O outono chegou aonde eu estou. Ainda não é o inverno, mas o verão se despediu há dias. Nele, até há horas claras no dia e o sol pode brilhar em céu limpo sem nuvens. Porém, é só isso… As folhas amarelam, secam e caem. Em Póvoa de Vazim, ventos do Atlântico Norte movem ondas geladas que encalham, em praias de pedras pequenas e frias, recolhidos caicós.
As casas que frequento já não deixam as portas e janelas abertas. Passo pelas ruas e não reconheço as pessoas: agora apenas vejo gente em encapuzados casacos grossos. Nesta estação, também só chego a elas assim. Sei que no inverno ficaremos nos quartos, não irei ter com ninguém e poucos terão comigo. Em frente à janela que já não abro, crianças já não recreiam no parque da escola, amigos já não passam falando alto.
Ainda tento acumular alguma coisa que nos valha quando chegarem por inteiro aqueles momentos nos quais a claridade se encurta e o calor desaparece completamente do mundo. As coisas que no outono acumulo não as guardo para o próximo verão: a primavera que me surpreenda! É para ela que pensamos retornar quando nem sequer findou o outono; e se sabe que dele segue a invernada.
Porém, no outro lado da diagonal que cruza o imenso oceano, no Atlântico Sul, o tempo é outro. Lá há Caicó. Lá não existe outono e não tem primaveras que separem invernos de verões. Não tem praia na qual se desembarque morrendo de frio. Lá sempre se vive sob sol que faz calor.
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Foto da Capa: Pelourinho de Póvoa de Vazim / Por Pedro PVZ / Wikimedia Commons

