo “orgânico,” usado com frequência na arquitetura para simular fenômenos naturais. Mas se formos observadores, fazemos como Pallasmaa, que olha a casa de veraneio de sua família coberta por telhado de vidro que imita a estrutura das vitórias-régias, como eu olho minha aranha-arquiteta em meu pátio. “Os refinados sistemas de desempenho, interação e equilíbrio nos sistemas naturais podem nos dar exemplos e ensinamentos de valor inestimável” (p. 15). Penso na estrutura equilibrada da teia de aranha e olho para o quarto do escritório onde escrevo, na praia, o ensaio que você está lendo e penso: bem que minha parede poderia esconder as pequenas rachaduras que vejo no teto.
Além de aranhas, eu vejo muitas formigas que habitam meu pátio. Elas são minhas terceiras visitantes indesejadas. Em Porto Alegre, vejo trilhas que se aproximam do meu prédio. Eu gostaria que as formigas me deixassem em paz na cidade e na praia. Mas na cidade, especialmente as formigas doceiras, as pequeninas, tendem a tornar a vida da minha esposa um inferno no armário da cozinha. Elas apareceram quando minha vizinha do apartamento de baixo instalou sua cozinha, com sua fabricação de bolos. No campo judiciário, isso seria uma prova circunstancial, já que, de fato, não tenho o depoimento de nenhuma delas, das formigas doceiras. Já na praia, pelo menos até onde eu pude ver, tenho contato com duas espécies de formiga.
Terceiro visitante: as formigas
A primeira espécie é a carpinteira, que escava a madeira do telhado e eventualmente de algumas portas das casas, com cintura fina e antenas em cotovelo, de coloração vermelha ou marrom. A segunda é a cortadeira e meu contato com esta espécie foi numa situação curiosa. Minha esposa fez um canteiro para plantar algumas hortaliças e temperos. Em um dia, eu vi as folhas longas de tempero naquele jardim. No outro dia, elas estavam empilhadas e cortadas como se fossem as próximas a serem transportadas, de maneira organizada, para o formigueiro. As formigas estavam ao seu redor, algumas colocando novas peças de forma alinhada, todos os pedaços do mesmo tamanho, enquanto outras iam e vinham parecendo organizar as demais. Não é fascinante? Pallasmaa diz que Edward O. Wilson, o criador da biofilia, “a ciência ética da vida”, argumenta que o superorganismo de uma comunidade de formigas cortadeiras é “um dos mecanismos mestres da evolução, incansável, repetitivo, e preciso, mais complicado que qualquer invenção humana e de uma antiguidade inimaginável” (p. 16).
Olho os pequenos buracos no meu pátio que ocultam formigueiros. Eu não sei sua extensão, nem por onde andam e nem exatamente de que espécie são. Eles nunca me incomodaram, mas eu sei que suas construções, de alguma forma, podem abalar a estrutura da minha casa quando perto das fundações; e eu tenho medo de que elas usem uma vantagem apontada por Pallasmaa em seu benefício: “Na verdade, os mundos vitais das formigas e dos seres humanos são separados por 600 milhões de anos de evolução, e isso constitui uma vantagem impressionante no tempo evolutivo e na adaptação gradual do inseto. Não é à toa, as formigas têm a maior biomassa proporcional entre todos os animais, incluindo os humanos. Além disso, as construções das formigas passam por testes evolutivos e implacáveis, ao passo que construímos meros protótipos ainda não testados pela evolução, que acreditamos existir unicamente dentro dos critérios e valores humanos, fora dos processos naturais e evolucionários” (p. 16). Imagino que, num cataclismo climático, as formigas de minha casa de Cidreira tenham maiores chances de sobreviver do que minha própria casa ou eu mesmo. Mas eu penso isso também das baratas, então não sei se é exatamente científico isso ou não.
