Acho melhor avisar. Trata-se de uma conversa de um grupo de WhatsApp – de uma instituição, não propriamente de um condomínio, colegas de turma ou família. Todos têm formação superior e, na maior parte das vezes, referem-se uns aos outros por termos formais, tais como distinto, estimado, preclaro. Em muito se assemelha ao que se preconiza, por exemplo, em câmaras e assembleias legislativas. Declaro, antes que me considerem um traidor, que não estou no grupo, relato aqui que quem me contou tudo isso foi a Tia Critídia Lucila, que participa do grupo, uma espécie de confraria e que já cansou de se manifestar, mais por cansaço do que temer represálias.
Para quem preferir não continuar a leitura, sinta-se à vontade. Acredito que a maioria faça parte de algum desses. O que segue não é muito diferente do que têm sido os diálogos por esses canais de comunicação(?). É um assunto datado, dos primeiros dias de fevereiro do ano da graça de 2026.
Alguém comentou que o Ministério Público Militar havia protocolado no Superior Tribunal Militar pedidos para expulsar o ex-presidente e quatro oficiais de alta patente das Forças Armadas. – Mas, por que vir com esse assunto? – retrucou outro. – Já não está combinado que não serão admitidos temas de conteúdo político em nosso grupo?
Bem, não será preciso reproduzir todos os comentários, réplicas e tréplicas daí decorrentes – todas, diga-se de passagem, seguindo as respeitosas normas vigentes. Ou quase.
Segundo Tia Critídia, um indivíduo bastante popular, com parentes no interior do estado de São Paulo, tentou salvar a situação. Contou que morrera um hipopótamo de nome Juninho, de 50 anos, morador antigo do Parque Ecológico Mourão e conhecido por gerações em Leme e imediações.
Enquanto alguém pediu que confirmasse o nome do parque, ele seguiu dizendo que fora por causas naturais e que vinha apresentando um quadro de debilidade nos últimos dias. – Eu li sobre isso – interveio um terceiro – Ele pesava 1,5 tonelada e chegou a receber 750 comprimidos em cinco dias!
Antes que alguém alimentasse a provocação de quem havia custeado o tratamento, se fora o SUS ou a Lei Rouanet, Sicrano questionou se não teria alguma relação com outro fato: um morador de Piracicaba, a apenas 78 km de Leme, havia jurado ter visto um hipopótamo no final de janeiro. Foi bastante preciso: – Circulando no rio, nas proximidades do Véu da Noiva, na região do Mirante.
– Impossível! Vai ver que viu uma alma penada premonitória – agora um Beltrano, não poupou nem o “kkk”.
Mas, como é de praxe e bom tom, muitos contemporizaram e surgiram considerações e explicações que passaram por teorias psicológicas, vivências traumáticas, da neurociência a fenômenos espirituais.
O administrador do grupo já estava até se sentindo mais tranquilo, parecia que a coisa toda ia evoluir para amenidades, quando mais alguém questionou se não poderia ser um daqueles “hipopótamos colombianos”, herdeiros das loucuras do Pablo Escobar, talvez um pretexto para envolver o país na justificativa de uma invasão libertadora.
A essa altura, foi lembrado que o Wagner Moura havia interpretado o narcotraficante numa série e isso só poderia ser campanha do cinema nacional, exaltação exagerada ao Agente Secreto, coisas desse tal de Kleber Mendonça Filho…
Voltaram a falar em Lei Rouanet e foi aí que a Tia Critídia largou o celular e foi dar água à calopsita. Ah, Eudora, é o nome da calopsita.
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Foto da Capa; Gerada por IA.

