“A experiência que passa de boca em boca é a fonte de onde todos os narradores beberam.”
Walter Benjamin, O narrador.
Foi somente através da psicanálise que pude compreender quem foi a minha mãe e quem eu era enquanto filha.
Durante muito tempo, cresci numa dificuldade imensa em separar o que era dela e o que era meu. Havia entre nós uma zona indistinta, um território feito de afetos, expectativas e dores que não me pertenciam inteiramente. Cresci entrelaçada num tecido de sofrimento, povoado por fantasmas e desejos que atravessavam minha história como se fossem meus próprios.
Somente mais tarde comecei a reconhecer que essa experiência não era apenas minha. Ela também dizia respeito a algo mais amplo: o modo como as histórias das mulheres se transmitem entre gerações. Não apenas pelas narrativas que passam de boca em boca, mas pelos afetos que circulam sem nome, como os lutos não elaborados, os segredos guardados, as expectativas que ninguém pronuncia, mas todos sentem.
Ao escutar as histórias da minha própria família, percebi como a tragédia delineava as linhas das vidas das mulheres que vieram antes de mim. Minha mãe me contava sobre suas antepassadas no interior do Rio Grande do Sul: mulheres agricultoras, imigrantes, fortes e sofridas, atravessadas por perdas e responsabilidades precoces. Entre elas, havia minha avó materna, que precisou criar sozinha sete filhos após o suicídio do meu avô. Havia minha avó paterna, negra, neta de escravos, cuja generosidade marcava profundamente as memórias familiares. E minha tia Leontina, grande costureira em Porto Alegre nas décadas de 1950 e 1960, conhecida por sua habilidade e também por seu enorme coração.
A minha mãe também foi uma grande costureira e, hoje, me vem que a imagem da costura oferece uma metáfora precisa para o que essas mulheres faziam, não apenas com tecido, mas com a própria vida. Costurar é unir pedaços, reparar rasgos, dar forma a algo que poderia se desfazer. E tudo isso de uma maneira muito linda!
Era isso que elas faziam: sustentavam os laços, guardavam as memórias, mantinham juntos os fios que a vida insistia em romper.
Mas essa transmissão não se dá sem riscos. Quando os traumas permanecem silenciosos, aquilo que passa de uma geração para outra pode se transformar em repetição. Filhas carregam dores que não viveram, ocupam lugares que não escolheram, sustentam expectativas que não lhes pertencem. Foi isso que a psicanálise me permitiu ver: não para romper os laços com o que veio antes de mim, mas para introduzir uma diferença. Para reconhecer o que pertence à história das outras e o que posso assumir como escolha própria. Nesse sentido, a análise transforma a herança em trabalho, e a linhagem deixa de ser um destino inevitável para se tornar um campo de elaboração, algo que se recebe, se examina e, em parte, podemos reescrever.
Compreender o peso dessa herança me fez olhar de forma diferente para o mundo que, por minha vez, estou prestes a legar. Aquilo que antes eu reconhecia como história familiar passou a ecoar como questão mais ampla: o que realmente transmitimos quando transmitimos a vida?
Talvez por isso essa questão hoje pese de outro modo. Já não parece tão evidente que o mundo seguirá seu curso como se nada estivesse em risco. Algo na ideia de futuro se fragilizou. As notícias de desastres ambientais se acumulam, conflitos se intensificam, e cresce a sensação de que vivemos uma época de rupturas sucessivas. Transmitir a vida às gerações seguintes deixa de ser gesto natural e passa a envolver uma pergunta inquietante: que mundo estamos realmente entregando?
Talvez a crise ambiental que atravessamos também possa ser lida como uma crise da transmissão. Durante muito tempo, acreditamos que o mundo poderia simplesmente continuar, que a terra, os recursos e o próprio futuro estariam sempre disponíveis para aqueles que viessem depois. Hoje essa confiança se fragiliza.
Transmitir a vida passa a implicar também a pergunta sobre que mundo poderá ser transmitido. Nesse ponto, as linhagens femininas, com toda sua ambivalência, com todas as suas dores não ditas, talvez tenham algo a nos ensinar. Não como modelo, nem como essência, mas como experiência histórica de sustentação em meio à adversidade. Em muitas famílias e comunidades, foram as mulheres que continuaram costurando os laços cotidianos quando as grandes narrativas entraram em colapso. Não porque eram heroínas, mas porque estavam ali, presentes, fazendo o que era necessário. Talvez exista aí uma forma particular de resistência: não a dos grandes gestos épicos, mas a da permanência silenciosa que sustenta o mundo quando tudo parece ruir.
Penso nas mãos da minha mãe sobre o tecido e seu gesto paciente em unir o que estava rasgado. Talvez seja disso que precisamos agora: não de grandes certezas, mas da disposição de continuar costurando: os vínculos, as memórias e a frágil confiança de que o mundo ainda pode ser transmitido.
Ana Lizete Farias é psicanalista, pós-doutoranda-UFRGS, doutora em meio ambiente e Desenvolvimento - UFPR
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Foto da Capa: Gerada por IA.

