Você que me lê ou tu que me lês! Já levou, já levaste um bolo?
Não digo de quando te deixaram plantada no café sozinha ou feito bobo no escritório até menos cinco minutos antes do horário marcado, quando, então, decidiram te avisar que não chegariam a tempo, desculpa! Também não tô falando de ti, colega de profissão, que aguardou em vão a chegada de um paciente, assim como tampouco se trata do bolo no date – sempre um embaraço.
É sobre uma vontade espontânea de distribuir algo de si, aquilo que pode estar te sobrando – ou te faltando. Falo de distribuição de amor comunitário. Por nada, só por necessidade gregária mesmo. Isso te acomete e tu agarras essa sanha e prepara um bolo e leva para a tua vizinha. Não, ela nunca te deu nada. Quer dizer, talvez sim, porque ela sempre te cumprimenta com alegria, apesar de, na maioria das vezes, te encontrar de arrasto feito lava preguiçosa pelos corredores. Ela sorri e tu, por reflexo, levanta as bochechas, exalando teu cansaço e emitindo o teu cumprimento chocho. Aquele mesmo que tu insistes em chamar de educação. Abres a porta da tua casa e te afundas no sofá com o teu celular. Te entregas, assim, sem resistência, ao scrolling infinito.
Quero confessar que não me aconteceu muitas vezes e que ando sentindo muita falta de levar o bolo. É triste, mas nossa vivência comunitária acabou, se diluiu nas telas de plasma. Essa semana vi um vídeo do pediatra Daniel Becker falando sobre como o número de pernas e braços quebrados na infância vem se reduzindo. No entanto, isto não é um logro, não merece celebração, já que o pediatra pondera que essa situação se coaduna ao crescente e problemático abuso de telas na infância e à falta de socialização comunitária. Digo abuso pensando no que já se sabe e vem sendo endossado cientificamente sobre o quanto o uso excessivo de telas é absolutamente viciante e prejudicial como tantas drogas. Em relação aos adolescentes e adultos, por outro lado, outras pesquisas mostram um grande declínio da vida noturna. Por um lado, vantagens, menos álcool e direção, por exemplo. Certamente menos pernas e braços quebrados também. Por outro, um grande incremento de solidão e de corações partidos de novas formas, além do acesso a outros perigos, por vezes, maiores do que os exteriores.
O bunker urbano – os condomínios e as casas de aparência sólida, sem cores e que não dialogam com o exterior – dá a sensação de afastar a inveja dos vizinhos e de proteção. Enquanto isso, lá dentro, abrimos as portas a inimigos que roubam nossos dados, as fotos manipuláveis de nossas crianças, as vivências psicomotoras e emocionais que elas exercitariam muito mais em uma praça, calçada ou parquinho.
Estão roubando principalmente o nosso tempo; enquanto isso, nós, sisudos, seguiremos isolados, sabendo sobre o que se passa na China e ignorantes sobre a nossa esquina.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

