“A situação do salário das mulheres e o projeto do salário-família afetam a situação das mulheres que executam os trabalhos caseiros, mas também coloca a pergunta se é justo jogá-las no mercado laboral numa competição produtiva de acordo com as regras vigentes do capitalismo“.
São afirmações de John Maynard Keynes (1883-1946) pronunciadas em 1931, numa conferência intitulada “Por que sou liberal”. Na ocasião, ele se preocupava com o grande número de homens e mulheres desempregados, consequência da crise mundial do capitalismo iniciada em 1929.
Na década de 40, Keynes, guru de uma nova economia para o século XX, e o norte-americano J. K. Galbraith (1908-2006), na ocasião encarregado do controle dos preços em todos os Estados Unidos, atribuíam ao Estado a responsabilidade pela condução da economia e previam inclusive a possibilidade de um déficit nas contas governamentais, ideia revolucionária que soava como uma nefanda heresia para os homens de negócios norte-americanos.
Galbraith encarava com ceticismo “as extravagâncias das teorias econômicas quando não justificadas pelos dados empíricos”. Por exemplo, no seu livro intitulado “In The New Industrial State” (1967), afirmava que muito poucas indústrias nos Estados Unidos enquadram-se no modelo da concorrência perfeita.
Keynes, por sua vez, sempre disse que a economia devia ser somente um meio para criar as condições nas quais a maioria dos homens pudesse dedicar seu tempo para a cultura e para as artes. Detestava os “rentistas ociosos”, que, segundo sua visão, deveriam abandonar seus palácios com seu exército de serventes e se dedicar ao trabalho produtivo. E que “o problema político da humanidade é combinar três condições: a eficiência econômica, a justiça social e a liberdade individual”. Por isso é que, segundo Paul Samuelson (1915-2009), economista neokeynesiano, Keynes transformou a economia de uma ciência triste para uma ciência alegre.
A visão social humanista desses economistas não foi casual ou apenas uma outra interpretação da economia capitalista, entre tantas já existentes à época.
Galbraith, além de economista por formação, era um bom escritor e um erudito filósofo.
E a visão que tinha de certos setores da economia capitalista era revelada num de seus aforismos preferidos: “A maneira como os bancos ganham dinheiro é tão simples que é repugnante”.
Quanto a Keynes, ele pode ser incluído entre filósofos políticos e um raro economista interessado nas artes. Foi decisiva sua adesão ao famoso grupo Bloomsbury, onde transitavam Virginia Woolf, Roger Fry, pintor expressionista, Clive Bell, crítico de arte, e outros intelectuais.
Bloomsbury não só renovou a arte e a literatura como também os costumes da Inglaterra puritana do início do século XX. Seus integrantes eram partidários de uma moral baseada na razão e na liberdade e de um sistema de valores que objetivava a beleza, o amor, a verdade e se afastava do heroísmo e da santidade. Virginia Woolf revelou que “o sexo impregnava nossa conversação. A palavra homossexual era dita sem rodeios, analisávamos as relações sexuais com o mesmo entusiasmo e a mesma franqueza com que discutíamos a natureza do bem”.
Eram também desinibidos em suas práticas sexuais heterodoxas. Keynes escandalizou a sociedade de seu tempo quando se casou com uma bailarina dos Balets Russes e, ao mesmo tempo, mantinha relações homossexuais com seus discípulos e com amigos dos ambientes artísticos que frequentava.
Um de seus adversários foi Friedrich von Hayek (1899-1992), que publicou em 1944 “O Caminho da Servidão“, no qual comparava o socialismo com o nazismo, pregava a total abstenção do Estado na economia e que, num dos inúmeros debates que teve com Keynes, afirmou que “A imoralidade leva ao estatismo e a homossexualidade leva à inflação“. Ao que Keynes respondeu que Hayek era “um exemplo extraordinário de como, partindo de um erro, um lógico implacável pode terminar num manicômio”.
Na realidade, o que Galbraith e Keynes, dois lúcidos economistas liberais, queriam era evitar a transformação do capitalismo num “ogro financeiro”, o qual devora o trabalho produtivo da maior parte da população e transforma o produto desse trabalho em rendas financeiras que se multiplicam ao infinito, sem nada produzir. Tem razão Gore Vidal (1925-2012), que definiu “a economia americana como um sistema misto: socialismo para os ricos que dividem 90% da riqueza da nação entre si e deixam os 10% restantes para a maior parte da população disputar o que sobra numa renhida e cruel competição capitalista”.
Enfim, é o 1 x 99, sigla de movimentos de protesto social nos EUA e em muitos alhures.
Franklin Cunha é médico e membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
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Foto da Capa: Jonh Keynes, 1940.