Jules Gabriel Verne — ou Júlio Verne, como o chamamos — é um dos maiores nomes da literatura mundial. Sua obra atravessa gerações, unindo realidade e fantasia, tempo e espaço. Pode-se dizer que fundou a ficção científica, sendo extremamente assertivo em previsões que moldaram a história: das máquinas voadoras e submarinos à chegada do homem à Lua. Neil Armstrong, comandante da Apollo 11 e primeiro humano a pisar em solo lunar, chegou a citá-lo ao relembrar sua “previsão”.
Nascido em Nantes, na França, em 1828, Verne foi para Paris com a intenção de seguir os passos do pai no Direito. Mas a literatura o seduziu e ele, por sua vez, encantou o mundo. Em 1862, Cinco semanas em um balão, seu primeiro romance, tornou-se um best-seller. Passou, então, a dedicar-se integralmente às letras, escreveu mais de sessenta livros ao longo de quarenta anos. Entre suas obras mais conhecidas estão Viagem ao centro da Terra, Da Terra à Lua, Vinte mil léguas submarinas e A volta ao mundo em 80 dias.
Em 1889, publicou Fora dos Eixos (Sans dessus dessous), que serve de sequência a Da Terra à Lua. Nele, os conhecidos personagens do Gun Club de Baltimore discutem a compra, em leilão, de terras no Ártico. O plano é audacioso: alterar a inclinação do eixo do planeta através da força de recuo do disparo de um gigantesco canhão. Tudo meticulosamente projetado pelo matemático e aventureiro J. T. Maston.
O objetivo? “Endireitar” a rotação da Terra. A North Polar Practical Association, sociedade americana criada para este fim, prometia que a empreitada tornaria o clima polar mais ameno e eliminaria as estações do ano. O derretimento do gelo permitiria, enfim, o acesso às vastas reservas de carvão na região, incluindo a Groenlândia. Vale lembrar que vivíamos o auge da evolução industrial.
Sempre há quem aplauda. A certa altura da narrativa, um eloquente artigo do Sun de Nova York exalta: “Honra ao presidente Barbicane e a seus colegas! […] tornaram a Terra mais higienicamente habitável e mais produtiva… modificaram, para maior bem de seus semelhantes, a obra do Criador!”
Nesta obra, Verne ironiza a megalomania imperialista e antecipa um debate atualíssimo: as consequências climáticas e os limites éticos do territorialismo e da ciência. São delírios de grandeza que ecoam do século XIX e permanecem vivos no alarido de cães raivosos no século XXI.
A subserviência e a tolerância a “parafusos frouxos” não devem ser menosprezadas. Elas podem levar, de fato, a mudanças irreversíveis no eixo da Terra e à perda definitiva de qualquer noção de horizonte.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

