Nunca canso de agradecer à professora Maria Carolina dos Santos Rocha por ter me apresentado, na disciplina de Introdução à Filosofia do curso de História da UFRGS, no distante ano de 1984, dois pensadores que nunca mais me abandonaram: Jean Baudrillard e Paul Virilio. Ela, inclusive, recém iria defender seu doutoramento sobre este último em 2001, sob a orientação do professor Baltazar Barbosa Filho, um calhamaço de mais de 600 páginas de originalidade e ousadia que a caracterizava e que nos introduzia anos antes no seu pensamento por meio de Guerra Pura, obra que tenho até hoje sublinhada e rabiscada em minha biblioteca. Ali estão, há mais de quarenta anos, definidas a função da guerra na história humana: logística, economia, política e morte.
Virilio dirigiu a Editora Galilée, aquela dos livros cor de creme, responsável pela publicação e divulgação de outros grandes autores como Marc Augé, Michel Onfray, Felix Guattari, René Lourau e Jean Baudrillard, além de suas próprias obras, que estavam renovando o pensamento francês. E eu, é claro, graças às aulas de Carolina, estava encantado com Virilio e depois com Baudrillard em meus estudos e fui atrás de suas obras. É claro, também, que importar livros naqueles tempos era caro, levava tempo, mas me orgulho de possuir a coleção da Galilée de Virilio, uma espécie de tesouro escondido numa biblioteca do Bairro Petrópolis.
Bunker Archéologie
A Galilée publicou de Paul Virilio em 1976, Bunker Archéologie (Arqueologia de bunkers), meu apoio teórico aqui. Ela é a versão do texto que ele publicou em 10 de dezembro de 1975 para a exposição do mesmo título organizada para o Centro de Criação Industrial de Paris. Somente outra obra de Virilio seria tão impactante em minha trajetória: Ce qui Arrive, o catálogo de outra exposição que o autor fez sobre a história do acidente (o “o que acontece”, do título), realizada no Museu Pompidou nos anos 90, outra obra premonitória dos efeitos da tecnologia, como muitas outras obras suas.
Estou na praia e tenho tempo de ler com mais cuidado Bunker Archéologie. Ali, Virilio relata que, durante sua juventude, foi proibido de acessar o litoral porque estavam construindo uma linha de fortificações (Linha Maginot) e ele só pôde conhecer o mar anos depois. Eu acho graça nessas semelhanças: para ele, como para mim, a descoberta do mar é uma experiência que merece reflexão. “Ver o horizonte oceânico é, de fato, tudo menos uma experiência secundária; é, na verdade, um evento de consciência com consequências subestimadas. Não esqueci nenhuma das sequências deste encontro durante o decorrer de um verão em que recuperar a paz e o acesso à praia eram um único e mesmo evento. Com as barreiras removidas, você estava, a partir de então, livre para explorar o continente líquido; os ocupantes tinham voltado para o seu interior nativo, abandonando, junto com o local de trabalho, suas ferramentas e armas. As vilas à beira-mar estavam vazias, tudo dentro do alcance de tiro das casamatas tinha sido explodido, as praias estavam minadas, e os artífices estavam ocupados aqui e ali permitindo o acesso ao mar.”
Os marcos da vastidão do mar
Virilio e eu partilhamos o sentimento de estar na praia como o de uma grande ausência: ele, na imensa praia de La Baule, eu, na não menos imponente praia de Cidreira. Ambos descobrindo o mar que nos privaram durante a infância. Eu conheço toda a sua obra; Virilio só sabe de meu nome por um convite que lhe fiz para palestrar em Porto Alegre, que, infelizmente, recusou. Não gosta de viajar de avião. Se viesse ao Brasil, eu o convidaria a visitar Cidreira. Ele veria uma praia deserta, que no inverno não tinha nenhum veículo, exatamente como as que visitou. Mas a experiência de Virilio tinha um peso maior: ele estava saindo de uma Guerra Mundial, as ruas de Paris tinham sido abandonadas por exércitos alemães invasores. O oceano fazia parte de um campo de batalha real; o meu oceano compõe apenas um campo de batalha das ideias.
