
Em uma crônica, do Rubem Fonseca, em O Pasquim, ele diz que “as palavras são sinais, e, como todos os sinais, indicam alguma coisa, ao contrário dos símbolos que tomam o lugar da coisa”. Eu, assim sem refletir muito, concordo com essa ideia. Na mesma crônica, ele cita Santo Agostinho, que já pensa de uma forma um pouco diferente e que decidi não trazer para cá. Escrever, entre outras coisas, se trata disso: tomar decisões. E uma que tomei, faz um bocado de tempo, é a de não sofrer por não poder abraçar o mundo. Não que eu o queira menor do que é ou menos do que eu o queria antes. Eu só o quero menos superficial, de um modo que ele me ligue mais à verdade do que a simulacros.
Eu ia escrever de qualquer coisa, mas não, ao simulacro do que nos define como pessoas. Em geral, usamos nossas profissões para dizer quem somos. É muito mais simples e fácil apresentar um currículo do que falar sobre si mesmo. Primeiro, porque a gente pouco se conhece. Segundo, porque boa parte do que a gente, então, conhece, a gente não quer que o outro saiba. E não quer, suponho, em grande parte, por medo e vergonha de ser quem se é, o que, em outras palavras, significa, por falta de confiança, de que iremos, se desprovidos de títulos, ser interessantes e aceitos.
Quando eu era criança, minha mãe andou por um tempo, de um lado para o outro, com um livro que se chamava: Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas e que eu guardei o título como sendo A Arte de Agradar e de Fazer Amigos. Eu, que me lembre, nunca tive esse livro em mãos. Penso que sequer estava alfabetizada na época em que ela o lia. Tive de procurar, na internet, o nome do autor: Dale Carnegie. Mas, sem dúvida, por meio das conversas maternas, assimilei parte de suas estratégias. Desde menina, tenho facilidade para cativar pessoas. Desde menina, gosto do ser humano. Talvez agora um pouco menos. Ou até bastante menos. E por uma razão bem simples: o ser humano está dificílimo de se aturar. Conviver, então, nem se fala. Portanto, tenho praticado quase o contrário. Não sinto mais o mínimo constrangimento de desagradar e de estabelecer limites, de diversas naturezas, para os que precisam.
Eu vivo sozinha com o meu filho e três quadrúpedes. Ao contrário da minha cria, nenhum dos três foi planejado. Por força das circunstâncias e do meu coração empático, eu os adotei. Lila, a mais velha na ordem de adoções, acredito que também cronologicamente, está comigo há seis anos. Durante esse tempo, parece ter dado um salto cognitivo. Os três parecem estar dentro dessa transformação, possivelmente neural, se tornando formas de vida mais sofisticadas do que eram quando chegaram. Nino, o mais novo, filhote recolhido em um estacionamento, apresenta refinada habilidade para o crime. É capaz de tirar o meu pijama debaixo do travesseiro sem mover um centímetro que seja de nada. Não que isso seja uma virtude. No mundo real, ele seria punido por furto. Aliás, esse é um ponto: as pessoas tomam gracinhas por virtudes.
Um dos primeiros livros da minha biblioteca pessoal, ou seja, que eu, por livre e espontânea vontade, comprei é o Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, do André Comte-Sponville. Um livro que não envelhece embora esteja amarelado e manchado. Por incrível que pareça, ele ainda cheira bem. Um dos fatores que me impedem de me tornar uma leitora de livros digitais é que eu preciso do cheiro das páginas para me entender com elas. A essa altura da vida, em que uso óculos para longe e óculos para perto, penso que o olfato é o meu sentido mais desenvolvido. Tenho uma memória boa para cheiros. Dos que gosto, nem se fala. Os cheiros, como sabemos, são determinantes para a sobrevivência de inúmeras espécies animais, incluindo a nossa, que, de certa forma, o despreza.
A nossa espécie, talvez porque o passado, em tempos de internet, se torne passado em mais alta velocidade que em toda a história da civilização e o futuro ainda não seja nada ou só o próximo item a ser esquecido em um átimo, vive um tipo de desaprendizado de valores e de conhecimentos que levou milênios para alcançar, como se a humanidade não implicasse grandes questões. Justiça, por exemplo. Justiça é muito mais que o ordenamento jurídico de uma sociedade.
Segundo Aristóteles, justiça é uma força ou princípio de ação que está em nós, um modo particular de ser e de agir que pode nos levar a viver bem. Ou seja, algo que, antes de se tornar coletivo, nos constitui. Os mais espiritualizados talvez digam que no que diz respeito à nossa alma, os mais racionais, que à nossa mente. O fato é que, independentemente do nome que se dê, a justiça está conectada à essência da pessoa, como as grandes virtudes. A gente pode renunciar às pequenas, suas consequências não são de grande impacto. Mas, às maiores, pode ser literal ou simbolicamente fatal. Simbolicamente falando, muitas coisas podem ser mortas por nós, esmagadas até não restar nada genuíno. Como o quê? Como palavras sinceras. Para dizê-las, sem exceções, a pessoa em questão não pode ser falsa. Pelo menos naquele momento.
Eu conheço gente que está mais para um colar de pérolas falsas do que verdadeiras. Mulheres e homens sintéticos. Pessoas competentes na criação de narrativas em seu favor e habilidosas, como o meu quadrúpede Nino, em pegar e fazer uso do que lhes interessa, principalmente das palavras. A linguagem é uma forma de poder. Não é por nada que estamos no topo de cadeia alimentar, fazendo picadinho ou mesmo extinguindo animais muito mais fortes do que nós e a nós mesmos. Tudo isso à luz do dia ou das muitas lâmpadas que competem com o que era para ser noite e silêncio. O silêncio contém palavras. O silêncio, como elas, é também um sinal que indica algo. Fique atento aos sinais, escutamos por aí. Frase sem dono, mas essencial.
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