Sem querer alimentar conspirações mirabolantes ou reforçar o pânico gerado a partir de uma hipotética invasão alienígena – temas que têm ganhado força nas alienantes redes sociais —, proponho uma espécie de ensaio reflexivo sobre humanidade, transcendência e o encontro com o que chamarei de “Outro Cósmico”.
Muito se tem especulado sobre a aproximação do 3I/Atlas, objeto interestelar identificado em 1º de julho de 2025. O responsável pela descoberta foi o supertelescópio do Asteroid Terrestrial-impact Last Alert System (ATLAS), instalado no Chile. Vale salientar que esse é um sistema de alerta de asteroides que utiliza telescópios robóticos para vasculhar os céus e identificar objetos que se aproximem da Terra. Tal sistema, desenvolvido pela Universidade do Havaí e financiado pela National Aeronautics and Space Administration (NASA), mantém supertelescópios ativos também nas unidades do referido estado norte-americano e na África do Sul.
Com essa explicação inicial, penso que “a pergunta que não quer calar” diante da aproximação do objeto celeste – rapidamente catalogado como simples cometa interestelar – ecoa como heresia científica e teológica: e se o 3I/Atlas for uma nave extraterrestre? Ou, melhor dizendo: e se, em vez de um fragmento de gelo e poeira errante – vindo não se sabe precisamente de onde —, estivermos prestes a testemunhar a chegada calculada de uma tecnologia não humana?
Tal hipótese, que outrora habitaria apenas a ficção científica e os círculos de especulação metafísica, hoje já não se mostra tão distante de nossas possibilidades. Pelo menos não para cientistas como Avi Loeb, renomado astrofísico israelense-norte-americano, professor da Universidade de Harvard e presidente de seu Departamento de Astronomia entre 2011 e 2020. Atualmente, Loeb dirige o Instituto de Teoria e Computação no Centro Harvard–Smithsonian de Astrofísica. Segundo o cientista, é preciso considerar as semelhanças entre os comportamentos irregulares — e incomuns em cometas — do 3I/Atlas e os apresentados pelo 1I/Oumuamua, primeiro objeto interestelar vindo de fora de nosso Sistema Solar, identificado em 2017; seguido pelo 2I/Borisov, em 2019.
Penso que, apesar de ser uma voz solitária – já que a grande maioria dos cientistas se opõe à sua teoria —, Loeb não pode ser desconsiderado, haja vista os recentes (e antigos) relatos militares de objetos de reconhecimento impossível, o que tem reforçado o abismo crescente daquilo que ainda ignoramos.
Particularmente, confesso que, desde jovem, sempre questionei a lógica fantasiosa de um universo enorme que, possuindo de 1 a 2 trilhões de galáxias (estimativa aproximada, claro), destinaria a existência de vida inteligente unicamente a um pequeno planeta localizado na constelação de Órion – que nada mais é do que um dos braços de nossa Via Láctea, nome dado pelos antigos gregos por lembrar um caminho de leite no céu noturno. Então me pergunto: qual nossa real significância frente à tamanha complexidade do universo?
A curiosidade levou-me a ler Eram os Deuses Astronautas? (1968), escrito pelo arqueólogo e teórico suíço Erich von Däniken, que ousou propor que inteligências extraterrestres influenciaram civilizações antigas. A história mostra que, assim como Avi Loeb, Däniken foi ridicularizado por muitos – e por muito tempo. Todavia, diante da imprevisibilidade dos corpos interestelares, cada vez mais frequentemente identificados, a pergunta ressurge com força renovada: eram os deuses uma espécie de 3I/Atlas? Não é essa, afinal, a conjectura que tem invadido a Internet e os canais de notícias atualmente? Logo, a proposta aqui apresentada não se mostra tão absurda, objetivando apenas estimular breves reflexões acerca dos impactos de uma eventual confirmação sobre o que sempre pressentimos: não estamos sós!