Virilio se desloca para a praia de La Buale, passando pelas planícies do Brière, como eu me desloco pelas de Águas Claras. Ele se surpreende, como eu, com a linha do horizonte limpa e se decepciona com a cor cinza-esverdeada — ele não conhece o tom chocolate de Cidreira! Ele faz a pergunta: “Poderia um espaço tão vasto estar desprovido da menor obstrução? Eis a verdadeira surpresa: em comprimento, largura e profundidade, a paisagem oceânica havia sido completamente limpa.” Virilio, quando vê pela primeira vez o mar, o vê como outro deserto, sente o calor do tempo — ainda é agosto lá, verão. “Avançando em meio a casas com janelas escancaradas, eu estava ansioso para me livrar dos obstáculos entre mim e o horizonte atlântico; na verdade, eu estava ansioso para pisar na minha primeira praia. O oceano estava ficando maior, ocupando cada vez mais espaço no meu campo de visão. Mais um elemento estava ali diante de mim: a hidrosfera.”
Bunkers e guaritas
Mas Virilio não estava diante do mar e apenas interessado nele. Ele estava mais interessado nos bunkers que existiam no litoral. Eles faziam parte do famoso “Muro do Atlântico” (Atlantikwall), “de frente para o mar aberto, de frente para o vazio”. Ele, como eu, se recorda de suas lembranças de infância, na praia ao sul de Saint-Guénolé, durante o verão de 1958. “Eu estava encostado numa sólida massa de concreto, que antes me servia de cabana. Todos os jogos habituais à beira-mar tinham se tornado um tédio completo. Eu estava vazio no meio das minhas férias e meu olhar se estendia pelo horizonte do oceano, pela perspectiva da areia entre os maciços rochosos de Saint-Guénolé e o paredão do porto de Guilvinec, ao sul. Não havia muita gente por perto, e observar o horizonte daquela forma, sem nada interrompendo meu olhar, me trouxe de volta ao meu próprio ponto de vista, ao calor e à enorme estrutura que sustentava meu corpo: essa sólida massa inclinada de concreto, um objeto que, até então, só despertou meu interesse como vestígio da Segunda Guerra Mundial, servindo apenas como ilustração para a história da guerra total.”
É assim que Virilio, aos 26 anos, descobre e começa a estudar os bunkers da linha do Atlântico. Fortificações com tela protetora, de frente para o porto bretão, em direção aos banhistas inofensivos, com a abertura que permitia surgir um canhão em direção ao mar. Eu não me recordo de quando vi pela primeira vez o mar, e nem exatamente quando, em Cidreira, vi as guaritas salva-vidas que estão ao longo do litoral gaúcho, mas eu recordo, quando li pela primeira vez Bunker Archéologie, da incrível semelhança entre as duas construções. É uma imagem de minha infância, uma dezena de guaritas solitárias ao longo do litoral, como os bunkers são a dele.
A diferença fundamental
Eu lembro da cena gravada na minha mente dessas guaritas: a primeira coisa que me chamou a atenção foi a constância. Como os bunkers, ambos são equipamentos dispostos com distâncias precisas ao longo do litoral; se a linha Maginot francesa era um muro de contenção, um muro que mata, minha linha de guaritas salva-vidas tinha a função contrária, é um muro que salva. A segunda coisa que percebi é que, de certa forma, Virilio dava valor à estética dos bunkers, como dou valor à estética das guaritas salva-vidas: elas não são todas iguais, há, é claro, um modelo padrão, mas, ao longo do tempo, foram se diversificando. Essa história da estética da guarita gaúcha está para ser escrita.
Os materiais e as funções, é claro, eram diferentes. Os dos bunkers, de concreto armado, forte, contrastam com a fragilidade das guaritas, de madeira, fracas. Somente em algumas, as mais antigas, a base que a sustenta é de concreto. Hoje não mais. Tanto os bunkers quanto as guaritas tinham pisos de madeira, e Virilio se diz impressionado com a sensação de ser esmagado pelo bunker, que é talvez a única sensação que uma guarita salva-vidas, devido à sua fragilidade, não provoca. Além disso, com o tempo, a areia toma conta tanto da guarita quanto do bunker, invadindo o espaço de ambos; ambos os equipamentos são reutilizados pelos veranistas da mesma forma: para colocar roupas ou bicicletas no bunker, ou para se proteger do sol, como fazem os habitantes de Cidreira no salva-vidas. Ambas oferecem, assim, alguma proteção.
