
Se eu dissesse que uma das histórias de amor mais famosas da literatura universal é uma completa invenção, muitos dos meus seis ou sete qualificados leitores não teriam problema em concordar comigo, pensando, talvez, que todas as grandes histórias de amor são inventadas, como Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, Erec e Enide ou Layla e Majnun, criações de artistas ou lendas de ampla circulação. Mas não, falo aqui de outra coisa. Falo de uma das histórias de amor mais mal compreendidas da história da literatura pela sua simples existência em um plano idealizado sem qualquer sustentação no chamado “mundo real”: a devota paixão que o fundador da literatura italiana, Dante Alighieri, teria dedicado à sua musa Beatriz.
Este é Dante
Dante, forma que se tornou popular entre nós, mas que era em seu tempo a versão reduzida do nome que recebeu de seus pais, Durante, em homenagem a um de seus avós, nasceu em algum dia entre maio e junho de 1265, na família Alighieri, pertencente à pequena nobreza de Florença.
Florença, na época, não era uma cidade aos moldes contemporâneos, mas uma comuna autônoma, como boa parte da Itália fragmentada do período. A Itália, durante esse século XIII, é uma rota direta entre a Europa, o Oriente sarraceno e o Norte da África. E Florença, especificamente, na Toscana, era um entreposto quase obrigatório de circulação entre o norte e o sul da Península Itálica, o que a tornou uma cidade próspera, vivendo seu apogeu no comércio, na arquitetura, na cultura e mesmo no modelo político. Saber tais coisas sobre a cidade em que Dante nasceu se torna essencial para entender sua obra, dado que ela surge em um cenário vibrante de cultura e arte. Ao mesmo tempo, ajuda-nos a formar um quadro mais claro de um homem sobre o qual, apesar de sua importância para o cânone da literatura mundial, sabe-se realmente muito pouco – a maioria dos dados biográficos a seu respeito precisa ser escavada em análises minuciosas de suas obras mais conhecidas, como Vida Nova, Convívio e a obra-prima A Divina Comédia.
Embora a posteridade viesse a denominá-lo “o sumo poeta”, como o chamam os italianos, Dante em seu tempo era mais conhecido como filósofo e mesmo como uma versão ancestral do que hoje chamamos de “polemista”. Foi também homem de ação política, lutou no exército da cidade, fez parte do conselho deliberativo e foi eleito como um dos priores da comuna, o colegiado de seis integrantes responsável pela administração durante um mandato de dois a três meses. Essa mesma atividade política resultou no episódio mais dramático de sua vida: o exílio ao qual foi condenado a partir de 1302 e do qual jamais voltaria, tendo morrido em 1321, em Ravena.
A política de Florença
A desgraça política de Dante foi uma consequência colateral de uma disputa política que durou séculos na Europa medieval, o conflito renhido entre o partido dos Guelfos e o dos Gibelinos. Se você é daqueles ingênuos que repete que o problema do Brasil atual é a polarização política, deveria conhecer os Guelfos e os Gibelinos. Resumindo bastante, um dos pontos centrais da discórdia entre as duas facções na época de Dante era a quem Florença devia obediência, se à autoridade do Papa, em Roma, opinião dos Gibelinos, ou à do Imperador do Sacro Império Romano-Germânico, como queriam os Guelfos. A origem do conflito foi, originalmente, uma disputa de poder entre o papa e o imperador na Germânia no século XII, mas logo se tornou uma questão transnacional. Em Florença, o século XIII em que Dante nasceu viu escaramuças civis particularmente sangrentas. A cada mudança de poder na cidade, o partido vencedor promovia uma razia de execuções, condenações à morte e ao exílio e a destruição das casas e das propriedades das famílias da facção adversária.
