A espécie humana sempre desejou entender a si mesma e ao mundo que habita. Em “Nexus: uma breve história das redes de informação, da Idade da Pedra à inteligência artificial”, Yuval Noah Harari argumenta que o diferencial do Homo sapiens em relação a outras espécies humanas foi a capacidade de conceber ficções — não mentiras deliberadas, mas ideias que existiam apenas em nossas mentes. O que transforma essas narrativas em “verdades” são as redes de informação: quanto mais difundida e acessível for uma ideia, mais sólida ela se torna. É mais fácil conectar pessoas com ficções e fantasias do que com verdades.
Harari distingue três categorias de “verdade”. A objetiva, que está fora do indivíduo — uma cadeira de balanço é cadeira de balanço para qualquer um. A subjetiva, por sua vez, refere-se ao vínculo emocional de cada pessoa com o objeto — talvez seja a cadeira em que alguém brincava na infância e que, por isso, lhe traz lembranças especiais. Já a intersubjetiva nasce quando um grupo compartilha significados: aquela mesma cadeira pode unificar irmãos, se era o lugar onde a mãe contava histórias, e assim todos guardam memórias comuns. É o caso do dinheiro, mero papel que adquire valor porque um coletivo assim o decide. Somente nós, humanos, criamos e propagamos esse tipo de verdades — primeiro foi por voz, depois pela escrita, rádio, TV e, hoje, pela internet.
Outro ponto que Harari ressalta é a “visão ingênua da informação”: acreditamos que, quanto mais informações dispomos, mais próximos ficamos da verdade, da sabedoria e do poder. Sob essa ótica, alguém racista seria “mal-informado” sobre biologia e história. Mas, embora em áreas como a medicina mais informação seja crucial, em muitas outras, como demonstram as redes digitais, o excesso de informação (às vezes falsas ou distorcidas) não nos leva à verdade.
Há ainda a “visão populista da informação”, que nega verdades objetivas (a Terra é redonda) e defende que cada pessoa tem a sua própria verdade. Um exemplo disso foi o episódio da posse do Trump em 2017, em que ele disse ter tido maior público do que na posse de Obama. A mídia mostrou fotos e comprovações sobre o número de pessoas que usaram o metrô naquele dia. Apesar disso, a Casa Branca defendeu a tese de “fatos alternativos” para contestar. Ou seja, vocês fiquem com a verdade de vocês e nós com a nossa. Para o populismo, a veracidade do conteúdo não importa tanto quanto seu impacto político: manipula-se a opinião, e quanto mais uma mentira circula, “mais verdadeira” ela parece. Embora se incentive “pesquisar por conta própria”, isso não equivale a método científico; para assuntos complexos, é mais sábio recorrer a fontes reputadas — universidades, especialistas, veículos reconhecidos.
Como, então, reconhecer o que é verdade? Harari propõe o equilíbrio entre “ordem” e “liberdade”. A ordem se apoia na imutabilidade da informação — pense num texto sagrado que não se altera, apenas se interpreta. A ciência, em contraste, é uma rede de autocorreção: o que hoje consideramos fato pode mudar amanhã (o ovo, por exemplo, já foi tido como prejudicial e hoje é elogiado pela nutrição). Essa flexibilidade traz inquietação, por isso é necessário um meio-termo: ser moderado e criterioso, perguntando não apenas “será verdade?”, mas “a quem interessa tal narrativa?”
Vivemos um grande paradoxo, de um lado temos tanta tecnologia de boa informação, do outro, as pessoas não conseguem mais conversar. O debate público está entrando em colapso. As pessoas não concordam em nada, não confiam umas nas outras e não se escutam. Se não confiamos em ninguém, a democracia entra em colapso. Por que não pensar que, assim como eu quero buscar a verdade e não desejo manipular os outros, muitas outras pessoas também querem o mesmo?
Por fim, Harari aborda a inteligência artificial (IA) — a primeira tecnologia capaz de gerar ideias e tomar decisões autonomamente. Há quem questione que a IA não é inteligente e nem artificial, mas, diferentemente das ferramentas do passado, ela é capaz de criar coisas, no sentido de gerar combinações de palavras, pixels ou notas musicais que não existiam antes. Gramofones não eram capazes de compor sinfonias. Facas e bombas não decidiam quem matar. Já a IA pode substituir pessoas em processos decisórios. É, portanto, um agente, não apenas uma ferramenta.
Embora Harari tenha conquistado fama mundial, também enfrenta críticas por suposta superficialidade ou tom apocalíptico. Mesmo sem aderirmos a todas as suas teses, seus livros oferecem reflexões valiosas e merecem ser lidos.
Referências:
- Conversa Com Bial - Yuval Harari fala sobre lançamento de Nexus e inteligência artificial!
- Nexus de Yuval Noah Harari
- Boa Noite Internet: Nexus: Uma breve história das redes de informação, da Idade da Pedra à inteligência artificial, de Yuval Noah Harari.
Todos os textos de Luis Felipe Nascimento estão AQUI.
Foto da Capa: Reprodução do Youtube