O elemento religioso
Nunca pensei antes nas guaritas de salva-vidas como Virilio faz com os bunkers, mas, é claro, há alguma coisa que me diz do parentesco que o filósofo aponta com mastabas egípcias e túmulos etruscos: com isso Virilio quer identificar os bunkers com algum cerimonial. Eu também vejo certa semelhança nessa identificação, já que a praia é também um lugar de cerimônias religiosas, como o batismo de religiões de matriz africana. E muitas oferendas são colocadas aos seus pés. Pergunto o que haveria de religioso em uma guarita salva-vidas e eu tenho certeza, como Virilio, de que aquelas incrustações na costa ensinam muito sobre nossa época e sobre nós mesmos. Por isso Virilio partiu para inspecionar a costa da Bretanha a pé, indo cada vez mais longe, de carro “ao norte em direção a Audierne e Brest, e ao sul em direção a Concarneau”.
Ele caça essas formas cinzentas como eu caço, na internet, imagens dessas formas vermelhas de nosso litoral. Eu sei que, ao contrário dos bunkers de Virilio, que não são amplamente conhecidos, as guaritas salva-vidas são reconhecidas e, inclusive, numeradas. Se os bunkers revelam uma analogia do arquétipo funerário com a arquitetura militar, que tipo de arquétipo revelam as guaritas salva-vidas? Ambos são, como diz Virilio, vítimas de uma “situação insana, debruçados sobre o oceano”; ambos esperam alguma coisa diante do mar, sejam corpos que vêm sob a forma de navios de guerra, sejam os que vão, sob a de afogados. “Até então, as fortificações sempre haviam sido orientadas para um objetivo específico e bem definido: a defesa de uma passagem, um desfiladeiro, degraus, vales ou portos.” Eu vejo as guaritas salva-vidas com um objetivo específico — salvar vidas — e esse objetivo foi se ampliando para incluir funções como guichê de informações e posto de apoio para pessoas perdidas.
O elemento organizador
Um dos pontos interessantes é que Virilio vê que os bunkers organizam o litoral. Enquanto ele caminha dia após dia sem nunca perder de vista esses altares de concreto construídos para encarar o vazio do horizonte oceânico, eu caminho pela praia e avisto as guaritas ao longe, exatamente da mesma forma, demarcando o território: ali termina o bairro centro de Cidreira, ali inicia o Costa do Sol e por assim adiante. Virilio trata seus bunkers como equipamento de sítios arqueológicos, e por que eu não posso tratar as guaritas da praia do mesmo modo? Afinal, muitas são bastante antigas, algumas também estão abandonadas e, se não remontam à Segunda Guerra Mundial, ao menos remontam à criação destas próprias praias, entre os anos 70 e 90. Se há uma Festung Europa (Fortaleza Europa), bem que estes monumentos nos apresentam a Festung Gaúcha, a realidade da geometria do litoral em função de equipamentos de salvamento.
Quais guerras estes equipamentos representam? Os bunkers de Virilio representam a herança da II Guerra Mundial, enquanto minhas guaritas simbolizam políticas públicas de proteção junto ao mar. Mas existe uma diferença entre o olhar de Virilio e o meu: enquanto Virilio vê o que acontece no espaço oceânico e aéreo, já que os bunkers são instrumentos da guerra contra os aviões no ar, o meu olhar é em direção ao que acontece exclusivamente no espaço oceânico: as guaritas são testemunhos da luta entre a vida e a morte no mar. “Esses blocos de concreto eram, na verdade, os últimos vestígios da história das fronteiras, do limes romano à Grande Muralha da China; os bunkers, como a arquitetura militar de superfície definitiva, naufragaram nos limites das terras, no momento preciso da chegada do céu na guerra; eles marcavam o litoral horizontal, o limite continental. A história havia mudado de rumo uma última vez antes de saltar para a imensidão do espaço aéreo”. As minhas estruturas de madeira não são tão distantes assim. Eles também são vestígios da história das fronteiras contada nas praias. Eles as limitam, mas também é uma espécie de arquitetura militar, porque são equipamentos da Brigada Militar; mas sua atenção não está na chegada dos aviões no céu, mas nos pobres homens que não sabem nadar no limite de suas pernas, além do que suas pernas alcançam.
