Em 1983, eu chegava a Londres para cursar o meu mestrado em Economia Urbana na UCL (University College London). Tive então a oportunidade de desenvolver um estudo sobre um problema que há muito me interessava e que eu então definia como o processo de periferização da classe trabalhadora no Brasil. Padrão de ocupação do espaço urbano que eu encontraria, alguns anos depois, descrito por Flávio Villaça (1998) em seu belíssimo livro “Espaço intraurbano no Brasil”, no qual ele afirma:
O padrão mais conhecido de segregação da metrópole brasileira é o do centro x periferia. O primeiro dotado da maioria dos serviços urbanos, públicos e privados, é ocupado pelas classes de maior renda. A segunda, subequipada e longínqua, é ocupada predominantemente pelos excluídos. O espaço atua como um mecanismo de exclusão. (pág. 143).
Ao concluir o meu mestrado, iniciei uma pesquisa para definir o tema para desenvolver em minha tese de doutorado. Foi quando me deparei com alguns textos, muitos sequer publicados, que falavam de um processo ocorrido em Londres na década de 1950, descrito pela socióloga anglo-germânica Ruth Glass, o qual ela descrevia da seguinte forma:
Um por um, muitos dos quarteirões de Londres habitados pela classe trabalhadora foram invadidos pela – alta e baixa – classe média. Estrebarias e pequenas casas em estado de ruína – do tipo duas peças em cima e duas embaixo – foram tomadas quando os seus contratos de aluguel expiraram, para tornarem-se residências elegantes e caras (Glass, 1964, p. xviii).
Imediatamente saí em busca de seu livro London, aspects of change, publicado em 1964, no qual ela descrevia a sua pesquisa, denominando o processo como gentrification. Termo derivado da palavra gentry que os ingleses utilizam para definir a sua classe média, tendo como origem a identificação da classe palaciana situada logo abaixo da nobreza no ranking social inglês. Imediatamente percebi a estreita relação do processo descrito por Glass com o processo de exclusão social que eu havia estudado para a minha dissertação de Mestrado. Resolvi então testar o conceito em uma pesquisa que eu começava a desenvolver para a minha tese de doutorado e cujo objeto de estudo era o processo de exclusão de algumas vilas situadas em um bairro industrial situado na região norte da cidade de Porto Alegre e que hoje é parte do denominado 4º Distrito da cidade.
Corria o ano de 1984 e o conceito ainda era pouco conhecido, mesmo no meio acadêmico que eu frequentava em Londres. As especulações sobre as causas do processo eram as mais diversas, algumas ingênuas até, mas nada que pudéssemos levar muito a sério. Um texto acadêmico, por exemplo, propunha que o processo tinha como causa um repentino interesse das classes médias, que habitavam predominantemente na periferia da cidade, pelas habitações de estilo georgiano que dominavam o cenário arquitetônico do centro da cidade. Estas elucubrações instigaram-me mais a seguir com a minha pesquisa. A meu ver, somente após a publicação do artigo de Neil Smith, Toward a theory of gentrification: a back to the city movement by capital not people, publicado em 1979 e, principalmente, após a publicação de seu livro Gentrification of the city, com P. Williams, em 1986, o assunto passou a ser seriamente debatido.
A minha proposta de utilizar o conceito de gentrification no meu doutorado, dando continuidade ao que eu vinha estudando em meu mestrado, para analisar os processos de exclusão das classes sociais da base da pirâmide social brasileira de áreas mais centrais da cidade para a sua periferia, foi recebida com certa perplexidade em Londres. A visão dominante na Inglaterra era de que somente processos como o descrito por Glass poderiam ser descritos pelo termo gentrification. Esta seria, de fato, a razão pela qual, durante muito tempo, outros processos de gentrificação não foram identificados mundo afora. Consequência de uma visão equivocada que não havia compreendido a extensão da aplicação do conceito criado por Glass e o que ela denunciava com aquele exemplo. Entendi que, para identificar processos de segregação social semelhantes em outros países, deveríamos definir gentrification não apenas como um processo envolvendo mudanças na qualidade, composição e distribuição da força de trabalho, mas principalmente, e primeiramente, como uma das possíveis consequências do permanente processo de (re)organização do espaço para produção, circulação e consumo de mercadorias, obedecendo às necessidades de cada formação social em particular em períodos determinados. Isto colocaria a compreensão do conceito como parte de um amplo e complexo processo de (re)estruturação urbana, ligando o conceito também a processos específicos de (re)organização espacial, expandindo assim o seu significado e permitindo a sua utilização em um nível mais alto de abstração.