A família de Dante, inclusive seu pai, era historicamente ligada aos guelfos, partidários do papa. Porém, nas décadas em que Dante viveu em Florença, no último quarto do século XIII e na passagem para o XIV, os guelfos haviam garantido hegemonia e os gibelinos há anos haviam sido exilados. E, como costuma acontecer bastante entre facções políticas que chegam ao poder pela aniquilação dos adversários e pela imposição da força, não demorou que um racha entre os guelfos no poder desse origem a um novo conflito civil, desta vez entre a facção “branca” e a “negra”.
Os guelfos brancos eram considerados políticos populistas e viam a intervenção crescente do papa nos assuntos da cidade com preocupação (o que, por ironia, os fazia ter uma posição parecida com a dos gibelinos contra quem lutaram antes), enquanto os guelfos negros defendiam abertamente que a aristocracia ligada à hierarquia papal deveria ditar os rumos da cidade. O papa usou as tensões civis como desculpa para enviar uma força armada e ocupar Florença – na verdade, oferecendo um auxílio velado aos líderes dos guelfos negros, que tomaram o poder e começaram retaliação feroz contra os adversários.
Como tinha relações familiares com ambas as facções, Dante tentou manter uma posição de neutralidade, mas sua ação política era mais alinhada com os brancos, e esse foi um dos motivos de ter sido denunciado pelos novos e vingativos governantes por má administração durante sua gestão como prior, em 1300. Foi condenado a uma multa que, por não ser paga, foi transformada em sentença de morte. Dante estava em Roma quando a sentença foi proclamada, como parte de uma missão diplomática enviada para apaziguar o papa e tentar fazer a Santa Sé recolher seu exército de ocupação. A missão não foi bem-sucedida, mas salvou-lhe a vida. O próprio papa Bonifácio VIII, desafeto de Dante, deu ao poeta a notícia da condenação e o aconselhou a não pisar mais em Florença. Ele nunca mais voltaria à sua amada cidade.
A mulher ideal
Por ironia, Dante tinha ligações muito próximas com a família que liderava a facção negra dos guelfos, seus algozes e adversários, os Donati – a mesma família da esposa de Dante, Gemma, com quem ele se casou por volta de 1285. Sim, e é aqui que se confundem um pouco as coisas para quem só ouviu falar por alto de Dante e de sua musa Beatriz. Dante casou e teve quatro filhos com Gemma Donati, outra mulher que não a sua musa pública – Beatriz, ela própria uma mulher casada, era, na prática, alguém que Dante conheceu muito de passagem.
Beatriz é mostrada na Divina Comédia como a alma que acolhe Dante na entrada do Paraíso e substitui como guia o poeta romano Virgílio, que o havia conduzido pelo Inferno e pelo Purgatório. Mas o pouco que se sabe sobre o “amor” de Dante por Beatriz pode ser escavado, na verdade, em Vida Nova, misto de livro de memórias e tratado poético que o poeta publicou em algum momento entre 1292 e 1296, e no qual narra seus primeiros anos de vida e como veio a dedicar sua poesia e seu coração à jovem dama Beatriz Portinari (1266-1290).
Diferentemente de Dante, Beatriz era da alta nobreza, uma das seis filhas de um prestigiado e riquíssimo cidadão florentino, Folco Portinari, que fundou em um terreno de sua família o hospital de caridade Santa Maria Nuova, existente até hoje em Florença. Dante conheceu Beatriz numa festa religiosa oferecida pelo pai dela quando ele tinha 10 e ela, nove. O autor declara que sua paixão foi imediata e duraria toda a vida – e de fato, Beatriz é uma presença recorrente em seu trabalho poético. Mas, fora da imaginação de Dante, nunca houve romance entre Beatriz e ele. Sendo da alta nobreza, ela já tinha o casamento contratado desde a época em que Dante a viu pela primeira vez com uma família de igual posição, acima da dos mais modestos Alighieri. Dante chegou a ver Beatriz à distância outras vezes na capela da família dela, mas só falou com ela pessoalmente em uma única ocasião, nove anos depois de a ter visto pela primeira vez, em 1283. Ao passarem um pelo outro na rua, Beatriz, que vinha acompanhada de outras duas mulheres, concedeu a Dante um cumprimento gentil – no máximo um aceno de cabeça e uma breve e educada saudação, não mais do que o nosso “oi, tudo bem?”.
