A jornalista Luana Alves traduziu meus sentimentos sobre a noite de 29 de maio na Reitoria da UFRGS. O que ela escreveu traduz a emoção que senti, acompanhada por pessoas muito queridas, ao ouvir Mia Couto. – “O rio que engravida. Entre rio e chuva há uma relação semelhante à de mãe e filho”. Ouvir Mia Couto é uma desconstrução sensível e, portanto, poética das nossas duras certezas. Mais escutar o outro, mais inteligência afetiva, mais sentir, mais compreensão de que somos todos natureza. A reitora da UFRGS, Márcia Barbosa, foi certeira na mediação espontânea e lúdica. Noite de importantes reflexões sobre o futuro de forma gratuita e democrática. Há esperança!”
Simplicidade. Acolhimento. Inspiração.
Há esperança, sim! Saí fortalecida dessa noite e cheia de emoção ao ver a Reitoria da UFRGS lotada por um público atento, que aplaudia entusiasmado as palavras de Mia Couto. Palavras simples, acolhedoras e inspiradoras, que repercutiram no meu final de semana e nos dias que se seguiram. A certeza de que somos natureza. Não há limites. Não há fronteiras. Não devemos nos pautar pelo lucro e pelas notícias que reforçam a ideia de catástrofe. A vida real é feita de arestas e de montanhas íngremes que precisamos cruzar para chegar até as planícies cheias de verde. Descobrir cada detalhe destas paisagens diversas depende de nós. Somos terra. Somos rio. Somos árvores. Somos o meio ambiente. Somos feitos de histórias, de pequenos exemplos que nos alimentam e estimulam, de ausências que se transformam em presença. Não somos máquinas. A ciência está no nosso cotidiano, no nosso andar, no nosso olhar, no nosso dia a dia. Não temos porque reduzir ou afastar o espaço da pesquisa, do pensamento, da dúvida, do questionamento, das reflexões. Temos responsabilidade que vem das nossas raízes. Temos que olhar em volta, ouvir, perguntar, dialogar, participar. Precisamos nos colocar no lugar do outro, sem julgamentos. Partilhar histórias que são partes da nossa vida, das tantas raízes que nos integram, fundem e encantam. A simbiose é um fator chave no caminhar. Ensinar as pessoas a serem pessoas desde o nascimento, da infância em casa, passando pela escola, pelo trabalho, pelas ruas, em todos os espaços. Perguntar o que querem aprender e o que querem partilhar é fundamental, lembrando sempre que o ser humano é parte da natureza, precisa de ar puro, de espaço e do saudável convívio com o meio ambiente.
Cada um de nós tem voz. E as vozes precisam ecoar.
Não podemos esvaziar a esperança e empobrecer a visão de nós próprios. E nesta caminhada, a literatura é uma aliada indispensável! É através da literatura que o real encontra a ficção que registra nossas histórias, vivências, aprendizados, conhecimentos, dores e delícias. E assim tomamos contato com o medo e a insegurança através de um olhar que desbrava nossas fraquezas, dúvidas, certezas e percebe um vasto horizonte. .
Um olhar que aponta para a poesia, para a nossa força interior e a força que está além de nós, na convivência e na troca com o outro, para seguirmos firmes em momentos de vulnerabilidade e tristeza. Quando a sabedoria vem da simplicidade e nos ensina, a vida ganha novos sentidos.
Todos os textos de Lelei Teixeira estão AQUI.
Foto da Capa: Mia Couto / UFRGS