Intrínseco ao nosso argumento estava a proposta de que os processos de exclusão e segregação de determinadas classes sociais nas cidades poderiam e deveriam assumir formas distintas de acordo com momentos históricos específicos de cada formação social em particular. Não haveria, portanto, forma de definirmos um padrão único universal para processos de exclusão e segregação social como o de gentrification.
Contestando as afirmações equivocadas, que ainda hoje circulam na literatura inglesa, de que o processo teria surgido no período da criação do conceito por Glass e de que processos de gentrification em países como o Brasil, por exemplo, sequer existiriam ou seriam muito recentes, passamos a defender a tese de que gentrification não seria um processo recente, mas que há muito ocorreria em áreas urbanas de muitos países. K. Marx (1967) já descrevia, na segunda metade do século XIX em Londres, processos que claramente podemos entender como de gentrification, assim como D. Harvey (1958) em Paris durante o período do segundo império na França. No Brasil, o arq. Carlos Nelson F. dos Santos, em seu maravilhoso livro, ‘Quando a rua vira casa’, publicado em 1981, descreve claramente dois processos que são, sem dúvida, claramente de gentrification no Rio de Janeiro, entre o final dos anos 1960 e início dos anos 1970. Um no bairro do Catumbi, atingindo moradores de classe média baixa, e outro no bairro do Leblon, atingindo os moradores da Favela do Pinto, para dar lugar à conhecida Selva de Pedra.
Desde 1985, tão logo voltei ao Brasil trazendo o conceito em minha bagagem, passei a defender a minha tese no ambiente universitário de Porto Alegre, participando de debates e apresentações, produzindo textos e, na medida em que o conceito se tornava mais conhecido, dando pareceres e respondendo a questionamentos vindos de várias partes do país e alguns questionamentos do exterior. É a partir desta época, também, que passei a utilizar o termo gentrificação, uma tradução livre do termo inglês, identificando textualmente o termo por mim utilizado ao termo utilizado internacionalmente para identificar o processo. Isto porque passei a receber, frequentemente, sugestões para identificar o processo utilizando outros termos como revitalização, renovação, modernização, desenvolvimento, etc., todos enfatizando aspectos positivos de uma suposta reversão de decadência urbana. Em realidade, estas propostas tinham o propósito de encobrir os processos de gentrificação intrínsecos a muitas intervenções urbanas, como o que analisamos, eu e Cesar Wagner, em nosso estudo de caso no 4º Distrito de Porto Alegre. Feliz decisão, pois o termo gentrificação, embora ainda utilizado com algumas interpretações equivocadas, está cada dia mais incorporado ao nosso vocabulário.
Carlos Ribeiro Furtado é arquiteto formado pela UFRGS/RS com especialização em planejamento urbano e regional na USP/SP, planejamento urbano e habitacional no Bown Centrun/Rotterdam, mestrado em economia urbana na UCL/londres e doutorado na UFRGS.Tem projetos de arquitetura, nas áreas comercial, industrial e residencial e Intervenções urbanas na instalação de hidroelétricas, mineração, recuperação urbana e loteamentos. Intervencoes de reassentamento habitacional em áreas rurais de várias cidades do Brasil.
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Foto da Capa: Mark-Ramsay / Londres / Wikimedia Commons