Porque me identifico com as guaritas
Virilio é um arquiteto que está familiarizado com as formas de concreto, sejam nas cidades, sejam nos bunkers que descobre ao longo do litoral, porque ele é um arquiteto. Eu, por outro lado, sou o historiador aposentado familiarizado com o trabalho educacional. Por isso, enquanto Virilio se sente em desacordo com os bunkers, eu me identifico com as guaritas: de alguma forma, elas também estão ali para educar a população que vai à praia. Eles sinalizam onde é ou não perigoso, indicam como se comportar frente ao mar, que pode surpreender. Virilio sente ao observar os bunkers que “uma civilização subterrânea tivesse brotado do chão. A modernidade dessa arquitetura era contrabalançada por sua aparência abandonada e decrépita. Esses objetos haviam sido abandonados e eram incolores; seu relevo de cimento cinza era testemunha silenciosa de um clima bélico. Como em certas obras de ficção, uma nave espacial estacionada no meio de uma avenida anunciando a guerra dos mundos, o confronto com espécies inumanas, essas massas sólidas nos espaços urbanos, ao lado da escola local ou do bar, lançam nova luz sobre o que “contemporâneo” passou a significar”. Minhas guaritas salva-vidas não têm modernidade alguma: são como os bunkers de Virilio, elas estão presas a modelos do passado. Mas já há, em algumas praias, tentativas de modernizá-las. Não se trata de nenhum clima bélico: simplesmente é adaptação aos novos tempos de consumo capitalista. As guaritas agora não precisam ser funcionais, mas precisam ter… glamour! Assim, elas anunciam outra guerra no litoral, a guerra dos incorporadores e seus condomínios de luxo, em que guaritas também são artigos de luxo, que se querem melhores do que as das praias populares com suas guaridas de quarenta anos ou mais.
Virilio se pergunta o motivo de um habitat tão comum sobreviver tantos anos; eu me pergunto o mesmo sobre as guaritas. Elas não sobrevivem ao tempo por serem massas de concreto pesadas; ao contrário, algumas são de madeira. O que é de concreto, muitas vezes, é sua base. Essa sim atravessa as décadas, e sobre ela são construídas sucessivas guaritas de madeira, uma base eterna que sustenta um refazer constante. Virilio diz que “essas massas cinzentas e pesadas, com ângulos sombrios e sem aberturas, exceto as entradas de ar e várias entradas escalonadas, trouxeram à luz, muito melhor do que muitos manifestos, as redundâncias urbanas e arquitetônicas deste período pós-guerra que acabara de reconstruir à perfeição as cidades destruídas. Os bunkers antiaéreos apontavam para outro estilo de vida, uma ruptura na apreensão do real. Essa comparação imediata entre o habitat urbano e o abrigo, entre o prédio de apartamentos comum e o bunker abandonado no coração dos portos pelos quais eu estava viajando, era tão forte quanto um confronto, uma colagem de duas realidades diferentes. Os abrigos antiaéreos me falavam da angústia dos homens e das moradas dos sistemas normativos que reproduzem constantemente a cidade, as cidades, o urbanístico”.
Guaritas nos salvam de uma angústia
Olho minhas estruturas de concreto que possuem as guaritas salva-vidas. Elas também são estruturas tristes, com poucas aberturas e ângulos. Arquitetonicamente, são quase sem significado, mas elas não nos falam de funções arquitetônicas; ao contrário, indicam-nos funções sociais. As guaritas salva-vidas nos falam de um estado com compromisso com a vida, e isso é singular frente a um estado que se entrega às políticas neoliberais. Logo, logo, quem sabe, elas serão privatizadas, como outros serviços. No futuro você pagará para ser salvo; penso como se fizesse o título de um dorama. Se Virilio compara o bunker em relação ao habitat urbano e ao abrigo, eu comparo a guarita à expressão da proteção de Estado. O salva-vidas aqui corresponde ao médico na sua função; um nos salva das ondas do mar, o outro opera na sala de cirurgia. Ambos salvam vidas. Se as guaritas falam de algo, é da angústia da morte acidental.
