O ser humano é um ser social. O convívio e a construção coletiva são sua natureza. Desde a dependência no nascimento até as relações durante a vida, a interação é o motivo de sua existência e permanência. Intermediário na cadeia alimentar, em bandos, atravessou eras, até chegar aonde estamos; mesmo contrariados. Os excessos de exposição e a consequente ansiedade colocam as pessoas em estado de fuga, negando instintos primais em nome de uma paz fugaz.
Em algum momento, o “bicho homem” resolveu se entender especial, digo de regalias terrenas, amores divinos e atenções das forças do Universo. O distanciamento da natureza não é só físico, com a falta de terra, água e sol. Internamente, estamos afastados de nós, da simplicidade de ser humano. A pretensão de sermos diferentes faz a gente acreditar que se basta, que, na hora certa, as energias estarão conosco, afinal.
Talvez o egoísmo seja o maior truque do cérebro. Uma tentativa de se justificar, achar um sentido para estarmos aqui. A partir do monoteísmo e da possibilidade de sermos “imagem e semelhança” a qualquer força que acreditemos, a humanidade degringolou. A multiplicidade que somos evidencia que cada um é único, igual a ninguém. A noção da diversidade deveria nos unir, não isolar.
Há uma linha mestra que nos une, como a sociabilidade e outras premissas dos mamíferos em geral, mas é na integração que vivemos. Só que as relações reais exigem uma concepção que parece que perdemos e que os tempos atuais não nos deixam perceber. Ao mesmo tempo que somos o centro, não temos a liberdade de sermos nós. Há enquadramentos das emoções e condicionamentos de comportamento.
É a fala típica e odiosa às crianças: não pode chorar! Quando crescemos, não podemos sentir algumas coisas: tristeza, medo, raiva, inveja, ciúme, insegurança e por aí vai. Nem o amor escapa, já que uma paixão pode ser um “sinal de fraqueza”. Quem acha que pode controlar o que sente me parece que não entendeu nada. Compreender o que sentimos é bem mais difícil, mas é o único caminho. Aliás, a facilidade também parece ser uma necessidade criada pela mente e incentivada na atualidade.
Não existe sentimento ruim, diferente de uma ação a partir dele. O que vemos é uma fuga de se permitir compreender o que e por que dessa emoção. A porta de entrada em nós de uma vivência ruim é a mesma de uma coisa boa. Se fechamos a possibilidade de algo que nos ensinaram errado, travamos, na mesma força e proporção, a entrada de coisas boas. Quem se permite estar triste na tristeza, sem medo, saberá estar alegre na felicidade.
Sozinhos, isolados, é mais simples estar em paz. Os outros são espelhos, nos quais enfrentamos quem somos. Podemos usar esses momentos para reflexão, mas seremos reais no coletivo. Aqui colocaremos à prova a persona que criamos de nós e, praticando a sinceridade interna e externa, saberemos quem somos.
André Furtado é, por origem, jornalista; por prática, comunicador, de várias formas e meios. Na vida, curioso; nos Irmãos Rocha!, guitarrista. No POA Inquieta, articulador do Spin Música.
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