Todo ano a mesma coisa. O final dele, principalmente. Convites à revisão de conquistas e resoluções cumpridas, além do apelo emocional às festas de final de ano e a um sentimento de demanda de gratidão compulsória à vida e aos amores e desamores, mesmo que os últimos nunca apareçam muito, especialmente nessa época. Tudo é gratidão, conquistas e recomeço. Sempre a mesma fórmula. E textos que falando sobre isso, também.
Eu nunca fui afeita às festas de final de ano. Por não ser de família católica, o Natal nunca representou um significado maior e o ano novo sempre foi especial muito mais pela praia que eu frequentava do que pelo seu simbolismo ou até mesmo pela reunião familiar. Desde adolescente já me incomoda essa urgência pelo final de ano e o apelo comercial que ele ativa. A cada ano, panetones e árvores natalinas dão as caras mais cedo em lojas, supermercados e nas propagandas. Não basta a demanda de amor familiar mesmo que em famílias desagregadas e emocionalmente distantes, temos o pacote da revisão do ano que nem terminou. Metas cumpridas, sonhos alcançados, a agenda do próximo ano já comprada em outubro com compromissos já assumidos antes mesmo do feriado de finados. Esse, por sinal, poucos param para pensar sobre.
Por que ainda precisamos de prazos e ciclos para alinhar nossas vidas? Por que precisamos tantos desses marcadores para driblarmos nossa finitude e nossa incapacidade de lidar com as perdas? Ou, sendo um pouco menos pessimista, por qual razão precisamos acreditar que é possível zerar os marcadores e termos novas chances de conseguirmos o que desejamos? Por que diabos somos incansáveis seres desejantes que precisam sempre de um desejo um pouquinho inalcançável para seguirmos caminhando?
Eu aqui, sentada num café num tempo avesso ao meu, num raro turno de “descanso” em plena segunda-feira, pego-me pensando nesses rituais de final de ano e seus costumes que poderiam ser considerados ultrapassados, não fosse nossa necessidade por tradições que nos ofereçam um pouco de base e previsibilidade em um mundo em constante pressa e demanda de uma transformação que ninguém na verdade sabe muito bem qual é. Fato é que poucos tem a coragem de se transformar por dentro. Não estou falando em desejar se transformar pois isso acredito que a maioria deseje. Estou falando em lutar para isso, incomodar-se com isso, desalojar-se para isso.
Fosse eu falar de desejos para você nesse final de ano, pediria que abandone suas hipocrisias, moralismos que ainda podem morar em você. Aconselharia você a duvidar muito mais de si próprio, a rever suas escolhas como produtos de si próprio e não como acasos do destino. Rogaria que usasse seu dinheiro para fazer psicoterapia ao invés de trocar de carro, que ensinasse seu filho sobre o machismo, que acreditasse no aquecimento global, que usasse menos água no banho. Desejaria que não no próximo ano, mas desde já, você tenha a coragem de abandonar projetos nos quais não acredita mais ou simplesmente não lhe trazem satisfação. Por falar nisso, também lembraria você que não existe satisfação garantida e nem permanente. Desejaria que você tivesse coragem de abraçar sua tristeza, que a conheça bem no próximo ano, entenda que se tudo der certo você vai envelhecer com ela ainda que ela vá se transformando sempre em outra coisa, enroscada em alegrias.
O ano ainda não acabou, ainda tenho algumas quartas feiras por aqui, ainda que o cansaço dessa época me faça sentir que os temas para falar estejam se esgotando ou que eu me sinta sempre falando sobre as mesmas coisas de jeitos diferentes. Que novembro acabe bem por aí, que você não caia na armadilha dessa urgência e angústia pré-natal. Viver é um parto constante e ainda assim somos sempre prematuros.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

