Essa semana faleceu o incrível compositor e artista Hermeto Paschoal, aos 89 anos de idade. Confesso que sabia de sua existência, obviamente, mas nunca procurei conhecê-lo e sua obra em profundidade. Agora, após sua morte, inúmeros vídeos sobre ele apareceram nas redes sociais mostrando sua incrível originalidade e talento na música, fazendo música de e em qualquer meio, na água, com uma folha de árvore, etc. Também ficou evidente nos vídeos o seu prestígio e reconhecimento vindo de grandes mestres da música internacional. Mas esse texto não é exatamente sobre ele já que eu nem seria a melhor pessoa para falar sobre ele devido a minha assumida ignorância sobre sua obra ao longo de sua vida.
Esse texto é sobre um dos vídeos com entrevistas dele que chegou a mim pelas redes sociais. Nesse vídeo, muito breve, ele começa a falar sobre si próprio com a frase título dessa crônica. Eu sei me usar. Ele fala sobre algo que há tempos e toda a semana eu falo em aula sobre conhecer-se e fazer uso do próprio corpo em integração com quem se é psicologicamente. Ele segue – eu amei essa ideia – dizendo: “Eu chamo esse corpo de carro, chamo de barco porque eu estou aqui montado nele”. Pensar em si próprio como um veículo que nos carrega, nos move. É tão simples e tão bonito pensar dessa forma, apesar do cuidado que é preciso ter de, em função dessa imagem, pensar que somos os donos desse veículo quando na verdade estamos dentro dele e à sua mercê também. Certamente temos grande influência com a maneira pela qual fazemos a manutenção dele: se revisamos o casco, se lavamos, calibramos pneus, se usamos bom combustível. Mas, ainda assim, existe algo de imprevisível em ter-se um corpo, mesmo que o verbo não seja talvez o mais apropriado. Quiçá toma-se um corpo, compõe-se um corpo que nos é oferecido e delimitado por outrem. Mas pensar em aproveitar essa viagem, seja de carro, barco ou avião, me parece importante e parece que Hermeto Paschoal soube usar bem o seu veículo.
Ele segue falando sobre sua religião, a música, e afirma: “Aquela força que a gente tem, uma força interior que a gente não pode perder, mas se a gente correr atrás dela para procurar, é preciso tomar cuidado para não empurrar ela para trás. Você tem que deixar fluir”. Que bonita essa ideia como aquela de correr atrás das borboletas (da qual já estou cansada, inclusive) de que tem coisas que quanto mais perseguimos, mais se afastam. Talvez seja verdade, embora nossa era competitiva e produtivista nos faça acreditar no contrário, de que basta acreditar e correr atrás dos sonhos que eles vêm. Creio que o que ele fala aqui não são metas concretas, objetivas ou conquistas materiais. Essa força é de outra ordem, de uma capacidade interna para poder saber se usar, como ele falou no início. Ser capaz de apostar na própria carcaça, saber que ela suporta as viagens, que na maioria das vezes tem como destino mais importante o lado de dentro.
Para concluir essa minha singela homenagem a esse artista que tão mal eu conheci, essa frase extraída da mesma entrevista, que para mim resume tudo. Resume corpo, resume sonho, resume saber-se (e isso não é pouco, é tarefa de uma vida):
“Na minha vida é sempre sentir primeiro mesmo, para quando souber, souber, com muita convicção”. Estou contigo, Hermeto. Que seja sentir primeiro nosso objetivo e aprendizado último. A convicção só vem depois, com o tempo, mesmo que tanta gente pense o contrário. Desculpe demorar demais a te exaltar e que descanses não apenas em paz, mas em música, tua religião, tua deusa.
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Foto: Agência Brasil