Convido-os, então, a um mergulho nas tensões emocionais, sociais, espirituais e filosóficas que tal revelação provocaria. Para tanto, comecemos pensando: e se o 3I/Atlas fosse, na verdade, uma nave alienígena? A hipótese, por si só, é simples em formulação, porém devastadora em implicações, já que um objeto com trajetória precisa, aceleração anômala e comportamento incompatível com os modelos astronômicos poderia, em teoria, ser uma nave. E a ciência cautelosa, claro, hesitaria em admitir. Ou não? Mas e se – e somente se – estivermos à beira de um primeiro contato?
A verdade é que a humanidade nunca se preparou devidamente para essa possibilidade. Sabemos, porém, que observatórios ao redor do mundo, incluindo o avançadíssimo Vatican Advanced Technology Telescope, mantido pela Igreja Católica, rastreiam continuamente fenômenos celestes – não por paranoia, suponho, mas por reconhecimento silencioso de que a vastidão cósmica supera, e muito, nossa capacidade de controle. Não foi por acaso, então, que um representante do Vaticano declarou que eventuais extraterrestres “também seriam filhos de Deus”, posicionamento que, a meu ver, antecipa a tentativa da milenar e poderosa instituição religiosa de integrar o novo paradigma sem que seu edifício de crenças colapse. Alguém concorda? Caso o 3I/Atlas se revelasse uma nave, não seria apenas um evento astronômico. Seria, logicamente, a dissolução das fronteiras entre ciência, fé, história e imaginação. Seria, talvez, o início de nós mesmos – ou o fim de nossa arrogância.
Seguindo com a reflexão: o capitalismo sobreviveria a esse contato? Ora, se vivemos em uma sociedade moldada por consumo, competição e escassez artificial, o que significaria realmente a chegada de uma nova inteligência avançada à Terra? Tecnologias inalcançáveis capazes de tornar obsoletos sistemas econômicos inteiros? Seria o colapso do monopólio humano sobre recursos, energia e conhecimento? Presenciaríamos a inevitável ruína de corporações gigantescas caso novas formas de energia ou transporte fossem compartilhadas? Ou assistiríamos à completa reconfiguração das relações de poder entre as nações?
Imaginemos, por exemplo, o efeito de uma tecnologia que eliminasse a necessidade de combustíveis fósseis. O que ocorreria com países cuja riqueza se baseia no petróleo e que perderiam sua relevância em semanas? E as empresas bilionárias que ruiriam junto a mercados inteiros que evaporariam? Estou convicto de que o capitalismo atual, enquanto sistema de controle baseado na falsa escassez, não sobreviveria sem sofrer metamorfoses profundas. Essa possibilidade, inclusive, traz-me à lembrança outro livro que li na juventude: Admirável Mundo Novo (1932), do escritor inglês Aldous Huxley, que, em sua ficção, propôs que a tecnologia redefiniria as relações sociais, os valores e as hierarquias. No caso atual, a diferença consistiria no fato de que a tecnologia não viria de nós — mas de visitantes. Assustador?
Mais temeroso ainda é pensar sobre como se daria a convivência com esse “Outro”, já que mal sabemos – ou aprendemos – conviver conosco mesmos. Neste ponto, a pergunta ética torna-se inevitável: se não respeitamos a diversidade humana – de cor, raça/etnia, gênero, orientação sexual, cultura, crença —, como estabeleceríamos uma relação saudável com seres completamente diferentes de nós? E, antes de uma resposta precipitada, pautada pelo medo ou pela ignorância, é bom lembrarmos que a história humana é marcada pela violenta destruição do “Outro”. Lembrem-se de Gaza! E dos letais campos de concentração da Alemanha nazista. Somos também perversos. E não é possível apagar a história – a não ser que você seja negacionista de carteirinha e cultue falsos mitos.
