E já começo me desculpando pela autorreferência, mas acho que a causa é boa. Ela pode promover uma ideia interessante como aquela que está por detrás de cada história, segundo o contador delas, Albert Camus. Para ele, em meio a tantos sentimentos, contamos para fazer valer um pensamento.
Eu tinha escrito O Boto do Arroto (editora Projeto), um poema narrativo sobre um boto que não conseguia parar de arrotar. Desculpo-me novamente (agora pelo spoiler), mas, no fim da história, ele consegue transformar todos os arrotos em alguma poesia. Há, sim, uma ideia ali, e essa permeia a minha própria vida, onde vou tentando transformar, com ou sem rima, os arrotos da existência em poemas com alguma transcendência.
Eu tinha escrito outro poema narrativo, A viagem da Bruxa (editora Libretos), sobre uma bruxa horrorosa que só deixava de ser horrorosa quando começava a rir. Peço desculpas, novamente, pelo novo spoiler, mas, no final, ela consegue até mesmo gargalhar, e isso a faz tão linda como uma fada. Essa é outra ideia que permeia a minha vida como vivente, escritor ou analista, onde vou tentando me sentir melhor para galgar alguns momentos de beleza.
Acontece que, na primeira história, o revisor errou o lugar de uma vírgula e a colocou entre um sujeito e um predicado. E, na segunda, eu mesmo me esqueci de colocar uma corcunda que cairia, perfeitamente, naquela bruxa. Então, em vez de lamentar, chorar ou padecer das feiuras cometidas pelo revisor e por mim mesmo, eu decidi fazer novas histórias, a partir daquelas.
Da vírgula mal colocada, surgiu a história da “Virgínia vírgula”, um livro que a editora Physalis publicará, em breve. Ele conta a luta de Virgínia, uma vírgula pária, marginal, abandonada, cujo sonho é encontrar um lugar para morar. Aqui não darei nenhum spoiler, mas é uma história para crianças, logo podemos e devemos imaginar um final feliz.
Da corcunda esquecida, na primeira bruxa, surgiu a história de uma outra, que é corcunda e sofre bullying, por causa disso. O começo, o meio e o fim (opa, spoiler) deste bullying é permeado por metáforas e jogos de palavras como devem ser nos textos infantis, e não só.
Enfim, do erro de uma história e da lacuna da outra vieram novas. A bruxa corcunda será lançada na próxima Feira do Livro de Porto Alegre. Virgínia, (não é erro, mas o título) está programada para o ano que vem. Mas, desde já, fica lançada, à la Camus, a ideia de que psicanalistas e escritores se valem de histórias fraturadas no passado para construir outras mais sólidas, no presente. E o seu desafio não é diferente de nenhuma outra existência nesta vida. Do arroto ao poema, da falta à solução, novos indizíveis e outras faltas não param de surgir, levando em seus colos o sonho e a esperança de uma história nova, diferente e melhor.
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Foto: Ilustração do livro O Boto do Arroto.

