Algumas pessoas parecem carregar o dom de transformar o luto em luta, o sofrimento em coragem, a dor da perda em uma causa pela qual vale a pena seguir. Confesso que, quando meu pai morreu de câncer em 2021, eu quis ser uma dessas pessoas. Naquele tempo, desejei me doar em algum trabalho voluntário, oferecer palavras de consolo a pacientes em estágio terminal. Queria transformar a dor em gesto. Usar o pouco que eu tinha para dar um pouco de alívio a quem, talvez, estivesse vivendo o mesmo que vivi.
Pensei em voltar ao hospital onde meu pai faleceu. Imaginei-me conversando com pacientes, estendendo solidariedade com o olhar, com a escuta. Quis tudo isso. Mas nunca consegui cumprir essa meta. Eu mal dava conta de consolar minha mãe, tão devastada, e meu filho, tão apegado ao avô. Queria cuidar de cada um deles quando, na verdade, nem de mim eu conseguia cuidar. Escondi meu luto em algum canto da casa, enquanto permanecíamos isolados pela pandemia, e tentei fazê-los esquecer, ao menos, um pouco da dor que sentiam.
Havia ainda minha irmã, que deu à luz ao primeiro filho menos de vinte dias após a morte do nosso pai. Entre a dor da perda e as exigências do puerpério, tão intenso e avassalador, ela também tentava resistir. Os sentimentos se misturavam entre a tristeza que pairava sobre nós e a chegada do Gael, o novo integrante da nossa família, que chegava cheio de vida e energia. Eu não soube lidar com tudo ao mesmo tempo e a depressão foi avançando sobre mim e apagando qualquer chance de eu realizar aquele desejo inicial.
Todas as noites, ao deitar, eu lembrava do meu pai no hospital e revivia, em detalhes, os dias de sofrimento. Foram doze meses de esperança, de tentativas, de esperas por um milagre. E, embora, no fundo, eu soubesse que pouco havia a ser feito, nunca deixei de incentivá-lo a prosseguir. Acompanhei cada sessão de quimioterapia, cada exame, cada internação. Só permiti que o chão me faltasse depois que ele já não precisava mais de mim.
Lembrei de tudo isso quando li O tempo não para — Viva Cazuza, de Lucinha Araújo. No livro, publicado em 2011 a partir do depoimento concedido a Christina Moreira da Costa, Lucinha narra a criação da Sociedade Viva Cazuza, instituição que, por trinta anos, acolheu crianças e adolescentes com HIV. Levei quase uma semana para concluir a leitura. Não por dificuldade com o texto, nem pela extensão, mas porque em muitos momentos, precisei parar para respirar.
Lucinha perdeu o filho em 1990, quando a AIDS ainda era cercada de estigmas e incertezas. Viu seu menino definhando, perdendo força até desaparecer. Lutou com todas as armas que tinha. Ela e o marido, João, esgotaram os recursos, buscaram respostas, tentaram evitar o inevitável. No início, Lucinha não conseguia sequer se aproximar de outras pessoas vivendo com HIV. Não queria ver no rosto delas a lembrança do filho. Mas, aos poucos, foi além da doação que pretendia fazer a um hospital. Sem perceber, estava com uma casa cheia de crianças, cuidando de cada uma como cuidou de Cazuza.
A Sociedade Viva Cazuza devolveu Lucinha à vida. Em um tempo em que o preconceito era ainda mais feroz do que hoje, ela encontrou forças para seguir adiante ao lado de voluntários que, como ela, acreditavam no cuidado e na dignidade como formas de resistência. Lutou por aquelas crianças com a mesma intensidade com que tentou salvar o filho, oferecendo a elas o que o mundo insistia em negar: afeto, respeito e um lugar seguro.
No mesmo período em que Cazuza definhava diante de uma doença ainda cercada de medo e desinformação, Lulu Santos cantava em “A Cura”: “Existirá / E toda raça então experimentará / Para todo mal, a cura”. A canção carregava, em seus versos, uma esperança que ainda não se concretizou por completo. Ainda aguardamos uma vacina capaz de impedir o contágio, um remédio que ofereça a cura definitiva. Mas muito se avançou desde então. O tratamento da AIDS evoluiu de forma significativa, e hoje, pessoas que vivem com HIV podem ter uma vida longa, plena e com qualidade. Prova disso é que a Sociedade Viva Cazuza, criada por Lucinha Araújo para acolher crianças soropositivas, encerrou suas atividades em 2020, não por falta de propósito, mas pelo feliz esvaziamento de sua demanda. O número de crianças naquela situação se tornou tão pequeno que a casa, por fim, cumpriu sua missão.
Lucinha nunca deixou de sofrer pelo filho. Reviveu a sua morte em cada criança que não resistiu à doença ou que foi embora com algum familiar e nunca mais voltou. Mas ela também viu em cada uma daquelas crianças uma continuidade de Cazuza e isso lhe deu forças para continuar.
Ao terminar a leitura de O tempo não para — Viva Cazuza, entendi que, embora eu não tenha conseguido realizar aquele desejo de retornar ao hospital, minha dor também me moldou. Ela me ensinou sobre limites, sobre o tempo necessário para cuidar primeiro de mim, depois dos outros.
Não fui capaz de transformar meu luto em uma ação concreta como Lucinha. Mas talvez escrever sobre ele, agora, seja o começo de outro caminho. Porque compartilhar o que nos atravessa é, também, uma forma de resistência.
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Foto da Capa: Sociedade Viva Cazuza