Colonizamos, escravizamos, apagamos culturas e pessoas, promovemos guerras e genocídios. Pior ainda: assistimos inertes a assassinatos, massacres e aniquilações diárias. Aconteceu há pouco nos morros do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro? Assim, creio que, se recebêssemos visitantes extraterrestres, entraríamos em confusão mental, pois quem seria o Outro? Nós ou eles? Talvez, quem sabe, a resposta nos chegue como advertência de que ainda não sabemos ser uma espécie madura. Desse modo, como lidaríamos com seres que talvez não valorizem propriedade privada; não compreendam guerras; não tenham religião; não percebam o tempo do mesmo modo; e, principalmente, não entendam a individualidade como nós a concebemos? Para mim, é certo que tal convivência somente se tornaria possível após um espelho doloroso: ver nossa própria imaturidade exposta diante de civilizações muito mais antigas.
Mas sigamos adiante: nossas religiões sobreviveriam? E Deus, assim como as deusas e divindades que criamos ao longo de nossa jornada? Aposto que nada seria mais abalado que as estruturas espirituais. A história nos mostra que, desde as primeiras pinturas rupestres, nós, seres humanos – utopicamente racionais e devidamente espiritualizados —, buscamos sentido no cosmo (e não estou falando do vizinho, claro!). A noção de um Deus antropomórfico – ou seja, formatado à imagem humana – seria confrontada pela existência de seres que não compartilham nossos corpos, nossa biologia, nossa evolução. Com isso, as perguntas pipocariam a ponto de explodir cabeças. Afinal, quem é feito à imagem e semelhança de Deus – nós ou eles? Então existiria mais de um Deus? Mas, se nosso Ilustre é onisciente, onipotente e onipresente, como não viu ou não nos alertou antes? Ele teria mentido para suas próprias criações? Nossas divindades não seriam universais? Então, o Vaticano, assim como muitos dos questionáveis pastores – atividade ou cargo que virou profissão bem remunerada —, representa e fala por quem, afinal de contas? Como sobreviveriam as igrejas evangélicas? Não creio que extraterrestres pagariam dízimos!
E os terreiros? E o Espiritismo? E todas as demais religiões? E se Jesus Cristo tiver sido apenas um extraterrestre, como especulado na obra Cavalo de Tróia (1984), do escritor espanhol J. J. Benítez – que, logicamente, também li. Pensar assim seria heresia ou pecado? Eu mesmo, por exemplo, seria queimado no inferno ou na fogueira da “Santa Igreja”? E depois seria santificado pelo algoz, como foi Joana d’Arc? Creio que não. Afinal, os tempos são outros, não é mesmo? Mas, com certeza, haveria ainda o contraponto fundamentalista: algumas vertentes evangélicas se apressariam em rotular os extraterrestres como manifestações demoníacas, cumprindo uma narrativa apocalíptica já existente.
Resumindo: a reação não seria uniforme – seria, na verdade, caótica. E, nesse aspecto, paradoxalmente, a Igreja Católica parece, entre as grandes tradições religiosas, a mais preparada para a mudança, já que os extraterrestres poderiam ser “filhos de Deus” (lembram?). Não parece esse mais um recurso pelo qual o Vaticano tenta preservar a universalidade da divindade criadora? Um movimento astuto e totalmente coerente com sua longa história de poder e de sobrevivência aos abalos da ciência. Concordam? Contudo, o que me conforta, até certo ponto, é acreditar que sobreviver é diferente de permanecer igual. Pois nada ficaria imune. Ou seja, não restariam pedras sobre pedras — e nem Pedros ouvindo galos cantar três vezes.
E quanto aos impactos emocionais, psicológicos e subjetivos? Sem dúvida, para a população, tal descoberta abalaria: a sensação de singularidade humana; a segurança existencial; a confiança em instituições científicas e religiosas; e, consequentemente, a estabilidade emocional de milhões. Alguns reagiriam com fascínio; outros, com tremendo e incontrolável pavor. Haveria, sim, pânico; euforia; espiritualidade renovada; fundamentalismo ampliado; movimentos messiânicos. Mas não duvidem: haveria colapso psicológico generalizado. E, por fim, a humanidade se dividiria não mais por territórios, mas por narrativas: aqueles que veriam os extraterrestres como ameaça, como salvação, como irmãos cósmicos ou como espelhos de nossas próprias falhas. Esse movimento de disputa já povoa as redes sociais. Ou é apenas impressão minha?