Virilio diz que os blocos de concreto eram antropomórficos; suas figuras lembravam corpos. Já as guaritas salva-vidas lembram casas, repetições de um mesmo modelo, como os bunkers, sim, mas não estão escondidas nas depressões da paisagem costeira, estão, ao contrário, bem à vista de todos, de forma escandalosa, e sua originalidade estava na sua forma arquitetônica específica: uma casa ao alto para o salva-vidas ver o mar e ser visto, e uma arquitetura chamativa, vermelha. Tanto quanto um bunker, é uma construção… escandalosa! Curiosamente, diz Virilio, por serem alemães, os bunkers passaram a ostentar manifestações hostis, “seus flancos de concreto cobertos com insultos contra ‘alemães’ e suásticas”, algo que não acontece nas guaritas gaúchas. Sua destruição é mais produto da má conservação e dos poucos recursos investidos do que uma vingança contra um equipamento. Virilio diz que muitos ribeirinhos se alegravam quando os bunkers eram explodidos, pois assustavam e traziam lembranças ruins; nossas guaritas, quando abandonadas, apenas fazem refletir sobre o quão abandonado é nosso litoral pelas autoridades públicas. As lembranças dos bunkers vêm de um passado distante; as das guaritas, de um passado próximo.
O militar escondido na guarita
Outra diferença importante é que os moradores das praias onde os bunkers estavam localizados tinham certeza de que eram monumentos militares; a maioria que frequenta a praia não tem a noção de que pertence à Brigada Militar, ou seja, que também é, à sua maneira, um equipamento militar. A razão é que o Corpo de Bombeiros, que o mantém, possui uma imagem pública bem diferente da Brigada Militar: esta última, eventualmente, como afirma o noticiário mais recente, pode matar. Você nunca viu um salva-vidas nessa posição. Os bunkers foram rejeitados pela população, que mantinha um ressentimento pelo seu significado; as guaritas salva-vidas não, e, se foram abandonadas, apenas aguçaram o ressentimento da população com seu Estado. Na verdade, os salva-vidas sempre foram considerados uma espécie de personalidade santa, alguém que só faz o bem. Mesmo assim, como nos bunkers, não foram impedidos de serem tratados como altares semirreligiosos da praia, com o depósito de oferendas em sua base, em geral nas festas de Iemanjá. Mas isso não foi uma brincadeira, como nos bunkers, mas uma manifestação de fé.
Virilio fez sua pesquisa de forma seletiva, apenas coletando as referências dos bunkers, sem dar atenção à vida à beira-mar. Eu não posso fazê-lo, já que as guaritas são justamente um dos elementos fundamentais da costa durante o veraneio; os banhistas só entram na água após olharem a bandeira do mar. E observam os sinais do salva-vidas, como apitos que sinalizam zonas perigosas em que os banhistas se metem. Virilio isola as casamatas, pois pesquisa equipamentos de um tempo diferente da sua viagem; eu vejo equipamentos que, mesmo do passado, têm sua função mantida no presente. Virilio via o conflito entre banhos de verão e combate; eu vejo o conflito entre banhos de verão e afogamentos. Em ambos, há, de certa forma, a figura da morte presente. Premeditada no primeiro, acidental no segundo. Se o bunker, para Virilio, encarna o arquétipo arquitetônico da cripta primordial, um refúgio enterrado contra a guerra total, a guarita salva-vidas encarna o arquétipo da torre vertical, mas de uma forma inédita. É numa versão totalmente contrária à sua origem, já que a torre vertical era associada aos guetos nazistas e, portanto, com uma função oposta à defesa da vida, à garantia da morte, enquanto a guarita vê longe para salvar vidas.
