
A inquietude provoca uma pororoca de sentimentos que, quando combinada com uma pitada de ação, um tanto de indignação e a união de um grupo de mulheres determinadas e obstinadas, impulsiona iniciativas que promovem o empoderamento de pessoas que vivem à margem da sociedade.
Em 2019, os membros do SPIN Capital Humano do POA Inquieta foram apresentados ao lindo trabalho realizado pela Comunidade Terapêutica Casa Marta e Maria com a reabilitação de mulheres em condição de dependência química e alcoolismo.
Foi conexão à primeira vista! As articuladoras SPIN Capital Humano vislumbraram no projeto a oportunidade de criar uma trilha de conhecimento com o propósito de fortalecer a autonomia das internas da Casa Marta e Maria que estavam no processo de alta do programa.
Desta conexão surgiu o projeto “Eu, líder do meu destino”! As inquietas do SPIN Capital Humano desenharam uma trilha de desenvolvimento pessoal que perpassava de forma transversal entre os eixos:
- Autoconhecimento
- Eu com o mercado de trabalho (formal, informal e carreiras).
- Autonomia, segurança
- Marketing pessoal
Cada etapa da trilha foi cuidadosamente planejada para ressignificar o olhar que cada uma das mulheres da Casa Marta e Maria tinha sobre si mesma e sobre o mundo que as aguardava.
Tanto as inquietas no SPIN Capital Humano quanto as Mulheres da Casa Marta e Maria tinham a certeza de que aquele processo seria transformador e sua amplitude era muito maior do que a imaginação de cada uma era capaz de criar.
A cada tarde em que os trabalhos ocorriam, era visível o engajamento e o desenvolvimento das mulheres da Casa Marta e Maria e das inquietas oficineiras. À medida que o trabalho avançava, novas conexões eram tecidas, fortalecendo o núcleo interior de cada participante e permitindo que a transformação pessoal se tornasse perceptível aos olhos de todas.
As inquietas envolvidas no projeto sabiam que cada movimento e cada provocação trazida nos encontros precisava tocar o invisível de cada mulher, para que a transformação fosse além da satisfação momentânea de cada encontro. O verdadeiro objetivo era promover uma mudança profunda: uma força motriz que fizesse emergir uma nova postura diante das dores, dos medos e das fragilidades, abrindo espaço para o esperançar e para a construção de novos caminhos.
Os encontros se desenvolveram ao longo de quatro meses, com encontros quinzenais, com a intensidade e profundidade que somente as mulheres conseguem empreender quando o assunto é mergulhar nas ondas densas e profundas da nossa natureza humana.
Junto às inquietas do SPIN Capital, as mulheres do Marta Maria encontraram o abrigo que precisavam para, sem receios, voltar a planejar o futuro – acreditando que o novo sempre estará lá para acolhê-las.
Como forma de eternizar essa travessia — na qual cada uma das mulheres da Casa Marta e Maria lançou seu olhar e sua força de ação —, o final da trilha foi marcado por uma formatura que simbolizou muito mais do que o encerramento de uma jornada. Representou o fechamento de um profundo processo de imersão, ao mesmo tempo solidário e individual, no “Eu” de cada uma dessas mulheres.
Após a conclusão do programa, as inquietas seguiram atuando como mentoras das mulheres da Casa Marta e Maria. Ao longo desses anos de convivência, acompanharam de perto suas trajetórias. E, como acontece em toda caminhada humana, os caminhos foram diversos: algumas mulheres se fortaleceram a cada dia e redesenharam suas rotas, enquanto outras viram essa travessia se tornar mais distante e acabaram cedendo espaço aos medos do passado.
Nem os êxitos, nem as recaídas são capazes de dimensionar plenamente o que as mulheres da Casa Marta e Maria viveram, junto às inquietas do SPIN Capital Humano, naqueles encontros. O que permanece como certeza é que, quando o propósito é forte, tanto as alegrias quanto as dores do crescimento têm o poder de nos forjar maiores do que já fomos.
Por fim, permanecem as memórias do convívio com mulheres inquietas e incríveis que, ao unirem suas intenções, foram capazes de recriar a vida a partir de novos talentos e perspectivas — exatamente onde muitos enxergavam apenas limitações. Assim, redesenharam novos destinos, pois somente quem empresta a alma é capaz de ver o novo onde tantos preferem enxergar apenas o que lhes convém.
Em um mundo em que o fútil muitas vezes passa a ocupar o lugar do essencial e as potencialidades humanas parecem se enfraquecer diante do constante farfalhar de um retrocesso social que insiste em flertar com a modernidade do pós-mundo digital, é um privilégio poder recordar algo tão silencioso e, ao mesmo tempo, tão grandioso. Que possamos cada vez mais explorar nossas inquietudes para prosseguir transformando as vidas de Martas, Marias, Joanas…
Glória Yacoub é economista, professora universitária, articuladora do SPIN Capital Humano do POA Inquieta.
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Foto da Capa: Associação Casa de Marta e Maria / Divulgação

