Original publicado em 01/08/2025
Há não muito tempo, discutimos aqui acerca da toxicidade psicossocial dessa proposta contemporânea da escuta psicoterapêutica por parte de sistemas informatizados movidos a inteligência artificial generativa – os psicoterapeutas robôs. Voltamos aqui a essa vertente (o tempora, o mores…) do tanto de ameaças (ainda não completamente processadas) que pairam sobre nós outros com a cooptação brutal de corações e mentes propiciada pela mediação do paradigma IA-Generativa em nossas vidas. Dessa vez, trata-se dos escritores robôs. Dois eventos disparadores contribuíram para a presente reflexão: o primeiro, vivência em sala de aula com um dos meus alunos de curso de graduação universitária, a quem havia demandado curto ensaio como peça de avaliação em disciplina do curso, e que me apresentou texto razoável, bem escrito do ponto de vista formal, bem concatenado, no qual pressenti a marca de produção textual oriunda de redator movido a IA-Generativa; o outro evento foi o lançamento do excelente livro de Sérgio Rodrigues – “Escrever é humano – Como dar vida à sua escrita em tempos de robôs” (Companhia das Letras).
No primeiro evento mencionado acima, chamei meu aluno para um tête-à-tête e perguntei, à queima-roupa, informando que aceitaria a resposta dele sem insistir e nem cascavilhar, e portanto pedindo que ele zelasse por nossa relação de confiança mútua, perguntei se aquele texto era efetivamente da lavra dele, aluno, ou se ele tinha recorrido à assistência de sistemas informatizados de geração textual, tipo ChatGPT. Passado o susto inicial (“como o senhor descobriu?”), meu aluno assentiu ter de fato recorrido à plataforma IA de geração de textos (a partir de demanda de mote deflagrador), mas contemporizou dizendo que tinha dado uma “arrumada” e “limpado” o texto… Tivemos uma conversa que me impactou por sua contemporaneidade, envolvendo princípios de gestão de propriedade intelectual de ideias e textos nos dias de hoje e suas decorrências práticas (como o caso específico de avaliação em disciplina acadêmica), e fizemos um acordo que se estendeu a todo o grupo de alunos: os textos oriundos desse sistema gerador de textos não estavam banidos, faziam parte da contemporaneidade e tinham chegado para ficar, porém dois pontos a considerar (ou atualizar…) em nosso contrato didático: a) como o próprio ambiente de IA – Generativa não se dá ao trabalho de mencionar as fontes onde seu motor de buscas atuou para construir o texto solicitado, o(a) aluno(a) deveria mencionar a plataforma de busca utilizada, a pergunta gerativa, a data da demanda e indicação de captura do texto na íntegra ou com alterações; b) a partir do texto “genérico” e “externo” a nosso contexto “doméstico” de discussões, caberia ao (à) aluno(a) buscar ligações, diálogos, problematizações do texto gerado com a experiência por NÓS vivida na disciplina, à qual a plataforma inteligente AINDA não tem acesso… O aluno acatou o adendo de acordo, refez seu texto, produziu documento de qualidade (pelo menos eu o avaliei assim) em função do qual logrou aprovação na disciplina. Paira no ar, de agora em diante, a questão do que efetivamente o aluno elaborou (comparado com outra pessoa dispondo tão somente de uma folha em branco e uma caneta Bic – ou, menos radicalmente, dispondo de uma ferramenta de tratamento de texto convencional (ou “burra”, como passou a ser carinhosamente chamada), e acesso a bancos de dados de produções textuais autorais aos quais recorrer e CITAR… Em outras palavras, passou a pairar em minha consciência crítica de docente-formador-avaliador em que medida a produção textual de meus alunos é efetivamente (suficientemente) deles e delas. Não é uma questão nova, e sim uma questão que ganha novo fôlego.
No segundo evento aludido, o lançamento do livro de Sérgio Rodrigues, fiquei especialmente mobilizado e interessado por dois pontos por ele discutidos: primeiro, um lado absolutamente positivo desta nova era de geração de textos sob demanda a sistemas de IA-Generativa, lado este referente ao fato de que, doravante, só se dará ao trabalho de escrever quem de fato quiser… Para o autor em questão, o ato de escrever representaria um suplício, uma fonte de estresse, uma provação para a MAIORIA da humanidade letrada, às voltas com demandas dessa natureza ao longo da vida pessoal, acadêmica e profissional. Ainda para este autor, a maioria absoluta das pessoas escreve mal, e o problema está piorando. Aquilo que eu gosto de chamar de “carpintaria textual” torna-se algo cada vez mais raro, até porque o letramento, em si e por si, não assegura a capacidade de geração textual minimamente qualificada (mesmo que muitos de nós, que compartilham essa opinião, não saberíamos explicitar em que consiste essa competência complexa de gerar textos de qualidade…). Então, nesse cenário hostil para o texto, reflete Sérgio Rodrigues, aqueles que não dispõem da habilidade de gerar textos aceitáveis não precisariam mais se martirizar e martirizar terceiros com suas estrovengas textuais – terceirizariam essa tarefa para um ChatGPT da vida, e problema resolvido. Usando uma imagem proposta pelo autor, os produtores de texto passariam a se aglomerar numa espécie de aldeota gaulesa, como aquela de Astérix e Obélix (dos quadrinhos geniais de Uderzo e Goscinny), em meio à floresta hostil dos torturadores e exterminadores de textos e de romanos que falam outra língua… Concluindo suas reflexões acerca do que ele, Sérgio Rodrigues, resumiu já no título de seu livro, escrever seria um ato efetivamente humano, pelo menos quando aludimos àquilo que seria efetivamente digno de ser considerado… um texto de qualidade. Isto levaria a uma postura talvez perigosamente restritiva, elitista e démodée: só escreva se efetivamente você quiser, precisar… e puder. Caso contrário, faça seu pedido a uma plataforma de IA-Generativa, copie e cole.
Muitos de nós, aqui mesmo nessa nossa plataforma-aldeota gaulesa Sler, aqui e ali nos colocamos a questão da qualidade textual do que produzimos – e em que medida azucrinamos leitores destinatários. De minha parte, sem pretender ser necessariamente porta-voz, registro que geramos textos escritos porque de fato queremos, talvez até precisemos… E até registramos, agradecidos, o suporte da IA na geração das ilustrações pictórico-fotográficas para cada ensaio produzido… Que essa pequena aldeia gaulesa perdure, “irredutível” como os gauleses dos quadrinhos de Uderzo e Goscinny, mesmo sabendo que, mais dia menos dia, nossos textos findarão nas entranhas de um desses monstros processadores de texto, que os reprocessarão, como carne para salsichas em frigoríficos industriais textuais, e os oferecerão quando alguém pedir algo sobre “uso da IA Generativa para escrever”…

Inteligência Artificial como assistente de escrita:
Criativa como um press-release, eficaz como uma Alexa, honesta como uma traficante de sentidos e significados.