Guaritas salvam vidas
Virilio entrava nas casamatas das praias do Atlântico quando eu nunca entrei numa guarita salva-vidas, mesmo quando abandonadas. Eu podia, é claro, ficar abaixo delas, como todos faziam, circular nelas como Virilio faz em seus bunkers. Temos inspirações, portanto, diversas do objeto similar: se Virilio se assusta em pensar que “se a guerra ainda estivesse aqui, isso me mataria, então este objeto arquitetônico é repulsivo”, eu penso o contrário dos abandonados: “se estivesse em funcionamento, seu salva-vidas me salvaria”. O bunker tem um projeto bélico; a guarita, salvacionista. Mas as crianças cidreirenses não brincam de salvar vidas como as que visitam o bunker brincam de fazer a guerra. Essas guaritas frágeis jamais imaginariam que sua parenta distante tem uma estrutura de concreto revestida por uma porta blindada; mas ambas, por alguma razão, sobrevivem à passagem do tempo, seja enferrujadas ou com madeiramento apodrecido.
As guaritas invocam uma sensação de urgência. Você vê os salva-vidas construírem morros de areia todos os dias, que servem de amortecimento em suas quedas. Eles veem ao longe alguém que corre perigo; eles vêm distante porque a guarita é alta; uma escada seria suficiente, mas demora para descer; eles então têm a opção de saltar para salvar a vida, o que torna ainda mais heroico o gesto. É diferente do bunker, feito com concreto para travar o inimigo; aqui, o objetivo é ir em direção à vítima de um infortúnio. Sequer às vezes há escadas; na maior parte das vezes, os próprios salva-vidas escalam suas guaritas. E seus flancos não possuem fendas para armas, mas boias salva-vidas que utilizam para resgate.
O campo militar
Virilio apresenta o tema no primeiro capítulo, mas é no segundo que se dedica à função do bunker no campo militar. Esse campo, na ação do salva-vidas, também é similar, já que é administrado pela Brigada Militar, mas aqui ainda é diverso. Não se trata de um campo de batalha de guerra tradicional, mas de uma outra guerra, a batalha pelo salvamento de vidas. O conhecimento do salva-vidas é como o do especialista militar: ele vê o potencial risco à distância, ele vê cidadãos arriscando-se em zonas que ele sabe que possuem uma geografia marítima de perigo. “A geografia dos exércitos é uma geografia dinâmica e, como se o ponto de vista do guerreiro fosse a visão privilegiada do mundo, é útil salientar que o progresso na topografia decorreu, desde o século XVI, de inúmeras guerras europeias, como se o progresso nas armas e nas manobras causasse progresso na representação territorial; como se a função das armas e a função do olho fossem indiferentemente identificadas como uma só.” Aqui, os exércitos são os veranistas que estão na água, e sua visão privilegiada, do alto da sua guarita, usa a única arma que dispõe, além da técnica de salvamento, para mapear o território: o olhar. Aqui, os famosos mapas topográficos de 1832 aos da cartografia eletrônica dos satélites de observação da NASA são substituídos pelo mapeamento diário das condições do fundo do mar, talvez uma preocupação notável pela revelação que faz para os veranistas de que o lugar em que estão pode ser mais perigoso do que aparente.
Tanto o salva-vidas como o armamentista do bunker têm a mesma preocupação com a geografia das populações: controlar um território, escaneá-lo em todas as direções, até evidente, o limite da próxima guarida. Entretanto, nesta guerra, não há tecnologia adicional, exceto nas lanchas e veículos aquáticos utilizados para resgate, ou nos helicópteros que podem ser empregados em casos mais graves. A velocidade em ambos é fundamental: a velocidade dos projéteis só encontra paralelo na velocidade das ambulâncias que se deslocam por Cidreira até os postos de saúde. Aqui, a economia de guerra que transforma a paisagem em reduto defensivo é substituída pela rede de guaritas que transforma os próprios salva-vidas em projéteis: são eles que se jogam ao mar, se movem em braçadas cada vez mais rápidas para salvar as vítimas, como as balas dos bunkers para produzi-las. É que a estrutura militar, diz Virilio, está cada vez mais homogênea; as técnicas de combate estão cada vez mais similares entre si. Combater um inimigo é como combater o mar que afoga mais vítimas; a conquista do espaço militar também está no mapeamento do mar, conquista da fronteira do habitat humano, realidade geográfica que, de agora em diante, é onde se move um novo tipo de guerreiro, o salva-vidas.
