Esta semana ouvi um amigo dizer “não uso e não quero aprender” a usar a Inteligência Artificial (IA). Esta declaração não foi apenas uma preferência, foi um lamento, um último suspiro de resistência contra uma maré que já invadiu nossas praias. Isso me fez lembrar do que ocorreu quando deixamos de usar a máquina de escrever e passamos a usar o computador, quando deixamos o telefone fixo para usar o celular. As novas tecnologias costumavam ser ferramentas que chegavam e mudavam o nosso jeito de viver e de fazer as coisas. Mas desta vez é diferente. A IA não é apenas uma ferramenta, é um reorganizador radical da sociedade, e sua recusa em aprendê-la não a fará desaparecer. Pelo contrário, ela o deixará para trás, sozinho em um mundo que não para de girar.
Lembro de um episódio revelador: num restaurante simples, uma cliente xingou o garçom porque não havia cardápio impresso — o pedido precisava ser feito via QR code no celular. Em muitos cafés já há tablets na mesa para pedir o café. Esses pequenos constrangimentos mostram que a tecnologia não é abstrata: está no nosso cotidiano. Ainda falamos com atendentes de bancos, empresas de telefonia, água e energia — mas será por pouco tempo. Grande parte dos ingressos de cinema, teatro e shows já são adquiridos usando uma IA. Me arrisco dizer que em cinco anos, resistir a ela o tornará um “analfabeto digital”, semelhante ao que ocorre hoje com os idosos que vão ao banco e pedem ajuda ao assistente para inserir seus dados no caixa eletrônico.
Os professores estão sentindo esse impacto na carne. Especialmente nos cursos de graduação, boa parte dos alunos costuma entregar trabalhos impecáveis, mas feitos por IA. O velho modelo de “dar tarefa para avaliar conhecimento” já caducou. A qualidade do texto ou da resposta deixou de ser prova de reflexão; tornou-se prova de habilidade em usar ferramentas. O desafio pedagógico é brutal: como promover pensamento crítico, como medir progresso real, como avaliar o desenvolvimento humano quando a produção intelectual pode ser terceirizada para um algoritmo?
A IA acelera obsolescências, não de máquinas, mas de carreiras. Ouço pessoas dizerem que “a IA não vai substituir professores, mas os professores que usam IA vão substituir os que não usam”. Antes fosse só isso. Já existem instituições demitindo docentes e deixando a automação assumir tarefas. Profissões desaparecerão; outras nascerão, mas estimo que as novas profissões não serão capazes de inserir neste mercado os desempregados. É um “Darwinismo digital brutal”: adaptar-se ou perecer. A pergunta é: a IA vai reduzir custos para o empregador, e o que vai acontecer com os que perderam seus empregos para IAs?
No plano social, o desconhecimento é também uma porta aberta para manipulações. Saber pouco sobre IA dificulta identificar deepfakes (a troca de rostos e vozes em vídeos), vídeos montados e narrativas fabricadas. Sim, há perigos reais: a terceirização de nosso cérebro, os erros factuais, o custo ambiental colossal dos data centers, a concentração de poder em poucas mãos. Num contexto eleitoral isso pode afetar a reputação de candidatos, desvirtuar propostas e influenciar no resultado das eleições. Tudo isso pede um debate público e, na minha opinião, toda nova tecnologia que impacta a vida das pessoas deve sim ser regulada e os seus criadores responsabilizados se ela causar danos à sociedade.
Por outro lado, não podemos ignorar as utilidades concretas: a IA realiza em segundos tarefas que levariam dias, apoia diagnósticos, otimiza processos e pode ampliar nossa produtividade e criatividade, se usada com critério. Portanto, a solução pragmática passa por educação acessível, capacitação contínua e redes de apoio, cursos comunitários, programas universitários para quem está fora do mercado formal, e iniciativas públicas que reduzam a desigualdade de acesso.
Há também um preconceito em torno da produção textual com apoio da IA. Recentemente teve uma polêmica quando uma autora revelou que “10% do seu livro foi escrito por IA”. Existe um debate sobre onde termina o autor e começa a ferramenta? Eu escrevo minhas colunas e depois peço ao ChatGPT que reescreva ou sugira alternativas; comparo, aprovo e reaproveito o que enriquece o texto. Para mim, isso é edição, não trapaça, é como aceitar sugestão de um revisor humano que melhora a clareza sem apagar a voz original.
Portanto, aquele frio na espinha é justo. O fascínio, também. Estamos diante de uma força tão transformadora quanto a imprensa de Gutenberg. A nostalgia do mundo analógico é um conforto, mas não um porto seguro. A escolha final não é entre usar ou não usar. É entre ser um agente consciente dessa transformação ou ser seu refém inconsciente. A IA vai existir. O que resta decidir é quem nos tornaremos diante dela.
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