Mês passado, em meio a memórias encaixotadas em um depósito na zona Norte de São Paulo, encontrei um envelope pardo marcado com letras de forma, certamente infantis, que identifiquei como minhas. Estava em busca de um livro dedicado a mim há mais de duas décadas, mas infelizmente não o achei, por falta de tempo e de ajuda para mover e abrir todas as pesadas caixas de papelão. Mas encontrei aqueles álbuns escolares, que contêm uma foto da turma e uma individual (pré I, 1ª série H, 2ª K, 3ª H, 4ª I, 5ª I, 6ª I, 7ª I, 9º I – curiosamente, entre minhas sétima e oitava séries, o ensino fundamental foi modificado e eu pulei para o nono ano), e também o tal envelope pardo.
Dentro dele, me surpreendi com muitos papéis: recados de amor para meus pais, cartinhas, desenhos, e, para meu deleite, três das minhas primeiras “obras literárias”, grampeadas e enumeradas página a página. Uma sobre um menino e um gato, claramente baseada em alguma história que meu pai me contou de sua infância; a segunda sobre uma menina, com certeza eu mesma, que ia à festa de uma coleguinha; e a última sobre uma princesa e sua família, mais uma vez um pouco egocentrada.
Filha de pai escritor e jornalista, e mãe jornalista e poeta, creio que meu destino já estava traçado desde pequena. Gosto de pensar que sim, apesar de ter plena consciência de que o incentivo é criador de destinos. Sempre fui encorajada a ler, desde tenra idade devorava livro após livro, dona de uma biblioteca de fazer inveja aos amiguinhos. Depois, a escrita virou paixão. Completei mais de dez diários, anotando sentimentos, fatos e experiências ao longo dos anos. O primeiro, que me lembre, foi em 2002, com nove anos, um caderno vermelho da Hello Kitty que vinha com um cadeado embutido (antes de mudar de país, como não caberiam nas malas, queimei todos em uma fogueira, ritual de desapego do meu próprio passado). Tirava as melhores notas nas aulas de redação e, além dos meus, criava os textos de amigas que não tinham tanta aptidão, disfarçando o estilo e marcando o papel com uma caligrafia diferente para não sermos pegas. Na faculdade, diferente da maior parte dos meus amigos, amei elaborar o Trabalho de Conclusão de Curso, mais de cinquenta páginas de escrita acadêmica – uma crítica ao modelo econômico desenvolvimentista e suas consequências socioambientais.
Nunca imaginei escrever como profissão, até porque a vida me levou a outros lugares. Só mais madura, aos vinte e nove anos, compreendi que gostaria de viver da escrita, e nem me recordo como cheguei a esta conclusão. Fui contratada para escrever artigos para uma revista em 2023, minha primeira oportunidade na área. Nesse meio-tempo, houve uma grande transformação no mundo, e agora me encontro imersa em um campo onde inteligência artificial e best sellers de qualidade duvidosa reinam.
Em 2026, qualquer iletrado pode escrever um rascunho horroroso e pedir para a IA transformar em um pomposo texto (genérico, sim, mas que pode enganar muitos desavisados), e a quantidade de pessoas “escrevendo” é cada vez maior. Além disso, as plataformas tendem a se desenvolver exponencialmente e, em breve, acredito que os textos ficarão menos pasteurizados e mais difíceis de serem detectados como não-humanos.
Há a discussão de que as máquinas não conseguem ser criativas como nós, pois somos feitos de referências culturais e experiências vividas: concordo plenamente. Mas me preocupa pensar que, por outro lado, as pessoas têm cada vez menos senso crítico, e, talvez daqui a poucos anos, a maior parte dos livros à venda terá sido escrita por sistemas generativos. Isso ainda se aplica a músicas, artes plásticas, filmes, séries e outras formas de expressão. E nós, escritores, criativos, enfim, artistas, teremos que coexistir não só uns com os outros, mas também com infinitas “obras” facilmente geradas com um único prompt.
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Foto da Capa: Arquivo Pessoal.

