Já era segunda-feira, e nada de inspiração. Passei os últimos dias com aquela sensação de que nada que eu dissesse teria valor. As ideias vinham, mas morriam antes de se tornarem frases. Tenho me sentido estranha. Não é a primeira vez, mas sempre é diferente. Fui invadida por um sentimento de impotência. De repente, me vi na contramão do curso natural das estações. Aqui em Portugal é início de verão. As ruas se enchem de vida, luz, gente sorrindo, sol, calor, praia. Tudo floresce — menos eu. Parece que meu outono interno esqueceu de mudar o calendário.
Até consigo racionalizar o que está acontecendo. Tenho uma condição autoimune que reativou recentemente. Nada grave, mas as dores, o cansaço constante, os efeitos colaterais da medicação, pesam. No corpo e na alma. E quando o corpo pede pausa, a mente insiste em culpa. A produtividade diminui, a energia some, e com ela vai embora a confiança. Entro em uma espécie de letargia. Não gosto de nada, não quero nada. Escrever pra quê, se não tenho nada a dizer? Escrever pra quem, se duvido que alguém se interesse pelos meus textos? Estes são apenas alguns dos pensamentos que insistem em sabotar o meu “fazer”.
Em alguns momentos, essa voz ressurge na minha mente dizendo que não sou boa o suficiente, que é melhor ficar quieta, desistir. Ela já veio sem nenhum aviso. Desta vez, acho que veio de mãos dadas com o probleminha de saúde. Sou consciente de que exagero na autocrítica e tenho tendência a focar nas falhas e erros. Detesto perder o controle, e como esse é um ponto que não consigo controlar — a questão autoimune — o resultado é que acabo me deixando afetar.
Talvez aqui você já saiba que essa “voz” tem nome e sobrenome. O termo começou a ser utilizado em 1978 pelas psicólogas norte-americanas Pauline Clance e Suzanne Imes, que identificaram um padrão em mulheres que se sentem uma fraude em alguns momentos. Graças a elas, eu vos apresento a entidade que me acompanha neste momento e que quase me fez desistir de escrever: Síndrome da Impostora.
Essa desordem psicológica, apesar de não ser classificada como doença mental pela Organização Mundial da Saúde (OMS), é bastante estudada. Os pesquisadores identificaram pelo menos cinco tipos de “impostores”: o perfeccionista, o especialista, o gênio, o individualista e o super-homem/mulher. Nem cabe aqui o detalhamento do assunto, pois isso cabe aos especialistas, o que está longe de ser o meu caso. Eu só escrevo.
E hoje eu escrevi. Mesmo com dor, mesmo sem certezas. E talvez seja exatamente por isso que esse texto faça sentido.
Assim como há remédios para o corpo, há de haver também os que nos curam a mente. Saber reconhecer e lidar com esses sentimentos pode ajudar a conseguir quebrar o ciclo.
Me forçar a fazer este texto talvez seja uma forma de reencontrar o ritmo. Porque nem todos os dias precisam ser de performance, e nem todo texto precisa ser perfeito. Às vezes, ele só precisa existir.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

