A filosofia diz que a Ética é responsável pelos princípios que motivam, disciplinam e orientam o comportamento humano em qualquer realidade social. Refletir sobre normas e valores que conduzem nossas vidas, no meio em que vivemos e nos grupos em que estamos inseridos, é fundamental. Envolve questões voltadas para os direitos humanos, políticas públicas e leis, mas dependem muito da sensibilidade e da consciência crítica de cada um. Até porque raramente são colocadas em prática com a seriedade que o tema pede. Cumprir ordens sem entender a diversidade humana e o cotidiano em que estamos mergulhados não leva a nada. Precisamos deixar nossa zona de conforto para ver o outro. A diferença, seja ela qual for, necessita de olhares capazes de acolher. A sociedade reserva um lugar, às vezes ancorado no preconceito e no capacitismo, para quem não corresponde ao padrão determinado. Muitos sofrem vários tipos de discriminação. Outros se tornam invisíveis.
Ninguém se admira com o apagamento da pessoa com alguma diferença física, intelectual ou mental. Na Idade Média e em outros tempos obscuros, como o período do nazismo na Alemanha, a morte era a sentença para quem não correspondia à “raça pura”. O que ainda reverbera entre nós. Por isso, precisamos fazer essa travessia e entender o que é verdadeiramente uma conduta ética. Precisamos falar sobre as diferenças e o impacto que provocam. Enfrentar o preconceito é não ter medo das palavras. Só a fala, com atitude, tem condições de desacomodar conceitos seculares. É preciso dar voz às pessoas, deixá-las manifestar a curiosidade para entender o porquê do espanto diante de alguém diferente.
Negação e repressão são combustíveis para o preconceito porque reforçam o já instituído.
Minha experiência cotidiana deixa isso muito claro. Essa é a condição em que vivem negros, grupos LGBTQi+, população indígena, ciganos, quilombolas e pessoas com deficiência. Já nascemos marcados, inseridos em um meio incapaz de olhar de outro jeito, falar e acolher. Alguns pregam a necessidade de proteger as crianças de movimentos culturais diversos, mas da fome, da bala perdida, do machismo, do assédio, do estupro, não. Onde fica a ética nessas situações? É urgente buscarmos a cidadania e mudar o olhar para as diferenças!
Precisamos de sujeitos conscientes, comprometidos com a valorização da vida, para desacomodar certezas sacralizadas, porque só a partir da incerteza, da dúvida, do questionamento é que vamos acender nossa consciência social. O que passa pela simplicidade, jamais pelo extraordinário! Passa pelo afeto, pelo acolhimento, pelo diálogo, pela segurança, pela verdade. E pela fala. A instituição dos direitos humanos nos trouxe a ética, o respeito e a solidariedade, valores que precisam ser resgatados cotidianamente. Mas precisamos de muito mais para eliminar o preconceito oriundo de um processo histórico e cultural que criou um modelo padrão, no qual o sujeito se inscreve desde o nascimento. Minha reflexão se faz justamente sobre o lugar desse sujeito discriminado pela sua diferença e pelo comportamento diverso. Como se constitui esse sujeito? Que posição ocupa em relação aos discursos que se fazem sobre ele? Submete-se? Ou resiste, questionando as certezas estabelecidas, desafiando padrões clássicos de beleza, comportamento, talento, tamanho, origem e meio social? Que discussão provoca? Não é possível anular as diferenças porque elas efetivamente existem. Não podemos reduzir as conquistas a dispositivos legais.
Repensar a diferença e não ignorar as dificuldades enfrentadas pelos cidadãos é um dever de cada um de nós, em sintonia com a nossa comunidade. É um dever dos governos e das empresas, que precisam entender os limites de uma pessoa com deficiência, estimular sua inserção no trabalho, orientar, acolher e não apenas jogá-la em uma função para cumprir a lei.
O que desejo é alertar para a necessidade de prestarmos atenção aos efeitos do preconceito que incorporamos e reproduzimos sem nos dar conta, especialmente por meio da linguagem. Portanto, a linguagem tem papel fundamental nessa construção porque traduz o olhar da sociedade. Voluntária ou involuntariamente, a fala revela respeito ou discriminação. As conquistas feitas até agora apontam para a diferença no sentido de não mais ignorar ou mascarar. Mas esta discussão tem que ganhar mais fôlego. De modo geral, as instituições (públicas, privadas ou independentes), incapazes de sair do convencional, se enredam em normas na tentativa de facilitar um cotidiano que desconhecem. Desperdiçam a maravilhosa chance de aprender com uma pessoa diferente, ouvindo dela o que ela precisa. Não podemos contribuir para a criação de estereótipos, nem cair nas artimanhas da superação.
Não é a pessoa com deficiência que deve simplesmente descobrir maneiras de se adaptar. Trata-se de viver com a deficiência do melhor jeito possível. Se prestarmos atenção, a pessoa com deficiência é, em geral, caracterizada por suas fragilidades e não por suas possibilidades e qualidades. Só vamos chegar ao desenvolvimento social que buscamos quando entendermos que cada um tem contribuições a dar, a partir do seu jeito de ser, de ver o mundo, do seu saber e da sua maneira de colaborar para uma vida solidária. Minha luta é por inclusão e acessibilidade. Contra a discriminação, contra a miséria, contra a exploração, contra o abuso de autoridade, contra o trabalho escravo, contra o abuso e o abandono da infância. É importante instigar, fazer pensar, mas evitar o sensacionalismo, que não contribui em nada para causa nenhuma. Precisamos é de civilidade, humanidade e sabedoria ao falar sobre deficiência. Precisamos dar voz às pessoas diferentes sem assoberbá-las, sem exigir que provem o tempo todo que são capazes. A visibilidade e a fala trazem cidadania.
Precisamos entender que não somos ninguém sem o outro. O eu sem o tu não existe.
Mas há uma inegável herança escravocrata correndo pelas nossas veias. Há uma indisfarçável necessidade de súditos e um clamor pela perfeição, alimentada pelo discurso da meritocracia, que não olha para as condições de cada indivíduo na sua caminhada. Diante deste cenário, às vezes o vácuo é tão insondável que parecemos estrangeiros em busca de dignidade em um mundo que insiste em não nos ver. É bom lembrar, então, que temos a Lei Brasileira de Inclusão. Portanto, as pessoas com deficiência têm direito ao que for necessário para a sua plena inserção no mercado de trabalho, no lazer, no transporte, na saúde, na educação.
Refletir sobre as diferenças, sobre acessibilidade, inclusão e diversidade é um caminho que se soma à ética.
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Foto da Capa: Fernando Frazão / Agência Brasil

