Imaginemos uma cidade não muito distante. Uma cidade que cresceu como tantas outras: a partir de seu centro histórico. Aos poucos, o calçamento chegou, as fachadas foram se ajeitando, as ruas e praças ganharam bancos, árvores e iluminação. Tudo fruto do esforço coletivo — de trabalho, de impostos, de paciência. O centro agora era o cartão-postal: ruas bonitas, praças floridas, transporte público, água encanada, esgoto, vida. E, agora, fruto da qualificação urbana, construída entre todos, o valor dos lotes privados começou a subir. Afinal, quem não quer morar onde tudo funciona?
O preço da prosperidade finalmente ficou alto demais para quem a construiu. Os trabalhadores, mão de obra essencial para o funcionamento urbano, tiveram que se afastar, pois não tinham suficiente remuneração para viver ali. Foram levantando suas casas com as próprias mãos, tijolo a tijolo, nas bordas da cidade. Ali, entre o sonho e a necessidade, nasciam as primeiras ocupações periféricas, fora da planilha de planejamento.
O tempo passou, a cidade cresceu e a roda da história girou do mesmo jeito. Novas avenidas, novas empresas, novos prédios… e, no caminho do progresso, aquelas casinhas simples começaram a parecer um incômodo. O poder público, então, teve uma ideia “moderna”: construir moradias populares mais longe, para liberar espaço para o desenvolvimento. E assim, o futuro se expandia — sempre um pouco mais adiante e sempre caro demais para seus trabalhadores de base.
E o lugar reservado para os trabalhadores ficou longe demais.
Lá longe as pessoas precisavam de escolas, transporte, saúde, ruas iluminadas. Tudo isso, quando atendido, era feito aos poucos, quando dava. Afinal, aquela parte periférica nunca fez parte do “plano do futuro”.
Décadas se passaram, e o ciclo sempre se repetiu. O perímetro urbano, agora limítrofe com outros municípios, ampliado e inchado ao máximo, gera custos exorbitantes — mais quilômetros de asfalto para manter, mais iluminação pública, mais ônibus e caminhões para rodar. No balanço das contas, a cidade e seus gestores se tornaram ineficientes.
E, ironicamente, o centro vem se esvaziando, mas continua valioso, pela localização e serviços, mesmo com janelas fechadas e prédios ociosos. Seus moradores, possuidores dos melhores empregos e recursos, se mudam para os bairros mais novos, com prédios recém-construídos, mais modernos e tecnológicos.
Essa história não é ficção. É o retrato fiel do desenvolvimento de quase todas as capitais brasileiras — e de muitas cidades médias também. Em Porto Alegre, por exemplo, os bairros mais populosos, além de possuírem baixos índices de renda, ficam a mais de 15 quilômetros do centro — Restinga, Lomba do Pinheiro, Sarandi e Mário Quintana. E o centro? Este ocupa o décimo lugar na lista dos bairros mais populosos, com índice alto de renda, ao mesmo tempo que possui um número significativo de imóveis vazios.
Quanta insustentabilidade! Em plena COP 30!
E isso não afeta apenas a capital. Basta olhar no mapa: em Viamão, a mancha urbana cresce no limite municipal com Porto Alegre, afetando nosso principal reservatório de água, o Parque Saint Hilaire. E o mesmo acontece em Alvorada, Canoas, Cachoeirinha… uma ocupação horizontal que devora natureza e multiplica desigualdades sem resolver a principal questão: a qualidade de vida dos trabalhadores da capital.
E permanece a pergunta: de quem é a culpa?
Talvez não importe tanto apontar o dedo, e sim olhar para frente. As cidades que já não crescem como antes precisam repensar seu modelo de desenvolvimento. Está na hora de trazer de volta quem constrói a cidade todos os dias. Adensar o centro, ocupar os vazios urbanos, dar vida aos prédios ociosos — não apenas favorecer que seja um metro quadrado caro, afinal isso só beneficia os proprietários dos lotes e imóveis existentes, mesmo que vazios, deixando a coletividade do lado de fora, sem usufruir daquilo que ajudou a construir.
A realidade é que as capitais que pararam de crescer deveriam, neste momento, revisar seu modelo de desenvolvimento de forma a atender sua população. Adensar os centros urbanos esvaziados com os verdadeiros construtores da cidadania. Aproveitar as riquezas existentes, as escolas, postos de saúde, espaços de lazer e de cultura. Porto Alegre perdeu 76.781 (5,4%) da população na última década, segundo o censo de 2022. Lembrando que este levantamento foi feito antes da enchente de 2024.
Aproximar trabalho e moradia continua sendo um dos grandes desafios urbanos. A verdadeira inovação está em enfrentar os problemas reais, rompendo ciclos que apenas reproduzem e ampliam os mesmos problemas. É preciso reintegrar ao centro quem nele trabalha e, ao mesmo tempo, investir e adensar as centralidades produtivas já existentes, incorporando moradia, educação, saúde e lazer, aproveitando recursos subutilizados, qualificando e empregando quem morar ali.
Para zonas centrais há exemplos inspiradores. Em São Paulo, desde os anos 2000, 23 edifícios abandonados foram requalificados, resultando em mais de 1.500 moradias de valor acessível. Pouco para o tamanho da cidade, mas um grande logro dentro da estrutura da nossa sociedade. Isso foi possível porque diferentes programas — federais, estaduais e municipais — se combinaram. Neste caso, PAR Reforma (Federal), Locação Social (Municipal), Programa de Cortiços PAC CDHU (Estadual), Minha Casa Minha Vida Entidades (Federal).
Recursos e ferramentas existem; o que falta é vontade política.
Vontade política se conquista com gente consciente.
Por isso, mais do que reclamar dos políticos, precisamos nos lembrar de que a cidade é nossa. Cabe a nós exigir, propor, acompanhar. Se todos ganharem um pouco, todos ganharemos muito.
É hora de arrumar a casa.
Todos os textos de Cibele Figueira estão AQUI.
Foto da Capa: Ricardo Stuckert / PR