Sonhos molhados e os fiéis do amor
Foi o suficiente para que Dante, transfixado, tivesse naquela mesma noite um sonho erótico com Beatriz, no qual a via seminua amparada nos braços do próprio Amor (representado como uma divindade que parecia em chamas), que dava a ela o coração de Dante para que ela o devorasse. Dante conta a experiência em um dos poemas reunidos em Vida Nova, A ciascun’alma presa e gentil core (A qualquer alma cativa e coração gentil), cujo trecho eu traduzi aqui mal e porcamente, mas mantendo a métrica do original o mais que pude:
Alegre me parecia o Amor, mantendo
Meu coração na mão e nos braços, tendo
minha dama, dormindo envolta em panos.
Então ele a despertou e o coração ardendo
A ela, temerosa, deu de comer, humilde,
E na sequência o vi ir embora chorando.
Impressionado por essa visão, Dante lançou-se à escrita da poesia amorosa como se o sonho tivesse sido uma profecia. É assim que ele faz contato com uma geração de poetas florentinos que se entregavam à prática da poesia de amor cortesão e mudaram a história do idioma italiano. Após enviar os versos de A ciascun’alma presa e gentil core a alguns outros poetas, recebeu algumas entusiasmadas respostas e aí se iniciava o movimento dos Fedele d’Amore (os “fiéis do Amor” – fiel aqui no sentido de um fiel de uma religião ou culto), jovens artistas que viam na poesia amorosa uma ferramenta da ascensão espiritual, desde que motivada por um amor intenso e casto por uma dama que, adorada, se tornava o objeto de uma devoção iluminada que levaria à salvação da alma do amante.
É o nascimento do que também passaria à posteridade como o Dolce Stil Nuovo (“o doce novo estilo”), voltado para um amor espiritualizado por uma mulher idealizada como um anjo intermediário entre a vida na Terra e a vida no Paraíso. Como lembra Erich Auerbach em seu Introdução aos Estudos Literários, a poesia dos Fedele d’Amore é um marco todo particular da lírica cortesã, então a pleno na Europa, mas ausente ou muito rara na Itália do período. Entre os que se declararam “fiéis do amor” em resposta a Dante estavam Guido Cavalcanti (1250-1300) e Lapo Gianni (sem data de nascimento conhecida, mas falecido após 1328). Dante registraria a amizade do trio no soneto Guido, i’ vorrei che tu e Lapo ed io, incluído nas Rimas, coletânea de poemas póstumos do autor compilada depois de sua morte:
Guido, que bom seria se tu, o Lapo e eu
fôssemos presos em um encantamento
e postos num barco que com cada vento
andasse pelo mar, à nossa vontade;
(Novamente, a tradução é minha. Garanto o respeito à métrica, mas não a melhor solução poética, ainda mais no tempo exíguo que eu tive para isso).
Mas, voltando a Beatriz, Dante conta que ela passou a recusar seus cumprimentos depois que ele fingiu amar outra mulher para proteger seus sentimentos da fofoca dos indiscretos (gigante na poesia, Dante claramente não tinha as skills práticas do romance). Para o poeta, a desaprovação de Beatriz é perturbadora, já que, coerente com o que pensavam os “fedele d’amore”, ele a via como uma espécie de Speculum Dei (o “espelho de Deus”), que o guiaria para a salvação – uma ideia que ele vai retomar como um episódio literal em Divina Comédia, na qual Beatriz é a guia de seus passos pelo Paraíso e o esclarece sobre delicadas questões da alma, da fé e da teologia.
