Fome de Viver é o nome de um filme do Tony Scott, irmão do famosíssimo Ridley, que, de tempos em tempos, revejo. Nele, uma sofisticada vampira, interpretada pela Catherine Deneuve, e seu apetitoso amante, interpretado pelo David Bowie, vivem se alimentando do sangue daqueles que, sem vampirismo, também preferem a noite ao dia, e da gana milenar que sentem um pelo outro e do amor, porque, às vezes, as coisas se confundem. Pode ser precipitado afirmar que eles se amam. Ou equivocado. Miriam, a personagem de Deneuve, lá pelas tantas, como qualquer mortal, se distancia do ser que tanto lhe inspirou, revelando tanto a instabilidade quanto a contingência daquilo que temos como certo. Take for granted, como dizem os falantes da língua inglesa.
Não são poucas as pessoas que, acreditando-se inatingíveis e estimadas, passam a desvalorizar ou a se descuidar daquilo ou de quem é importante para elas. Os porquês, embora eu tenha uma natureza zelosa, não me cabem explicar. Já tive mais, reconheço. Com a passagem dos anos, tendo-a oferecido à gente que não a merecia, passei a ser mais econômica e a aceitar o fato de que o zelo deve ser condicional e, se não retribuído, retirado. Por uma série de razões, sendo a principal a de que meu apetite se nega a passar qualquer tipo de privação, recolho minha boa vontade e passo para outra freguesia quando necessário. Sou uma mulher magra, mas não sou uma mulher desnutrida. Cuido, e bastante, do que sustenta a minha mente e o meu corpo.
A frase latina ‘mens sana in corpore sano’ me representa. Fui educada para ter saúde, o que significa entender que ela, em boa parte, depende do meu empenho cotidiano. Portanto, ainda que eu consuma, por exemplo, bebidas alcoólicas, não exagero. Tampouco tomo refrigerantes e como produtos processados e potencialmente intoxicantes. Tento, dentro dessa segunda versão de tempos modernos em que vivemos, ter uma alimentação parecida com a que tive quando menina no interior. Não é simples. Nos supermercados, os produtos cheios de aditivos químicos e com altos teores de açúcar, de gorduras e de sódio dominam as prateleiras. Mas não me rendo e procuro por produtos naturais. Os integrais, da Shambala, ricos em fibras, sem aromas artificiais e sem tudo o que faz mal, têm sido a minha escolha. Passei a comer o Mix de Nuts quase como quem come pipoca no cinema. E falo quase porque não dou conta da quantidade assustadora com que ela agora é vendida, coisa que me embrulha o estômago. No meu ranking de pecados capitais, penso que a gula ocupa o último lugar. No primeiro, tenho certeza, está a luxúria.
E a luxúria não é em si mesma também uma espécie de fome, um desejo ou um vício, em geral, sexual, intenso e descontrolado que vai além do necessário? Em favor da libido que a move, contra a qual não posso e nem quero fazer nada, digo, poeticamente falando, que a luxúria, além de contribuir para a saúde cardiovascular e regular o nosso sistema imunológico, entre outros benefícios orgânicos, reduz o estresse, melhora o humor e acarinha a pele e a autoestima. Claro que, para a luxúria acontecer, precisamos de parceria. Melhor dizendo, de alguém com imaginação e demandas sexuais compatíveis com as nossas e com a Teoria da Relatividade. Sim, com ela mesma. Nada, em se tratando de seres humanos, é pleno. A exceção é a morte, a qual não vem ao caso, ainda mais porque, enquanto escrevo, lateja a minha pulsão de vida.
Eu pouco sei sobre a Teoria da Relatividade. O mais importante compreendo: o tempo e o espaço não são absolutos e vivem interligados em um único e deformável tecido, mais ou menos como a existência que nos une e impacta a nossa subjetividade e a nossa matéria. O russo Viktor Chklóvski, em seu romance epistolar Zoo, ou Cartas Não de Amor, livro que recomendo com todas as estrelinhas, escreve muitas à mulher que o rejeita, devorando-a em um sistema íntimo de elaboração da frustração que sente. Em uma das minhas cartas favoritas, enciumado por ela alimentar o seu interesse por outro homem, Chklóvski diz:
“Pode acaso um homem se fazer exótico usando argolas nas orelhas?
Com certeza, mas só num baile à fantasia.
Calças de janota, mas largas demais para um homem que se preze. E na rua – um chapéu de castor.
Mas você corre para cima e para baixo atrás dele!
O que fazer, Ália? Com você aprendo o princípio da relatividade”.
Não sei o que Ália responderia a ele e o que eu responderia se estivesse em seu lugar. Na verdade, de ambos. Sei que a ideia de aprendermos uns com os outros e não negarmos as perspectivas alheias me agrada. Querendo ou não, achando cafona ou não, justa ou injusta, a subestimada ‘escola da vida’ sempre nos alcança, fazendo de todos seus alunos. Nem mesmo dos insuportáveis e com menos luzes, como minha única tia pelo lado materno gostava de dizer, ela que achava um absurdo eu gostar de calças jeans: “Não gosto de jeans. São quentes no verão e frios no inverno”, desiste. Deveria. No meu Clarice Lispector favorito, A Paixão Segundo G. H., há um trecho magistral sobre a importância da desistência:
“A desistência é uma revelação.
Desisto, e terei sido a pessoa humana – e só no pior da minha condição que esta é assumida como o meu destino. Existir exige de mim o grande sacrifício de não ter força, desisto, e eis que na mão fraca o mundo cabe. Desisto, e para a minha pobreza humana abre-se a única alegria que me é dado ter, a alegria humana. Sei disso, e estremeço – viver me deixa tão impressionada, viver me tira o sono”.
Talvez a imortalidade seja permanecer acordado e com fome para todo o sempre, amém. Eu gosto de dormir, mas não muito. Informação irrelevante neste texto, mas que diz bastante sobre mim, tentações e idiossincrasias.
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Foto da Capa: do filme Fome de Viver / Divulgação.

