Imagine essa conversa, na mesa do cafezinho ou no intervalo do almoço, entre duas pessoas da área executiva da empresa:
— Tudo certo para o nosso evento? Vi que o Conselho de Administração aprovou hoje, pela manhã.
— Sim, já estamos mobilizando todas as áreas envolvidas.
— Certo. E o Setor de Compras? Já temos os fornecedores necessários?
— Sim, temos um cadastro atualizado com os mais confiáveis e pontuais. Estão conosco há anos.
— Posso dar uma olhada?
— Claro!
— Puxa… só vejo empresas de médio e grande porte. São todas ótimas, mas você já viu que ações de responsabilidade social elas promovem? Elas entendem a proposta de valor da nossa empresa?
— Olha, acho que sim. Mas sabe, né? Na hora da correria, temos que ir a quem responde rápido e com eficiência.
— Concordo. Mas o que você acha de ampliar esse cadastro, buscando novos fornecedores para nossa cadeia de serviços e suprimentos? Nossa empresa já aderiu a práticas de sustentabilidade ambiental, o RH atrai e contrata talentos diversos e a política de compliance está bem estruturada. Acho que agora é hora de mobilizar quem está com a gente ou quem quer se tornar nosso parceiro.
— Bah, mas isso dá uma trabalheira…
— Eu sei, mas a gente tem que começar, né? Vamos fazer isso juntos. Vou separar uma lista de empresas lideradas por mulheres, coletivos e cooperativas que eu conheço. Eles têm propósito bem definido, entregas de qualidade e que conversem com os valores da nossa empresa. Pode ser?
— Bom, desse jeito fica mais fácil. Vamos fazer assim: enquanto você levanta os dados dos fornecedores, eu vou chamar uma reunião com a Gerência de Compras.
— Perfeito!
Esse bate-papo, embora fictício, acontece diariamente em diversas empresas. Quando é levado adiante, pode mudar a história de milhares de micro e pequenos empreendimentos ao tomar decisões que olhem para o impacto social e econômico gerado pela contratação de produtos e serviços de empresas “não tradicionais”. Às vezes, organizações de médio e grande porte criam barreiras internas que impedem a aproximação de fornecedores inovadores e de portes menores. Um exemplo real é optar por não contratar serviços de microempreendedores individuais.
Sabe quantos MEIs existem em 2025 no Brasil? Mais de 11 milhões, conforme o Sebrae. Somente este ano, cerca de 1 milhão de pessoas optaram pela formalização. O Setor de Serviços lidera, com mais de 60% dos cadastros.
Para a conversa de lideranças empresariais ou de agentes do poder público não ser apenas ficção, é fundamental que áreas ligadas à contratação de produtos e serviços tenham um cadastro de fornecedores diversos, como forma de movimentar a economia. E como achar esses negócios?
A construção desse repertório acontece com participação em exposições, summits, espaços de conexão, coletivos e entidades, como a Odabá – Associação de Afroempreendedorismo, que agrega especialistas em áreas como gastronomia e eventos, moda e beleza, comunicação e marketing, consultorias, entre outros. É nesses espaços que os micro e pequenos empreendedores, aqueles que geram emprego e renda e transformam a realidade de suas comunidades, estão presentes. Ter referenciais de base comunitária contribui fortemente para a formação de parcerias.
Quando há informação e intenção de estabelecer novas conexões, construímos consciência e promovemos a transformação. Inclusão social, diversidade, equidade e inclusão vão muito além de apoiar uma entidade social. Significa ver a potência da entrega e do profissionalismo desses players que movimentam o mercado consumidor.
Aí você pensa: Ok, mas é possível, por exemplo, fazer um evento contratando apenas MEIs e microempresas?
Provavelmente, não. Mas é aí que entra a inteligência de mercado. Saber buscar nos lugares certos as soluções do tamanho que a empresa necessita. Quem servirá o buffet na recepção aos convidados? Quem fornece os serviços de estética? Quais profissionais de comunicação darão visibilidade à sua marca?
Existe uma rede de empreendedores ao nosso redor, na qual não há herdeiros conduzindo. Na verdade, são mães, avós ou pessoas com deficiências totalmente capazes e preparadas para oferecer qualidade e pontualidade. O que é produzido por esses fornecedores muitas vezes adota práticas sustentáveis, envolve produtos orgânicos, promove a equidade e reduz a desigualdade de gênero. Tudo isso faz parte dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU (ODS).
Sua empresa já inclui os ODS em suas práticas? Já tentou aplicá-los aos parceiros comerciais?
A Odabá tem entre seus parceiros de atuação para geração de valor e transformação social empresas como a Área 51. No último sábado, 18 de outubro, ela organizou, com o patrocínio do Grupo Carrefour Brasil, a segunda edição do evento Perifa 7. O torneio de futebol, ocorrido no Bairro Navegantes, em Porto Alegre, reuniu 16 times formados por colaboradores e moradores das comunidades próximas às unidades do grupo. Foram 160 jogadores inscritos e cerca de 500 pessoas envolvidas em uma ação que integrou lazer, prática esportiva e convivência comunitária.
Empreendimentos de grande porte, nacionais ou internacionais, atentos às necessidades e realidades sociais e em busca de aprimoramento constante, podem ser vetores de mudança quando buscam parcerias qualificadas e atentas à potência da economia que promove novos empreendedores, à diversidade de oportunidades e impactos socioeconômicos reais. A Odabá está sempre pronta para novas conexões que fortaleçam o afroempreendedorismo.
Kênia Aquino é comissária de voos internacionais e instrutora em rota. Graduada em Comércio Exterior e pós-graduanda em Direitos Humanos, Responsabilidade Social e Cidadania Global. Atual presidente da Odabá - Associação de Afroempreendedorismo. Membro do Conselho Municipal do Povo Negro de Porto Alegre (Cnegro). Cofundadora e produtora na Malê Afroproduções e do evento CinePretoPoa. Cofundadora do Quilombo Aéreo e do projeto ‘Pretos que Voam’.
Eduardo Borba é jornalista e integrante de ações para promover a educação, diversidade, equidade e inclusão, como a Odabá - Associação de Afroempreendedorismo e a Comissão Antirracista do Colégio João XXIII. Autor de livros no campo da educação e de artigos voltados ao afroempreendedorismo. Mestre em Comunicação Social, é especialista em Direitos Humanos, Responsabilidade Social e Cidadania Global.
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Fotos da Capa: Freepik

