Relutei em escrever sobre Luis Fernando Verissimo, me sentindo inconveniente em perturbar o seu silêncio neste momento tão importante da trajetória, pensando no quanto ele prezava o recolhimento, a discrição, tendo optado por uma vida inteira de introspecção. Mas li tantos textos bonitos, tantas homenagens sinceras, despedidas, que pensei que ele deve estar apreciando o carinho. Assim, faço também a minha despedida, breve, para não abusar da sua boa vontade.
Falar da genialidade seria chover no molhado: deixo dois links no final da coluna que dão conta desse quesito de forma inspirada. Eu quero falar, então, do que observei da pessoa, desse homem de sorriso suave, que parecia um lago numa manhã de sol, com um senso de amizade singular, de afeto, de amor, de compreensão. Eu testemunhei sua lealdade e generosidade através da amizade que nutria desde a juventude com José Onofre, meu primeiro marido. Havia um enorme e recíproco afeto entre os dois, totalmente espontâneo. Era um verdadeiro prazer no convívio, mesmo que esporádico, por conta da distância na vida adulta, LFV morando em Porto Alegre e o Zé em São Paulo. Mas se encontravam sempre que possível e era uma alegria genuína, partilhada muitas vezes com o amigo em comum, Armando Coelho Borges. Eu adorava desfrutar desses momentos e também da iluminada companhia da Lucia Verissimo – tergiverso, mas preciso falar: o pinheiro de Natal que a Lucia decora na casa da família, em Petrópolis, não sai da minha cabeça, deve ser o mais lindo do mundo.
LFV era um amigo raro, sempre naturalmente disponível, esbanjava gentileza, era inerente ao seu ser. Eu fui brindada com sua generosidade quando ele aceitou fazer charges exclusivas para a revista que eu estava lançando em SP. Era uma produção independente da minha editora, sob licença do Shopping Iguatemi, e eu só podia pagar abaixo do valor de mercado, mas isso foi um detalhe irrelevante para LFV, mesmo já sobrecarregado de trabalho.
Muitos anos depois, Zé ficou um longo período internado em uma clínica, no interior de SP, de onde escrevia sobre livros para a Gazeta Mercantil, editoria de cultura de Daniel Piza; depois, a convite de Mino Carta* e Helio Campos Mello, voltou para a capital e escrevia colunas variadas – Luis Fernando sempre acompanhou a movimentação, compreendeu e apoiou, inclusive financeiramente nessa última fase em SP. Quando a doença se agravou e o Zé voltou para Porto Alegre, sob a tutela do irmão, sendo logo internado na Santa Casa, LFV continuou presente, com seu afeto e lucidez.
Imagino os dois, agora, sentados em alguma nuvem bem fofa, celebrando o reencontro e colocando em dia a conversa sobre cinema e literatura, desfrutando deste céu de quase primavera. Suas almas sensíveis, integradas à luz que se sobrepõe à morte.
*Quatro dias depois da partida de LFV, outra alma singular, Mino Carta, também seguiu em sua jornada à luz – sou extremamente grata a tudo o que aprendi com este gigantesco jornalista e me despeço com o que ele gostava de nos desejar: “Cubra-se de glórias”… na eternidade, caríssimo Mino.
Por Cláudia Laitano – Revista Piauí
Por Márcio Pinheiro - Brazil Journal
Todos os Textos de Vera Moreira estão AQUI.
Foto de Capa: charge LFV – Revista Iguatemi, maio/junho de 1994.

