Eu tinha uns 13 anos quando fui ao primeiro show sem um adulto responsável. Era em Tramandaí, em um ginásio municipal. Se mal não recordo era TNT, Cascaveletes e Nenhum de Nós – sim, eu era meio roqueirinha. Conseguimos um lugar bacana para ficar. Porém, atrás de mim, um merda, de uns 25 anos, começou a passar a mão na minha bunda. Olhei para trás e o homem que era enorme se fez de desentendido e perguntou: “Tá olhando o quê?” Então, eu disse à minha amiga de 14 anos que tínhamos que sair dali.
Agora era eu que tinha 14 quando um sujeito de uns 30 me abordou em um ônibus para me dizer que eu era bonitinha etc. Ele me deu um cartão para fazer contato, já que queria, disse, me agenciar como modelo. Naquele momento, eu sabia que havia algo errado. Um feeling de lorota no ar. Acho que, estranhamente, naquela situação me salvou a incipiente consciência racial e de padrões de beleza, misturadas a uma baixa autoestima adolescente. Nunca vejo modelos como eu, pensei. O como eu em questão significava negra e de baixa estatura, como é meu caso.
Eu tinha uns 15 anos quando estava lendo no ônibus um livro de Victor Hugo – Os trabalhadores do mar – e um homem de uns 45, 50 me abordou para perguntar se eu gostava mesmo de Victor Hugo. Educada e constrangida, eu disse que era meu primeiro contato com o autor. Ele disse que eu devia ser muito inteligente e blá, blá, blá infinito e constrangedor. Diante desse pavor, usei a minha tática de não descer na minha parada de ônibus habitual, mas em uma na qual entrava pela parte de trás do condomínio, na tentativa de que aquele sujeito não pudesse jamais localizar a minha casa e ficasse com a referência da parada errada. Como aprendi isso? Não me lembro, mas é bizarro ser tão jovem e ter tantas táticas de autodefesa armadas para poder voltar para casa. Eu nunca mais queria ver a silhueta daquele homem que não me expressou explicitamente nenhuma obscenidade, mas cujo toque insistente das pernas, me encurralando e sufocando na janela do ônibus, me fez muito mal. Por muito tempo sequer pude voltar a tocar naquele livro.
Já era adulta e um dia decidi ir embora de uma festa sozinha. Às vezes penso: que ideia bem besta! Mas, enfim, deveríamos poder fazer isso, não? Meus amigos estavam se divertindo e eu só queria ir pra casa. Aprendi desde cedo que o tal direito de ir e vir não pertence às mulheres. Cresci e crescemos escutando coisas como: “No estádio não te levo, é muito perigoso; não mostre os dentes pra qualquer um; lá eu só te deixo ir quando tiveres um namorado”. Mas eu era livre, desimpedida e adulta, né? Então, saí. E, quando estava por entrar no táxi, me dou conta de que a grana estava curta. Só que eu ainda tinha algum dinheiro no bolso e, então, decidi perguntar ao taxista se ele aceitaria me levar por aquele valor ou pelo menos até uma parte do percurso. Doce ilusão. Entendo que ele não quisesse fazer isso, afinal de contas, ele poderia nem ser o dono do táxi, mas um empregado, sei lá. Não contava com a bondade alheia. Contudo, em vez de me dizer um simples não, a resposta dele foi: “Só se tu deixar eu passar a mão nas tuas coxas”.
Vivi e vivemos em uma sociedade que naturaliza essas passagens e outras tantas ainda piores de machismo, cultura do estupro, misturado com pedofilia, misturado com ódio às mulheres. Isso está entranhado na vida de minhas familiares, amigas, colegas e, claro, minhas pacientes. Está entranhado nas atitudes masculinas e na pouca implicação que os machos, incluindo os próximos, costumam ter com o tema. Parece que machista é sempre o outro, parafraseando a frase de Kabengele Munanga a respeito do racismo.
Estou maternando a minha enteada e grávida de outra menina. Tenho verdadeira repulsa ao fato de ter que ensiná-las a se cuidar, ter que repetir tudo aquilo que ouvi e que sempre me pareceu tão injusto como assombrosamente necessário. Até quando essa será a verdade oferecida pelos homens? Até quando será necessário?
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Foto da Capa: Tânia Rêgo / Agência Brasil