O talento animal
Pallasmaa é generoso com todo o tipo de inseto porque sabe que inteligência e habilidades não são exclusividade humana. Ele cita a obra de livros recentes como A vida secreta das árvores (Sextante, 2017), em que seu autor, Peter Wohlleben, enfatiza as capacidades de comunicação e empatia dos animais, embora eu, particularmente, desconfie que seu argumento não se aplique às aranhas. Por outro lado, nem todos os animais que vejo em Cidreira são talentosos: enquanto Pallasmaa cita uma espécie de baiacu, o Torquigener albomaculosus, como um peixe que faz um castelo de um metro de diâmetro de areia no fundo do mar, com geometria perfeita, em construção circular, numa evocação da geometria das rosáceas góticas, já o seu parente distante, o baiacu liso, o de Cidreira, prefere morar no fundo do mar ou nos recifes de corais, não se dando ao trabalho de fazer grandes construções. Às vezes, o cidreirense é como o baiano, cheio de malemolência. Talvez o baiacu o imite.
Assim, há animais em minha casa de praia que são melhores construtores do que eu. Minha esposa, que me pede que conserte uma rachadura na parede dos fundos, vê que cada vez que faço, fracasso (há um motivo, é um marco de porta, ela bate, quebra, mas não vamos tanto em detalhes) e certamente se impressionaria com a qualidade das estruturas construídas pelos nossos visitantes indesejados. Se Michal Hansell, o maior especialista nos hábitos construtores dos animais, chamou uma de suas conferências de “Construa um ninho e você mudará o mundo”, o máximo que posso dizer é “conserte uma parede que sua esposa voltará a acreditar em você”. Se os animais têm notáveis hábitos construtores, é porque faltam muitos desses hábitos em nós, seres humanos, e eu sou um exemplo.
Insetos que constroem cidades
Pallasmaa fala da superioridade dos cupinzeiros, que chama de verdadeiras “metrópoles”, com seus milhões de habitantes e que são utilizadas por séculos. “Se fossem transpor um grande cupinzeiro para a escala das construções humanas, sua torre teria mais de um quilômetro e meio de altura e abrigaria toda a população de Nova York” (p. 26). Minha casa tem o chamado cupim de madeira seca, diferente dos apontados por Pallasmaa, os de campo, com suas construções gigantescas. Ele é, por assim dizer, seu parente modesto, vivendo nas madeiras de meu telhado, nos móveis de minha casa. Mas ele incomoda, eu já fiz a reforma do telhado e devo fazê-la de novo devido às suas perfurações; já me desfiz de móveis antigos, pois eles os devoraram literalmente. Quem mora na praia vive essas coisas. Se fossem milhões, meu telhado já teria desaparecido. É como num filme de terror, eu vejo sua presença por sua ausência: pelos restos de sua alimentação ao redor de pés e mobília; por suas asas que ficam após a revoada pela casa.
Em quaisquer casos, para mim, são exemplos de animais que espelham o capital: sua lei inflexível é que o trabalho e os materiais devem ser reduzidos ao mínimo, diz Pallasmaa. Ele dá o exemplo do formato dos alvéolos das abelhas, o mais eficaz para armazenar mel, de custo baixíssimo. O capitalismo imita os insetos ou é o contrário? Não tenho reclamações de abelhas em minha casa, que aparecem eventualmente para beber o néctar de uma árvore que tenho que apresenta flores; ela é também procurada por borboletas, ainda que para o autor, sejam as abelhas o exemplo de notável economia. Imagino que tanto as formigas que me atucanam o pátio como os cupins também sejam exemplos do capitalista, tenham antecipado sua verdadeira natureza, a da predação e devoração de todo o bem natural. Não é isso que os cupins fazem em meu telhado, devoram uma estrutura sem pensar nas consequências? Não é exatamente isso que fazem os mineradores de grandes empresas, que com sua exploração destroem o ambiente natural como o de Mariana?
Os animais capitalistas
Pallasmaa diz que as construções destes animais foram otimizadas pela lei da seleção natural; olho a teia de aranha inicial e vejo que magnífica estrutura foi feita para aprisionar vítimas indefesas; vejo a organização do trabalho das formigas, estas, verdadeiras inventoras da escala 7/0, a mais desejada pelo capital, trabalhando todos os dias sem parar. Elas passam pelo portão de minha garagem, vindas da casa vizinha, indo em direção a outras casas; já encontrei, cavando no meu pátio, túneis delas: devo ter invadido sem querer uma estrutura construtiva que existe milhões de anos antes que os Homo sapiens construíssem suas rústicas estruturas, primitivas, diz Pallasmaa: eu penso que estavam ali quando sequer existiam casas em Cidreira.
