Reparo ao meu redor: trinta e sete abas abertas no navegador do computador onde escrevo estas palavras; três livros sendo lidos ao mesmo tempo; quarenta e dois e-mails em negrito na caixa de entrada; cinco episódios de podcast para ouvir; nem-sei-quantas receitas salvas para fazer futuramente; dois cursos online pagos e não terminados; uns vinte destinos na lista de possíveis próximas viagens; e as metas para 2026 ainda na lista de afazeres: são tantas vontades e sonhos que nem sei por onde começar.
Vivemos na promessa de que ter acesso a tudo seria libertador. Podemos aprender qualquer idioma, assistir a qualquer filme, ouvir qualquer música, trabalhar de qualquer lugar, ser quem quisermos. Nossos pais nos venderam a ideia de infinitas possibilidades como sinônimo de felicidade. Mas esqueceram de avisar que infinitas possibilidades também significam infinitas decisões, e que nosso cérebro, órgão analógico tentando sobreviver em um mundo digital, simplesmente não foi feito para isso.
A paralisia vem disfarçada de privilégio. Afinal, como reclamar de ter opções demais quando existem pessoas que não têm opção nenhuma? Mas a verdade é que a abundância de escolhas não nos torna mais felizes, nem ao menos mais livres; nos torna mais ansiosos e, possivelmente, frustrados. Cada decisão carrega consigo o grande “e se” de todas as outras vidas que poderíamos estar vivendo. Escolher um caminho significa renunciar a outros mil, e a nossa geração foi criada acreditando que não precisaria renunciar a nada.
Crescemos ouvindo que poderíamos ser o que quiséssemos. Convite tentador, fardo invisível. Porque, se você pode ser qualquer coisa, então precisa escolher a coisa certa. E como saber qual é a certa quando todas as portas estão abertas?
A fadiga de decisão nos trava. É por isso que, depois de um dia inteiro decidindo coisas no trabalho e também na vida pessoal, quando podemos descansar, passamos vinte minutos paralisados na Netflix (ou similar) sem conseguir apertar o play. Estamos exaustos.
Que carreira seguir quando você tem interesse em quatro áreas diferentes? Morar em qual cidade quando o mundo inteiro está a um voo de distância? Ter filhos e mudar drasticamente de vida ou não ter? Casar ou não casar e poder conhecer mais pretendentes? Comprar uma casa ou manter a liberdade de não ter raízes? Cada uma dessas perguntas costumava ter respostas socialmente determinadas. Hoje, são só mais itens na lista infindável de coisas que precisamos descobrir sozinhos e, claro, fazer a escolha correta.
O paradoxo é que a solução não está em ter menos acesso, mas em aprender a renunciar. Em fechar abas, cancelar assinaturas, dizer não. Em aceitar que escolher um caminho significa, sim, deixar outros para trás, e que isso não é fracasso, é simplesmente a vida. Viver exige profundidade, mas vivemos na superfície com medo de nos afogarmos em uma única coisa. Como se escolher fosse um tipo de morte — e talvez seja.
Escrevo tudo isso e olho novamente ao meu redor. As abas continuam abertas. Os e-mails, sem ler. Mas talvez o primeiro passo seja reconhecer que não preciso dar conta de tudo. Que aquele livro vai continuar pela metade. Que aquela receita nunca vai sair do TikTok. Que a vida que estou vivendo, com todas as suas limitações e escolhas imperfeitas, é sim o meu (único) caminho.
Respiro fundo. Escolho, por hoje, não escolher mais nada.
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Foto da Capa: AI Canva