A guarita como infraestrutura
A guarita é apenas mais uma infraestrutura estratégica na luta pela vida que se arrisca no mar. Dos equipamentos de resgate, passando pelas ambulâncias e lanchas, uma infraestrutura estabelece o duelo entre salva-vidas e o mar; o próprio processo de salvamento por respiração boca a boca é outra forma de encurtamento, representando o poder pessoal do salva-vidas num instante de perigo. Diz Virilio: “No curso da história, a construção de rotas e muralhas delineou a radiação de energia por meio da retidão das linhas, mas a fraqueza das forças motrizes, juntamente com a fraqueza demográfica, ainda não permitiu que essa lenta transformação do mundo em um tapete de trajetórias se tornasse inquietante.” Esse processo não é semelhante à construção dessa malha de guaritas ao longo do litoral que, mesmo com uma equipe renovada a cada temporada, ainda assim tem vítimas entre os banhistas? Essa é a trajetória inquietante de que fala Virilio, de que mesmo nossas forças militares têm fraquezas. O salva-vidas, por isso, corre para salvar o afogado. “A velocidade sempre foi a vantagem e o privilégio do caçador e do guerreiro. Corrida e perseguição são o coração de todo combate. Há, portanto, uma hierarquia de velocidades a ser encontrada na história das sociedades, pois possuir a terra, dominar o terreno, é também possuir os melhores meios para examiná-lo a fim de protegê-lo e defendê-lo”, diz Virilio.
Isso não acontece no inverno porque a instituição militar é um animal ciclotímico. Ele hiberna na praia no inverno, quando não há movimento, seu equivalente do tempo de paz, para retornar na alta temporada, seu equivalente do tempo de guerra. Compreender o fenômeno do salvamento da praia como extensão da atividade militar é uma das coisas menos compreendidas do verão. Essa revolução do salvamento litorâneo também tem sua história, como os bunkers possuem a sua. Pesquiso na internet e descubro que sua instalação remonta à década de 50, quando pescadores voluntários começaram a vigiar as praias de mar informalmente, sem remuneração, para salvar veranistas que se afogavam. Segundo reportagem do Correio do Povo de 4 de fevereiro de 2014 (disponível aqui), eles começaram em Tramandaí, se posicionando à beira-mar, e, nas décadas seguintes, as prefeituras praianas começaram a contratar pescadores para formar um corpo de salvamento rudimentar.
Do salvamento artesanal ao professional
Em 1968, a Marinha do Brasil, por meio do Corpo Marítimo de Salvamento, começou a oferecer cursos de guarda-vidas a pedido da Prefeitura de Torres e, após, em 1970, a Brigada Militar assumiu o serviço pelo 8º. BPM. Nasce a Operação Golfinho, que expandiu as guaritas ao longo do litoral gaúcho, de Torres ao Chuí, divididas em companhias regionais. O movimento é claro: na praia, o salvamento tradicional por voluntários foi substituído pelo profissional remunerado, introduzindo um aparato moderno. Se o primeiro era uma atividade voluntária amadora voltada para as necessidades e riscos de uma população incipiente e inexperiente junto ao mar, o segundo corresponde a uma nova ordem organizada de salvamento: ele se profissionalizou. O tradicional foi substituído pela técnica.
A conclusão de Virilio é feita a partir de M. Heidegger, que diz: “O combate aqui designado é um combate originário, pois ele produz os combatentes como tais, e não é simplesmente o ataque dado a uma coisa subsistente. O combate é aquilo que, antes de tudo, elabora e desenvolve o inaudito, até então indizível e impensado. O combate é então sustentado por aqueles que lutam: poetas, pensadores, estadistas. Quando o combate cessa, aquilo que é não desaparece, mas o mundo se afasta.” No combate que salva-vidas fazem em nossas praias, há muito da guerra tradicional de Virilio, especialmente pelo fato de que é sustentado por seus protagonistas. Os salva-vidas são nossos estadistas das praias, e mesmo quando termina a temporada, os riscos que o mar oferece ainda estão lá, ainda que a população se afaste.
Todos os textos de Jorge Barcellos estão AQUI.
Foto da Capa: 1. “Karola”, torre de controle de tiro do Atlântico. Reproduzido Bunker Archéologie, de Paul Virilio. Paris, Galilée, 2008, p.15 - 2. Guarita / Brigada Militar

