Dando uma ajeitada numa das estantes de livros, reencontrei Patativa do Assaré e uma das obras dele, organizada e prefaciada por Tadeu Feitosa, ilustrada por lindas fotos de Robson Melo e lançada em 2001. O título do livro é esse que eu uso aí em cima.
Nascido em Assaré, em 1909, Antônio Gonçalves da Silva, poeta desde sempre (aos 12 anos já fazia repentes nas feiras do sertão cearense), ganhou o apelido por seu canto, tão forte e melodioso quanto o do passarinho. Patativa morreu em 2002, deixando vasta e qualificada poesia.
O poema, do qual tomei o título para este texto, cabe bem nestes tempos que antecedem a nossa escolha de um novo presidente ou de reeleição. Compostos lá no século passado, quando o Brasil ainda cantava contra a ditadura e a favor de eleições diretas, os versos do poeta traçam o perfil do líder sonhado pela nação.
É meio comprido, o poema – não tão comprido quanto a nossa eterna esperança – mas vale a pena.
Aí vai Patativa do Assaré em Quero e todos querem:
Quero um chefe brasileiro
Fiel, firme e justiceiro
Capaz de nos proteger
Que do campo até à rua
O povo todo possua
O direito de viver
Quero paz e liberdade
Sossego e fraternidade
Na nossa pátria natal
Desde a cidade ao deserto
Quero o operário liberto
Da exploração patronal
Quero ver do Sul ao Norte
O nosso caboclo forte
Trocar a casa de palha
Por confortável guarida
Quero a terra dividida
Para quem nela trabalha
Eu quero o agregado isento
Do terrível sofrimento
Do maldito cativeiro
Quero ver o meu país
Rico, ditoso e feliz
Livre do jugo estrangeiro
A bem do nosso progresso
Quero o apoio do Congresso
Sobre uma reforma agrária
Que venha por sua vez
Libertar o camponês
Da situação precária
Finalmente, meus senhores,
Quero ouvir entre os primores
Debaixo do céu de anil
As mais sonoras notas
Dos cantos dos patriotas
Cantando a paz do Brasil
É lindo, não? Lindo e atual. E será sempre. O povo e a esperança não vão acabar nunca, apesar dos vorcaros que sempre andarão por aí e dos políticos baratos para os vorcaros e caros para nós, que lhes pagamos os salários.
Todos os textos de Fernando Guedes estão AQUI.
Foto da Capa: Patativa do Assaré / Governo do Ceará

