No meu tempo de escola, nas aulas de religião, a turma era dividida de acordo com a sua (dos pais) crença e dois grupos eram formados: católicos e evangélicos.
Eu me mantinha sentada na cadeira junto a quase todas as crianças católicas, enquanto a minoria evangélica levantava e se dirigia à outra sala de aula.
Fiz a primeira comunhão, casei na igreja e até frequentei missas na paróquia de Santo Antônio, mas, enquanto meu corpo amadurecia e minha mente expandia, comecei a buscar o meu sentido para a fé.
A frase “não matarás” aparece em dois momentos do Antigo Testamento.
Ela faz parte da Lei dada a Moisés e faz sentido para mim.
Penso que Deus está em tudo que vive e matar ou matar-se é uma forma de afrontar o que nos foi dado com amor.
“Você não pode sentir raiva, tem que perdoar” — ouvi de uma pessoa que segue a doutrina espírita.
Não faz sentido para mim.
Perdoar é uma bela atitude, mas ser impedida de sentir, mesmo que este sentimento não seja moralmente correto, parece censura.
Sou alguém que sente mais do que gostaria, pois sentir muito em um mundo narcísico e cruel gera muito sofrimento.
Algumas vezes sinto raiva.
De injustiças, de pessoas sem empatia, de agressividade no trânsito, de quem não tem filtro, de crueldade e por aí vai.
Sou bicho manso, mas depois de muitas correntes me machucando, aprendi a mostrar os dentes.
Estou longe de ser uma santa e nem quero, mas procuro fazer o bem, inclusive, não faz muito tempo, aprendi a fazer o bem até a mim mesma.
Não odeio nada (exceto carne) nem ninguém.
Agora raiva, mesmo passageira, aquela que não mora no meu coração, não habita a minha mente, só tem um espaço momentâneo no meu ser, aceito.
Os animais usam a raiva para sobreviver, impor limites, se defender, criar hierarquias.
Nas pessoas, depende muito do indivíduo e, desde que ela não evolua para a violência (nenhum sentido para mim), não considero um sentimento tão ruim a ponto de ser tão malvisto.
Existe uma música da antiga banda Erasure (amo) que em um refrão diz o seguinte:
“I love to hate you” — entendo perfeitamente.
Sentir algo que não seja desespero ou dor é melhor do que não sentir nada.
A única raiva que mata é aquela em que um ser microscópico adoece os mamíferos.
Mônica Becker Dahlem é publicitária, jornalista, escritora. Barbara, Frida, Caderno Literário Ajuris, Casos de Sucesso SEBRAE.
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