Em 1995, quando minha mãe teve de se submeter a uma cirurgia agressiva e de alto risco, rompi com Deus. No corredor do hospital, disse a uma de suas amigas, que tentava me consolar apelando à intervenção divina e outras expressões dessa natureza, que daquele momento em diante eu estava de mal com ele. Trinta anos depois, percebo que não fiz as pazes. Por rancorosa, talvez. Ou porque, como li em um conto do livro De Repente Nenhum Som, do Bruno Inácio, eu fosse alguém que acreditava em Deus apenas por obrigação. Portanto, não haveria problema nenhum em varrê-lo da minha existência, ou melhor dizendo, das minhas sinapses um tanto exigentes no que diz respeito a ficções e, por que não dizer, à realidade.
Eu adoro a realidade, por mais que ela, em um certo sentido, de vez em quando, também rompa comigo e me jogue de um lado ao outro, como se eu não fosse uma pessoa até o momento em que, se fazendo de meiga, do nada, me pede desculpas, coisa que quase ninguém mais sabe fazer ou aceitar. E coisa que eu devo pedir a mim mesma porque, ao contrário do que eu imaginava, não tenho sido muito bacana comigo. Como quase todos nós, me transformei em uma vítima de mim mesma, uma pessoa que comercializa sua única existência em nome da criatividade, do desempenho, da sobrevivência e de uma liberdade que não passa de ilusão. Sou uma iludida. Ou era. Li, freneticamente, o pequeno grande livro Sociedade do Cansaço, em que o filósofo sul-corenano Byung-Chul Han joga na minha, sua, nossa, de todos que o lerem, cara o quanto super exploramos a nós mesmos, como se fôssemos mais uma mercadoria entre muitas. No caso, entre bilhões de seres humanos em processo de desumanização.
É. Processo de perda de tudo o que nos singularizou dentro do reino animal, como entre outras, a perda da noção da passagem do tempo, da capacidade de nos admirarmos com uma infinidade de possibilidades e a perda de estarmos inteiros onde quer que a gente vá, sozinhos ou acompanhados, porque temos, dentro da lógica hipercapitalista que domina o planeta, de estarmos abertos e prontos para, feito uma máquina que não pode parar, agradar e satisfazer as demandas insaciáveis do trabalho e da produção não mais ligadas às dinâmicas da disciplina e, sim, às do desempenho, algo que entendemos como multifacetado, potente e civilizado, quando, na verdade, revela um retrocesso ou um retorno ao que Byung-Chull Han chama de ‘estado selvagem’.
“A multitarefa está amplamente disseminada entre os animais em estado selvagem. Trata-se de uma técnica de atenção, indispensável para sobreviver na vida selvagem. Um animal ocupado no exercício da mastigação de sua comida tem de ocupar-se ao mesmo tempo também com outras atividades. Deve cuidar para que, ao comer, ele próprio não acabe comido” ele diz. E eu me lembro da quantidade chocante de gente que já vi mexendo no celular enquanto faz uma refeição sentada a uma mesa com alguém. Por vezes, mesmo um parceiro ou parceira por quem se sente algo especial. Não gosto da palavra especial, mas não me ocorre outra. O que ocorre é que essa situação ilustra a necessidade inoculada em nós de que temos de ser proativos e de que não podemos ficar de fora de nada sob a pena de sermos superados, esquecidos e descartados, como se coubesse ao mercado de trabalho e seus discípulos regularem os nossos egos, dizerem para que fomos feitos e determinarem o quanto valemos.
Não sei quanto a você, mas eu acho isso péssimo.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

