Chego diante deste teclado para dar um depoimento que ninguém pediu, mas que pode chegar a ter alguma serventia. Há pouco mais de um mês venho noticiando minha gravidez. Bem aos poucos, tenho avisado família estendida, amigos, colegas e, claro, meus pacientes.
A maior parte não vê a minha barriga, já que, na bacia do Prata, estou mais à esquerda. Em todo o caso, me pareceu digno que, sobretudo meus pacientes, soubessem no tempo em que a barriga se pronunciaria na atividade presencial. De qualquer forma, tenho me presenteado com a vagareza no anunciar dessa notícia, já não por sentir o perigo dos meses iniciais, mas por gostar da ideia de aproveitar esse tempo com mais detimento.
Sou uma grávida tardia, quarentona e workaholic em recuperação. Muito rápido me dei conta de que ter filhos iria ficar para o segundo tempo e assim foi, pois engravidei justo nos 44. Difícil não sentir o peso do etarismo nosso de cada dia quando se decide engravidar nessa faixa etária. Mais ainda, quando se dilata o tempo em que repercute essa decisão. E, ademais, outra coisa difícil é saber sobre as condições do corpo, esse amigo tão bom quanto caprichoso.
Após 7 meses de tentativas, em 2024 decidimos nos entregar à reprodução assistida devido ao fator idade. Uma decisão da qual às vezes me arrependo, apesar de que serviu para algo muito importante: mobilizar minha vontade de ser mãe e não a minha vontade de ser mãe, porque o relógio biológico mandou e o meu parceiro quer ser pai. Na primeira derrota antes da inseminação, saímos machucados e temerosos quanto aos limites dos recursos materiais para a empreitada. Então, decidimos não seguir com o tratamento. Decisão difícil, mas que agradeço sempre que posso. Ainda que com uma enorme vontade de ser mãe, entendi que não podia ser a qualquer preço. Aqui não me refiro só à questão material, mas a toda a manipulação física e comoção emocional envolvida.
Assunto arquivado? Mais ou menos. Resolvi que precisava me cuidar mais, me mimar mais e entrei na onda da desinflamação corporal para ver no que dava. Na pior das hipóteses, deixaria meu corpo mais contentinho. Na melhor, relaxaria e engravidaria.
Sempre cuidei do físico, do meu jeito, porque sempre dancei. Ao mesmo tempo, também tive minha fase um pouco de droga, um pouco de salada. Há anos me cuido mais, mas teria sentido reforçar a parte física antes de pensar em novas e possíveis intervenções. Então, uma nova entrega se deu: yoga, acupuntura, nutrição e, sobretudo, uma médica mais humanizada, que nunca duvidou da minha capacidade reprodutiva. E, assim, em maio deste ano, antes do esperado como efeito dos tratamentos, eu já estava grávida.
Acaso? Relax? Resíduo hormonal? Ciência? Sugestão? Sorte? Não sei. Como diria Chicó: só sei que foi assim. Existe uma explicação para cada dia e cada humor. Por fim, eu agradeço à ciência por ter me dito que eu não podia e assim me ajudar a engajar o meu desejo forte, mas um tanto preguiçoso.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