No próprio Vida Nova, contudo, Dante argumenta que seu amor por Beatriz, cortado tão abruptamente, terminou por ser sublimado como uma admiração espiritual. Substituindo a corte amorosa terrena por um amor tanto mais puro quanto menos possível. Começa em Vida Nova a ideia do amor como ascese espiritual em direção ao divino, que mais tarde seria um dos temas centrais de Dante n’A Divina Comédia (em que Beatriz se torna mais bela e mais gloriosamente brilhante quanto mais perto ambos se aproximam da “luz de Deus”, que ela reflete sobre a alma inquieta do Dante, personagem do poema).
Só que, enquanto Dante publicou os poemas apaixonados que demarcavam Beatriz como uma ponte entre o místico e o terreno, Beatriz Portinari, conhecida familiarmente como Bice, a mulher de carne e osso que cada vez tinha menos a ver com seu retrato ficcional, já não caminhava mais entre os vivos desde 1290, quando morreu, aos 24 anos, de causas não registradas – como, aliás, era comum no período. A própria existência de Beatriz só é confirmada por menções colaterais em documentos assinados pelos homens de sua vida. Uma dotação no testamento do pai, datado de 1287, deixando dinheiro para sua filha “Bice”, casada com Simone de Bardi. Simone, assim como os Portinari, era de uma família de banqueiros e grandes negociantes. O primeiro a arriscar uma identificação da identidade de Beatriz foi o também poeta Giovanni Boccaccio (1313–1375), primeiro biógrafo de Dante, e seu palpite é até hoje considerado certeiro.
À medida que se mergulha no universo de Dante, no transbordamento místico e emotivo de sua poesia, na profundidade filosófica de seu pensamento teológico, mais chama a atenção essa disparidade entre duas das principais mulheres de sua vida. Dante passou a escrever sobre Beatriz depois que seu amor havia ganhado uma nova e definitiva camada de impossibilidade: a morte de sua musa. Ao mesmo tempo em que chorava pela ausência da doce e pura Beatriz, Dante seguia casado com Gemma Donati, a quem fora prometido ainda aos 11 anos – um casamento que era, sob qualquer ângulo, mais vantajoso para o Alighieri, já que os Donati eram uma família de influência e fortuna muito maior. Depois que ele partiu para o exílio, há algumas informações dispersas de que ela seguiu em Florença e assumiu a gestão da família – lutando, inclusive, para reaver as propriedades tomadas de Dante pela facção de seus próprios parentes. Ela ainda sobreviveria mais de uma década ao marido. Não há, contudo, nenhuma palavra direta deixada sobre ela, nem informações sobre se ela sabia escrever ou, sabendo, se manteve algum diário ou enviou correspondências. Não há cartas, cadernos, bilhetes, nada em primeira mão de Gemma, a quem só se pode imaginar aceitando em silêncio a paixão platônica do marido por uma mulher de posição social mais elevada. Nada em segunda mão, também, já que Dante não deixou uma única linha sobre ela.
Sei que é sempre necessário, ao olhar esse tipo de história ocorrida com esse tipo de pessoa, ajustar nossas lentes contemporâneas ao contexto – e o contexto é o de uma hierarquização naturalizada dos homens sobre as mulheres, tendo como resultado um silenciamento normalizado das damas “recatadas e do lar”. Mas é impossível não imaginar o quanto essa história é representativa de um padrão social. Dante, derramado de amor por uma mulher que nunca conheceu de verdade, vendo no amor puro e incorruptível que dizia sentir por ela a chave para a salvação de sua alma. Sem tempo para compor sequer uma nota promissória à mulher com quem dividiu a casa e formou uma família. Duas mulheres que, em posteridades opostas, tornaram-se, uma, talvez a grande musa literária da poesia ocidental, e a outra, um dos satélites desconhecidos gravitando figuras celebradas da História.
Dante começa a escrever a Comédia (que não foi chamada de Divina até mais tarde, quando Boccaccio deu ao livro o adjetivo que seria seu título pelos sete séculos seguintes) no exílio. Longe da amada idealizada, que agora vivia apenas em sua cabeça, e da esposa artisticamente negligenciada. Ambas, talvez, mais imagens do que realidade.
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