Quanto à aranha do meu pátio, nos termos de Pallasmaa, seu fio resiste à tração três vezes mais do que o aço, o que invejo, já que os cupins estão devorando uma estrutura centenas de vezes menos resistente de minha casa, e o concreto que faço para remendar uma simples porta não resiste a um dia em minha edícula. Quem é o melhor arquiteto? Eu, com meus remendos precários, ou a aranha que habita minha casa? Habitava – que Artemis a tenha – graças à minha esposa. Seu fio pode ser proporcionalmente mais resistente que o material empregado nos coletes à prova de balas, mas ele próprio não resiste ao veneno spray de um inseticida de liquidação. Pallasmaa afirma que a teia de aranha de meu pátio é produzida à temperatura do corpo do inseto e, portanto, dá mais baixo investimento de energia, ao contrário do inseticida, que precisa de muita energia para comprimir seu veneno em seu interior. Aqui, para Pallasmaa, é a teia o que o fascina: “O Instituto de Estruturas Leves, da Universidade de Stuttgart, sob a direção de Frei Otto, realizou um extenso estudo microscópico das construções das aranhas, tomando-as como base para o projeto de uma nova modalidade de estruturas leves. As teias apresentam inúmeras sutilezas, como mecanismos de amortecimento de impactos e outros acessórios que estamos apenas começando a aplicar no projeto de nossas tensoestruturas” (p. 33).
O cardápio de insetos cidreirenses
Tenho cupins, aranhas, formigas e outros insetos menos nobres, como baratas e pernilongos, em minha casa. Os primeiros pertencem a uma certa nobreza dos insetos, já que possuem um sofisticado grau de construção animal inversamente proporcional às minhas habilidades construtoras. Eu passo trabalho para fazer o cimento que coloco para servir de base em alguma pequena reforma. Para afixar um pino no chão, fico com dores nas costas; abaixar para mexer a areia, o cimento e a brita, na proporção de 2-1-1, é um sacrifício. Já para as aranhas, toda uma construção é possível de um dia para a noite. Esses insetos sabem exatamente o que fazer com os materiais que necessitam para fazer suas casas; já eu, preciso questionar ora o meu vizinho trabalhador que faz pequenas obras na minha casa, ora o vendedor da Constrular que me vende os materiais que preciso, ou o YouTube, atestando minha derrota como construtor. Assim, o joão-de-barro, que constrói uma casa praticamente sala-quarto em um poste ao lado de minha casa, tem capacidades centenas de vezes superiores às minhas, pois sou incapaz de realizar reformas simples. Mas posso dizer em minha defesa que pintei a casa.
Pallasmaa usa o exemplo da aranha-tecedeira (araneus sermoniferus), que com dezenas de indivíduos consegue construir uma teia que pode ter “centenas de metros, que em escala humana chegariam a quase vinte quilômetros” (p. 40). Penso nisso e imagino que apenas aquela aranha teria a capacidade de fazer uma casa maior que a minha. Fico feliz de que os cupins de minha casa não sejam os selvagens, já que seus cupinzeiros têm cerca de doze toneladas, o que seria suficiente para derrubar o meu teto; ou pior, sou grato por não serem os cupins do deserto citados por Pallasmaa, que, segundo ele, “constroem túneis de quarenta metros de profundidade, que em escala humana equivalem a quase dez quilômetros” (p. 41). Estou na praia: agora, tenho a oportunidade de observar o mundo microscópico ao meu redor, o dos insetos. E eu estou em desvantagem. Por quê?
Uma capacidade notável de criar soluções
Primeiro, porque esses insetos sabem melhor do que eu criar soluções para seus problemas. Pallasmaa diz que alguns cupins que comem madeira a usam para produzir papel, com o uso de substâncias como a saliva que auxiliam a formar algo similar ao papelão. O mesmo método é usado por algumas espécies de formigas para fazer seus ninhos, reforçando a estrutura do formigueiro. Provavelmente, quando inadvertidamente invadi um deles em meu pátio, rompi uma estrutura calculada para resistir a tudo, menos à pá de um ser humano.