Por último – e não menos importante – pensemos nos impactos políticos, econômicos e na nova geopolítica. Acredito que os países mais desenvolvidos economicamente tentariam, logicamente, monopolizar a comunicação e a tecnologia dos visitantes. “- Meu amigo E.T.!”, gritaria a nação dominadora em flashes e entrevistas. Obviamente, começaria uma nova corrida armamentista, agora interplanetária. Já pensaram na quantidade de planetas a explorar e colonizar? A assimetria entre nações aumentaria exponencialmente, e quem dominasse o conhecimento alienígena controlaria o mundo – ou, pelo menos, acreditaria controlar.
Os extraterrestres, por sua vez – e novamente saliento, acredito eu —, talvez observassem nosso comportamento como se observa uma espécie primitiva que ainda não aprendeu a não se autodestruir. Tornar-nos-íamos pobres animais de laboratório – condição inversa e ultrajante para nossa pretensa superior racionalidade. Ou seja, as consequências geopolíticas ultrapassariam, e muito, qualquer conflito já visto. Seria o fim da balança de poder – e o início de algo novo, incerto e talvez perigoso. Mas, por sorte, o perigo não seria maior que nossa própria existência. Será essa uma visão muito pessimista do homem?
Em conclusão, “- Voz digo” (só de brincadeira, claro): eram os deuses visitantes de uma espécie de 3I/Atlas? A pergunta retorna, agora mais madura: e se, ao observarmos o referido cometa interestelar, estivermos testemunhando aquilo que nossos ancestrais descreveram como “deuses”? E se as visitas do passado, sugeridas por Däniken, forem ecos de uma mesma presença que agora retorna? Dizem até que as pirâmides do Egito já estão vibrando. Você soube da descoberta de uma megaestrutura sob elas? E o mesmo fato parece ocorrer com as pirâmides localizadas na floresta amazônica. Seriam apenas especulações ou todas elas comporiam um sistema interligado que emite sinalizações que guiam o 3I/Atlas? Não está acompanhando o burburinho promovido nas redes sociais? Há até videntes dizendo fazer contato telepático e/ou telecinético. Se ainda não viu, então corra para a Internet e passe a acompanhar os capítulos diários da maior supersérie de ficção científica dos últimos anos. E esperemos que essa não seja a última que possamos assistir!
Mas, falando sério, acredito que a possibilidade abre um horizonte transformador. Talvez a questão não seja se extraterrestres existem, mas se nós estamos preparados para existir junto com eles. Talvez, como em Admirável Mundo Novo, temamos mais a verdade do que a ignorância. Talvez, como nas páginas de Cavalo de Troia, não saibamos interpretar o extraordinário quando o encontramos. Ou talvez precisemos de visitantes para finalmente perceber que não somos o centro do universo – o que, logicamente, nunca fomos!
Bom, por ora, certo é que: se o 3I/Atlas for apenas um cometa, continuaremos olhando para o céu com perguntas abertas. Mas, se não for… bem, aí penso que a história humana está prestes a começar de novo. E que os deuses que reinventarmos, se resistir algum, que digam: Amém!
Referências:
BENÍTEZ, Juan José. Cavalo de Troia. Diversos volumes. Rio de Janeiro: Editora Planeta, 1984.
DÄNIKEN, Erich von. Eram os Deuses Astronautas? Rio de Janeiro: Editora Melhoramentos / Record, diversas edições desde 1968.
HUXLEY, Aldous. Admirável Mundo Novo. São Paulo: Editora Globo / Biblioteca Azul / outras edições brasileiras, originalmente publicado em 1932.
Epitacio Nunes de Souza Neto é psicólogo, psicoterapeuta e professor universitário. Possui doutorado em Psicologia Cognitiva pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e Doutorado em Psicologia pela Universidad del Salvador (USAL) de Buenos Aires, Argentina. Possui também mestrado em Psicologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
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Foto da Capa: Nasa / Wikipedia

