Nas últimas semanas, publiquei reflexões sobre algumas questões do universo feminino/masculino, a partir de meus estudos para Mulheres Cérebro Coração (Editora Espírito, 2018). Escrevi este livro como uma forma de enfrentar doenças na família, o desgaste com as longas internações hospitalares do meu pai, as complicações da doença do meu irmão e os lutos subsequentes, mais o agravamento da depressão e outras enfermidades de minha mãe. Isso aconteceu quando eu estava entrando na menopausa, uma fase bem esquisita, apesar de natural do nosso ciclo feminino. Entender como eu me sentia – todo o estresse, a dor psíquica e física, a indignação, o cansaço, a queda dos hormônios – e o que eu podia fazer para me ajudar, foi decisivo para sobreviver aos anos de revezes.
Aprender e escrever sobre saúde me permitiu outro olhar, outra percepção da dor. Minha formação como jornalista me ensinou que é preciso buscar informação séria e qualificada para entender o que acontece e se comprometer. Acho que o aprendizado sobre o que nos machuca é sempre um caminho para nos conhecermos melhor. Foi como eu consegui ajudar também a minha família e, inclusive, descobrir o que havia de belo até mesmo em toda a adversidade.
Meu pai, José Leocádio da Costa Moreira, um engenheiro civil apaixonado por matemática e trens, quando adoeceu, começou sua viagem ao universo desde o leito. Ao longo de quatro anos, eu o acompanhei e tive a rara oportunidade de observar a graça de uma transformação operando nele, a despeito de toda a decadência física. Executivo destacado e bastante formal no trabalho, afeito à vida pacata em família, profundamente responsável e sensato, na doença foi se tornando cada vez mais singelo e afetuoso e eu senti que ia se entregando aos recônditos da sua alma, onde se abrigava, por exemplo, um fascínio por vida extraterrestre, seja lá que forma pudesse ter. Poucos dias antes de morrer, no hospital, ele emergiu do seu silêncio e me disse: “É bonito o mistério”.
Acho que também a convivência com meu irmão, Carlos J. S. Moreira, na juventude, já tinha me despertado para a beleza da área da saúde. Convivi com os amigos dele da faculdade de Medicina na UFRGS e guardo especial lembrança de nossos encontros no lindo apartamento do professor Dr. Milton Abramovich e sua esposa, Léia – era um casal com gosto apurado para arte e antiguidades. Meu irmão foi clínico geral em Ronda Alta e Charqueadas, interior do Rio Grande do Sul, e me marcou o carinho que ele tinha por seus pacientes. Ele gostava sinceramente das pessoas e se dedicava a elas. Foi muito dolorosa a morte dele, três meses antes da morte do meu pai. E cerca de meio ano antes eu perdera também minha gata siamesa de 18 anos, que foi definhando lentamente sem comer, igual ao meu pai.
Passei esses anos das doenças na minha família explorando o campo da ciência – li mais de 80 livros de biologia, medicina, genética, paleontologia, física, etc., participei de vários congressos de saúde, pesquisei inúmeros sites, li artigos, estudos e entrevistei médicos especialistas, buscando conhecimento sobre o que somos nós, seres humanos. Há algum tempo, já vinha me interessando mais por filosofia, mitologia e religião/espiritualidade e, nesse período, intensifiquei meus estudos, encantada com a genialidade de autores como Nietzsche, Spinoza, Joseph Campbell e Santo Agostinho, entre tantos outros.
Assim, foi escrevendo, lendo muito e aprendendo que aceitei o que a vida me impunha. E também recorri à psicoterapia, fisioterapia e exercício físico com personal trainer, que desenvolveu para mim um treino baseado no surf (eu adorava bodyboarding). Fiz tratamentos relaxantes de pele e massagens, cuidei ainda mais da alimentação e intensifiquei o contato com o mar e a natureza. Mas o principal foi poder desfrutar de pequenos prazeres no dia a dia com o meu amado filho – na época, ainda um adolescente e, mesmo assim, super parceiro – e o meu marido, que sempre foi o meu melhor amigo e me apoiou em todos os momentos.
Acho que sempre me ajudou também não perder a consciência de que sou privilegiada, pois há uma legião de mulheres que não dispõe da metade dos recursos de que eu dispunha e enfrenta adversidades ainda mais graves e duradouras do que as que eu enfrentei. Elas merecem todo o respeito. Dediquei o meu livro a essas e a todas as mulheres, na esperança de que as ajudasse a buscar se conhecer melhor e a apostar num estilo de vida que as afaste do risco de sofrer um infarto ou um AVC (Acidente Vascular Cerebral), nossas principais causas de morte.
Por isso, desenvolvi toda a pesquisa sobre estilo de vida, convicta de que doenças resultam de vários fatores associados, quase nunca por causa única. E fiquei ainda mais convicta, ao descobrir que a ciência já passou a apontar os fatores psicossociais como uma área de estudo promissora na prevenção das doenças cardiovasculares. Os riscos psicossociais podem ser diretamente relevantes para o desenvolvimento de DCV, especialmente nas mulheres. Esta é uma nova e importantíssima compreensão em Medicina – não faz muito tempo que a ciência estuda especificamente o sexo feminino – já que as mulheres sofrem mais de depressão, estão expostas a mais riscos de violência, enfrentam maior discriminação de gênero, em geral vivem sobrecarregadas de tarefas, o que se associa à desvantagem biológica devido a particularidades da estrutura anatômica. Sem falar na pressão da sociedade moderna em intensa ebulição e desequilíbrio, o que vem afetando gravemente as vidas tanto de mulheres como de homens – isso prejudica nossa saúde muito mais do que costumamos admitir.
Mas o mais importante de tudo é que temos capacidade para reverter este quadro, usando nossa capacidade feminina de equilibrar razão e emoção também para cuidar da saúde. Precisamos ficar vivas e fortalecidas para continuar na busca de um mundo melhor; essa é a minha compreensão e comprometimento. Talvez por isso eu tenha sentido necessidade de publicar essas últimas colunas, resgatando um pouco do meu livro, que tem 256 páginas, entrevistas exclusivas com cardiologista, neurologista, psiquiatra e ginecologista, entre outros, sendo 40 páginas de referências bibliográficas. Espero ter contribuído de alguma forma.
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Foto de Capa: Arte de Elisa River, com efeito digital.

