É o que diz um rio, na voz da poeta Scheilla Lobato, constrangido pelos dissabores que causa à população ribeirinha quando chuvas fortes o tornam um valentão desajeitado que vai levando tudo de roldão. O poema emociona porque traz uma verdade obliterada: é da natureza das águas correrem para lagos ou mares. Já devíamos ter aprendido isso. O problema não está no rio, mas em nós, que não aprendemos a conviver com ele.
Terras baixas (assim como encostas perigosas) foram ocupadas desde sempre no Brasil. Foi o que aconteceu em Porto Alegre e na região à sua volta. Os que tinham recursos fizeram aterros, os que não tinham, e por isso mesmo, enfrentaram riscos. Não tinham outra alternativa. Em qualquer dos casos a área que o lago Guaíba precisa ocupar em dias de chuvas intensas estava sendo invadida. Os egípcios sabiam tirar proveito das cheias de seu rio, nós não.
Quem comparar o mapa de Porto Alegre de 1840 com o atual vai ver uma combinação dessas duas coisas: expansão urbana em direção às terras baixas alagáveis e aterros sobre o lago. As vizinhas Eldorado e Canoas, entre outras da região metropolitana de 4,3 milhões de habitantes, têm a maior parte de seu território em uma cota muito baixa e plana. Acompanhei muitos projetos de pavimentação de ruas onde a maior dor de cabeça dos projetistas era conseguir uma declividade mínima para o escoamento das águas. Deveria ter urbanização ali?
Pergunta inútil. O fato é que a convivência com as enchentes passou a ser regra das comunidades pobres. Em Porto Alegre, a Ilhota, por exemplo, só era ilha em tempos de cheia. Dá para perceber, pelo nome, que isso era uma rotina. A Ilha da Pintada e outras ilhas que não deveriam ser habitadas, assim como muitos bairros desfavorecidos, seguem nesse diapasão até hoje.
Em 1941 aconteceu o fato mais marcante até então das águas pedindo passagem: a grande enchente atingiu o centro da cidade. Como seu leito estava ocupado, não havia outra alternativa para o Guaíba senão transbordar e ocupar o chão que sempre foi seu. A cheia chegou na rua principal, a dos Andradas, mais conhecida como Da Praia – o apelido diz tudo. O susto foi grande, o prejuízo ainda maior. O coração da cidade foi gravemente ferido, era preciso fazer alguma coisa.
E foi feita. Começou ali o Plano de Proteção Contra Cheias elaborado e executado pelo extinto DNOS – Departamento Nacional de Obras de Saneamento (dou o nome por extenso para mostrar a importância que o saneamento já teve para o país). O projeto era ambicioso e bilionário. Levou décadas para ser concluído porque, ao contrário do que o bom senso indicaria, começou por aterrar mais e mais o Guaíba antes de levantar os diques de proteção.
A ideia, desconfio, era ressarcir parte dos investimentos com a venda de terrenos. O Shopping Praia de Belas e aquele bairro atrás do edifício sede do Instituto de Previdência do Estado, o IPE, são exemplos dessa lógica. Por sorte, a história deu outras voltas e o que era para se tornar bairros virou parques: o da Harmonia e Marinha do Brasil (ver Salvados).
O sistema de proteção só não ficou invisível na mente dos porto-alegrenses por causa do Muro da Mauá. Já para os responsáveis pela sua manutenção ele sempre foi bem concreto. Exigia manutenção periódica, muitas vezes com custos elevados em honorários para mergulhadores repararem as comportas submersas das casas de bombas, por exemplo.
Em princípio, tudo resolvido. A cidade entrava em acordo com o Guaíba. Em vez de se expandir na horizontal, ele ganharia altura. Até a cota de 6 metros o sistema dava proteção. Só que por décadas nada aconteceu. As cheias quando aconteciam mal e mal chegavam na cota de 3 metros, na aresta do cais. Não demorou muito para o Muro cair em descrédito popular, como contei em Caos Mauá, mas não no técnico-científico.
“O sistema de proteção falhou porque não teve manutenção. Se tivesse funcionado, poderia haver pequenos alagamentos, de menor proporção, mas não teria a inundação da cidade”, disse o ex-diretor do DEP (extinto em 2019) em entrevista à Matinal.
A partir de 2018, os governos Marchezan e Melo, dentro de uma política de Estado Mínimo, passaram a eliminar tarefas administrativas básicas, muitas vezes como preparação para a transferência de responsabilidades para a iniciativa privada. Tão mínimo que deixou de cuidar do essencial.
A tragédia que estamos passando deveria resultar no aperfeiçoamento do que já temos e na garantia de sua manutenção. É assustador saber que está em marcha um projeto de substituição do Muro por sistemas de alta tecnologia, móveis, que exigem equipes de montagem especializadas. Fico só pensando em onde vão guardar esse material (são 3 quilômetros de painéis ou o que seja) e quem vão ser esses profissionais que vão montar essa estrutura quilométrica em 24h. E tudo isso nas mãos de uma empresa privada. Com o que vivemos na última semana, dá para acreditar?
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