Segundo, porque esses animais são melhores no uso de ferramentas do que eu. Pallasmaa diz que as vespas, que volta e meia entram em meu pátio, “por exemplo, usam uma pequena pedra presa entre as mandíbulas para compactar a terra na entrada de seus vespeiros subterrâneos… as aranhas d’água, que respiram no ar, produzem longos filamentos de seda aos quais se agarram para serem transportadas pelo vento a grandes distâncias” (p. 49-50). Ele finaliza com o exemplo não menos surpreendente da formiga tecelã que segura uma larva entre as mandíbulas, e com a seda secretada por ela, as demais unem as bordas das folhas para construir seu ninho.” Eu mal consigo pegar instrumentos toscos para fabricar um canil para meu cão ou fazer a reforma na casa; preciso contratar meu vizinho trabalhador. Eu estou na minha casa de praia e invejo as capacidades dos insetos que a habitam para fazer as suas. Definitivamente, perdemos a capacidade de usar as mãos. Culpa do celular, o que falarei em outro ensaio.
O que aprendemos com os animais de praia
Minha conclusão vem do olhar que dirijo à minha casa de praia, habitada por tantos insetos construtores, e comparo com minha diminuta capacidade de construir alguma coisa. Se em Fitópolis (UBU, 2026), o neurobiólogo e botânico italiano Stefano Mancuso sugere uma transformação radical na forma como concebemos as cidades, inspirada na organização das plantas, propondo suas “cidades vivas” como organismos urbanos dotados de inteligência, resiliência e capacidade de adaptação para combater a crise climática e assim reduzir o abismo que se criou entre humanos e plantas, eu proponho a Entomópolis como a ciência em que os insetos nos ensinam a como mudar nosso mundo.
Eu conheço a obra de Mancuso, mas ele não conhece minha obra. Ele é conhecido, eu não. Mas, por uma dessas ironias do destino, terminamos chegando a uma mesma conclusão: tanto plantas quanto animais têm muito a nos ensinar sobre o modo como estamos construindo ou destruindo esse mundo. Eu só acrescentei o detalhe: com os da praia também. Mancuso concentra-se nas estratégias de sobrevivência de inúmeras plantas mundo afora, dos olivais de Sardenha à pedonalização das ruas de Curitiba; eu olho apenas o meu jardim, como faria Byung Chul Han, observo uma parte muito pequena dos insetos que estão nele e chego à mesma conclusão de Mancuso, de que esses seres diminutos podem nos ajudar a redesenhar o urbanismo das cidades. Se Mancuso acredita que as plantas nos ajudam a criticar a rigidez das cidades projetadas, sua Fitópolis, eu juntaria à sua conclusão de que tanto animais como plantas nos ensinam que a evolução urbana depende mais de uma interação com a natureza, minha Entomópolis. A construção de cidades precisa conciliar o bem-estar humano com a interação com o mundo natural.
Nesse sentido, as formigas que habitam o terreno de minha casa me ensinam que grupos numerosos como os humanos podem sobreviver se trabalharem em grupo e não divididos – Pallasmaa afirma que eles são os grupos de maior sociabilidade conhecidos. “O estudo das formigas permitiu uma percepção mais profunda sobre as origens do comportamento altruísta.” Descubro que, com o simples canteiro de plantas que minha esposa construiu, me relaciono mais com o mundo natural do que com empresas como Melnick e outras, que se baseiam apenas na funcionalidade humana: é isto que sempre nos afasta do equilíbrio natural. Descubro a razão pela qual gosto da arquitetura antiga: assim como os cupins fazem suas construções como seus ancestrais de milhares de anos, e talvez sobrevivam a nós, sua arquitetura, por ser descomprometida com o ideal funcional, é eterna. Prédios antigos também são menos funcionais, mas possuem arquitetura eternamente elegante do art déco, não é mesmo? Minha casa de praia é tradicional como as que desenhava na infância, e não no estilo “caixote”: o tradicional arquitetônico me basta. Finaliza Pallasmaa: “A arquitetura animal nos ensina que o caminho em direção à arquitetura humana ecologicamente consciente que buscamos não é aquele que nos leva de volta a formas primitivas de construção, mas o que nos conduz a uma avançada sofisticação tecnológica. A evolução é rumo a um refinamento cada vez mais sutil, não o contrário. A arquitetura animal também respalda a crença funcionalista na interdependência entre razão e beleza. Entretanto, a lição mais importante que podemos aprender com as insuperáveis maravilhas das construções animais é sobre a humildade, uma humildade da qual todos precisamos de vez em quando” (p. 184).
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Foto da Capa: Acervo do Autor

